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02. Gampopa - A Preciosa Guirlanda - Introdução

gampopaSão Paulo, 11 de Agosto de 2013,

Queridos(as) Amigos(as),

É com alegria que iniciaremos o estudo do texto de As Instruções de Gampopa: A Preciosa Guirlanda do Caminho Supremo, por sugestão e sob orientação do nosso querido Lama Trinle. A escolha tem um grande significado para nós. Como o próprio Gampopa disse, pouco antes de sua morte: “No futuro, aqueles que pensarem, ‘Alas, eu não pude encontrá-lo’, deverão simplesmente estudar e praticar os textos que compus: A preciosa guirlanda do caminho supremo e O precioso ornamento da liberação e outros. Isso será o mesmo que encontrar-me pessoalmente; não há nenhuma diferença em particular. Aqueles que estiverem encontrando dificuldades de compreensão e prática do dharma pensem em mim e supliquem com devoção. As bênçãos surgirão naturalmente”.

Em seguida, Gampopa destacou: “Muitas coisas ruins podem acontecer com os seres sencientes e é difícil beneficiá-los. Não faça esforços para construir assentos do dharma, imagens, estupas e daí por diante. Praticar o dharma corretamente , de acordo com os ensinamentos é o verdadeiro assento, a vida e a liberação dos lamas”.

Gampopa viveu ao longo dos séculos XI e XII, foi casado e teve dois filhos. Subitamente a vida levou toda a sua família e no leito de morte de sua esposa ele prometeu dedicar sua vida à prática do dharma. Aos vinte e seis anos tomou a ordenação completa de monge e recebeu o nome de Sonam Rinchen. Gampopa seguiu a tradição Kadampa, originária do mestre Atisha, e durante o seu percurso de prática tornou-se o principal discípulo do grande yogi Milarepa, aluno do tradutor Marpa, detentor da linhagens de prática de Naropa e Tilopa.

Também merece destaque sua relevância para a gloriosa linhagem Shangpa. De acordo com a autobiografia do grande Mokchokpa, jóia da Gloriosa Shangpa: “Depois da morte de Khyungpo Neljor, passei dois anos em retiro solitário. Então, para esclarecer algumas dúvidas da minha prática, eu parti para encontrar Lama Gampopa, tendo-o encontrado numa caverna. Lama Gampopa estendeu seus braços e colocou uma kata branca em minhas mãos. Deixando seu bambu de caminhada no chão, ele se dirigiu a mim e disse: “Você é meu discípulo e nós fomos mestres, um do outro, por muitas vidas. Mas essa é a primeira vez que nos encontramos nessa vida. Com lágrimas nos olhos ele cantou um canto vajra (...)”.

Ao longo dos nossos estudos utilizaremos como referência os comentários do nosso querido Khempo Karthar Rinpoche, que visitou nosso Centro de Dharma em Brasília/DF - Kagyu Pende Gyamtso, em 2008. Nesse mês, Khenpo Khartar Rimpoche completa 90 anos e, então, dedicaremos nossa prática à sua longa vida. E, claro, dedicaremos todos os méritos acumulados por nossa conduta de estudo e prática ao nosso querido mestre Khyabje Kalu Rinpoche. Que sua atividade possa florescer em sua plenitude para o benefício de todos os seres sencientes, sob os auspícios das dakinis de sabedoria da Gloriosa Shangpa.

Lama Uangdu


Ensinamentos em Audio sobre Gampopa e sua obra: clique aqui

 

 

03. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 1 - As Dez Causas de Lamentação

gampopaAs Instruções de Gampopa
A Preciosa Guirlanda do Caminho Supremo

Conforme havíamos anunciado, é com grande satisfação que disponibilizamos o primeiro capítulo desse livro maravilhoso “A Guirlanda Preciosa do Caminho Supremo”, do Gampopa, com os respectivos comentários do Khenpo Khartar Rimpoche. (Clique aqui para baixar o texto)

Lama Uangdu 


NAMO RATNA GURU

A conduta perfeitamente pura é o ornamento dos Lamas da preciosa Linhagem Kagyüpa. São eles que liberam do oceano de terror, o Ciclo das existências, tão difícil de atravessar.

Tomo refúgio, prosternando-me diante dos Santos Lamas da imaculada Linhagem da Prática. Suas vastas aspirações perduram e realizam-se espontaneamente e as ondas de sua graça são inesgotáveis como o grande oceano.

Concedam-me sua graça!

Tendo mantido por muito tempo em minha mente as palavras originárias desses Lamas Kagyüpas, compus essa guirlanda preciosa do caminho supremo, essas instruções que me são caras e que destino aos afortunados ligados à mim: meus discípulos diretos e aqueles da Linhagem.

AS DEZ CAUSAS DE LAMENTAÇÃO - Capítulo 1

O texto

Aqueles indivíduos que aspirarem alcançar a liberação e a omnisciência da budeidade devem, desde o início, relembrar as dez causas de lamentação:

1. Engajar esse corpo humano puro, difícil de obter, em ações não virtuosas e negativas é lamentável.

2. Esse corpo humano puro, (dotado) das (8) liberdades e (10) aquisições, difícil de obter, deixá-lo perecer em ações mundanas em desconformidade com o dharma, é lamentável.

3. Nesta época degenerada, desperdiçar essa breve existência humana com atos insensatos, é lamentável.

4. Deixar a mente em si, cuja natureza é o dhamakaya livre de fabricações, afundar na lama das confusões do samsara é lamentável.

5. Deixar o santo lama, que guia ao longo do caminho antes de alcançar o despertar, é lamentável.

6. Deixar que esse barco, os votos e compromissos que permitem alcançar a liberação, sejam destruídos pelo poder das circunstâncias, paixões e da desatenção é lamentável.

7. A realização e a experiência alcançadas pela graça do lama, deixar esvaírem-se pela selva das ações mundanas é lamentável.

8. Vender as profundas instruções orais dos mestres realizados aos profanos, indignos de recebê-las, é lamentável.

9. Todos os seres sencientes, que foram nossos bondosos pais e mães, rejeitá-los e abandoná-los com uma mente hostil, é lamentável.

10. As três portas no desabrochar da juventude, deixá-las recair na indiferença ordinária, é lamentável.

Essas são as dez causas de lamentação

AS DEZ CAUSAS DE LAMENTAÇÃO – COMENTÁRIOS KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

Gampopa diz que aqueles que quiserem obter a liberação, bem como o estado de onisciência ou a completa budeidade, devem se lembrar constantemente das dez causas de lamentação.

A primeira das dez causas de lamentação é a má-conduta. O ponto aqui é que a única causa possível para se experimentar uma existência humana, que é a base para a prática do Dharma, é manter uma conduta ética pura. Uma vez que raríssimos seres preservam, de alguma forma, uma conduta moral genuína, muito poucos alcançam uma existência humana. Em geral, as pessoas não praticam o que é virtuoso, mas se engajam naquilo que é nocivo – má-conduta. Até que se renuncie à má-conduta, a pessoa jamais alcançará a liberação do sofrimento ou mesmo livrar-se dos domínios inferiores de existência, o que dirá da omnisciência, e não terá qualquer habilidade para beneficiar os demais. Portanto, a primeira coisa a se lamentar é uma má-conduta.

A segunda causa de lamentação é desperdiçar a preciosa existência humana, dotada das oito liberdades e dez aquisições. De fato, é importante considerar que somente um ser dotado dessa preciosa existência humana, com essas dezoito características, dispõe das habilidades para a prática do Dharma. A primeira causa de lamentação envolve a conduta que impede um nascimento humano. Aqui, estamos preocupados nas ações que nos impedem de obter uma existência humana particular denominada "preciosa existência humana", dotada das oito liberdades e dez aquisições.

A terceira causa de lamentação é a distração sem sentido e as ocupações sem sentido. A época em que vivemos é chamada "era decadente". Dentre os aspectos dessa decadência está o fato de que nossa vitalidade é muito fraca. Existem poucos fatores que nos mantém vivos, mas muitos que nos conduzem à morte. Além disso, a morte pode ocorrer muito rapidamente e por um grande número de causas. Assim, é importante lembrar-se que não há tempo a perder. Portanto, a terceira causa de lamentação são as atividades de mera perda de tempo, ou seja, distrações.

A quarta causa de lamentação é o vício pela conceitualização e as aflições subsequentes. É dito que a verdadeira natureza da mente como ela é – a mente em si – é o dharmakaya. Todas as qualidades do dharmakaya estão espontaneamente presentes em nós. Elas são o que realmente somos. Entretanto, ao não reconhecermos isso, tendemos a seguir os pensamentos viciados que surgem na mente. Somos capturados pelas aflições mentais que eles produzem e isso o reconhecimento da mente.

A quinta causa de lamentação é a situação na qual rapidamente desenvolvemos um desgaste na relação de confiança pelo professor e na prática de suas instruções. É importante compreender que a única base possível, a partir da qual podemos alcançar a liberação do intenso sofrimento do samsara, é receber e praticar as instruções especiais dos nossos lamas. Desconsiderar o valor do receber e praticar tais instruções para engajar-se em vários tipos de atividades sem sentido é a quinta causa de lamentação.

A sexta causa de lamentação é a situação na qual o praticante danifica ou destrói qualquer um dos três votos. Em geral, diz-se que o único recipiente por meio do qual podemos cruzar o oceano de sofrimento samsárico e alcançar o domínio da grande felicidade, o domínio da liberação, o estado de budeidade, é o excelente vaso dos três tipos de votos ou compromissos. Eles são: 1) o voto exterior da liberação individual (voto pratimoksha); o voto interior (voto dobodhisatva), e 3) os votos vajrayana ou samaya. Permitir que esses três votos sejam danificados por meio de intensas aflições mentais (klesha) ou mero descuido é causa de lamentação.

A sétima causa de lamentação é descontinuar a prática após ter alcançado uma pequena realização por meio da confiança num amigo espiritual ou guru. Tendo alcançado alguma realização, você pode tornar-se facilmente distraído por atividades mundanas, abandonando as instruções e a prática e, assim, impedindo um desenvolvimento maior da experiência e realização.

A oitava causa de lamentação é a situação na qual não tendo uma realização genuína, mas tendo ouvido uma grande quantidade de ensinamentos profundos dos siddhas da linhagem, você repete suas instruções a muitas pessoas visando atrair estudantes e tornar-se rico, popular e poderoso. Você engana muitas pessoas fingindo ter realização. Essa é a oitava causa de lamentação.

A nona causa de lamentação é a atividade que prejudica outros seres sencientes. Isso deve ser evitado, uma vez que todos os seres sencientes têm sido nossos pais e, enquanto nossos pais, têm sido extremamente bondosos conosco. Outra razão é que a bodhicitta altruística é a espinha dorsal do caminho para a liberação. Portanto, é necessário abrir mão de toda a conduta rancorosa e especialmente aquelas que verdadeiramente prejudicam os outros. É importante lembrar que a geração e aplicação da bodhicitta dependem inteiramente da interação com os demais seres sencientes. Portanto, é necessário ter todos os seres sencientes como objetos de compaixão e realmente gerar compaixão por esses seres.

A décima causa de lamentação é a procrastinação, e o que se perde é o corpo, palavra e mente – as três portas. Especialmente quando se é jovem, com o corpo é forte, a mente clara e a palavra flexível, você não se engaja na prática do Dharma porque se sente impelido às atividades mundanas. Enquanto faz isso, você pensa, "Eu vou praticar o Dharma quando for mais velho, quando as coisas se acalmarem um pouco". Então, não praticando quando se é jovem, você vê que quando fica mais velho não pode praticar porque não tem o hábito de fazê-lo. Você já não é mais tão forte como antes, é mais difícil aprender as coisas e daí por diante. Esse tipo de procrastinação é definitivamente causa de lamentação.

Essas são as dez causas de lamentação.


Lama Wangdu - Ensinamentos e comentários sobre este capítulo:

24/08/2014 -

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31/08/2014 -

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09/10/2016

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04. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 2 - As Dez Coisas Necessárias

gampopa

AS INSTRUÇÕES DE GAMPOPA
A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS NECESSÁRIAS - Capítulo 2

O Texto

As dez coisas necessárias:

1. É necessário ser independente para que não se deixar levar por conselhos;

2. É necessário praticar com fé e diligência, de acordo com as instruções do santo lama;

3. É necessário selecionar as instruções do lama de maneira inequívoca, compreendo a distinção que há entre instruções apropriadas e inapropriadas.

4. É necessário desempenhar as instruções do lama com sabedoria, fé e diligência.

5. Utilizando-se da plena atenção (“mindfulness”), da vigilância e da prudência, é necessário conservar sem máculas o corpo a palavra e a mente.

6. É necessário ser estável e independente na prática, possuindo coragem e a armadura da diligência.

7. É necessário ser sem apego, sem se deixar levar facilmente pelos outros.

8. Utilizando a preparação, execução e conclusão, é necessário perseverar sem descanso na reunião das duas acumulações.

9. Com amor e compaixão, é necessário voltar a mente para a realização direta ou indireta do bem dos seres.

10. Unindo sabedoria, compreensão e realização, é necessário não se enganar, considerando os objetos do conhecimento como possuindo alguma substancialidade dotada de características próprias.

Essas são as dez coisas necessárias.

AS DEZ COISAS NECESSÁRIAS - COMENTÁRIOS KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

Gampopa em seguida apresenta as dez coisas necessárias, para uma correta prática do dharma. A primeira delas constitui em manter o comprometimento à prática do dharma até a sua conclusão, seja de forma geral ou especifica, qual você esteja fazendo no momento.  Se você não possuir tal comprometimento, você facilmente será levado por opiniões, conselhos e conversa de outros, e acabará não concluindo aquilo que começou. Para manter um forte comprometimento, você deve saber com detalhes e precisão os pontos essenciais da pratica que esta fazendo. Esse comprometimento vai crescer ao considerarem-se as dez causas de lamentação.

A segunda coisa necessária é por meio da fé e diligência realizar as vontades e instruções do seu Lama. Fé é praticar e cumprir com satisfação, as instruções dadas pelo Lama, pelo fato de reconhecer os benefícios de fazê-la. Diligência é, com entusiasmo, realizar efetivamente as instruções dadas, na qual se tem confiança. Através desta forte fé e intensa diligência você é capaz de colocar as instruções do seu Lama realmente em prática.

A terceira coisa necessária é praticar perfeitamente, com habilidade e compreensão, as instruções do seu Lama. Embora as instruções não possuam defeito, a forma que você as emprega pode sim ser defeituosa.  Por exemplo, se você tentar praticar o mantra secreto, sem qualquer renúncia do samsara e sem ter gerado a bodhicitta, embora as instruções do mantra secreto sejam profundas e imaculadas, a sua prática será totalmente ineficaz e não gerará qualidade alguma. Por isso é importante colocar o dharma em prática com habilidade, e com a compreensão da sua sequencia correta.

A quarta coisa necessária é preservar na prática uma forte confiança nos Ensinamentos e a visão correta sobre os seus significados. Significa colocar as instruções do Lama em prática, sem confundir o seu significado, de acordo com as intenções do Lama de como deve ser realizada a pratica. Sherab ( ou prajna em sânscrito)- significa conhecimento transcendente - vem da perspectiva de que só através de uma visão (“insight”) inquisitiva sobre o significado das instruções que recebeu, você será capaz de pratica-las apropriadamente.

Além disso, essa pratica deve ser prolongada até você gerar a extensão das qualidades que o seu Lama possui, adquirindo a mesma realização que ele.  Pela fé inabalável ou confiança no valor e eficácia, você persevera na pratica. Então, a quarta coisa necessária é a perseverança correta na pratica através da visão e confiança.

A quinta coisa necessária a se manter inclui a plena atenção (“mindfulness”), a vigilância e prudência. Você deve estar consciente da conduta que deve ser adotada ou abandonada.  Você deve estar atento e alerta na medida empregada da atenção. Finalmente, a partir da plena atenção e vigilância, você deve ter o cuidado de reparar quaisquer falhas ou desvios.

Se você aplicar estas três qualidades, seu corpo, fala e mente serão puros dos defeitos de conduta defeituosa. Por outro lado, se você não tiver a plena atenção, você não vai lembrar-se do que deve ser adotada ou abandonada. Se não tiver a vigilância, nada em sua conduta lhe permitirá ver atentamente o que você está fazendo. Mesmo se você se lembrar do que deveria fazer, não será capaz de realizar, porque você está perdido.

Se não houver prudência, quando você começa a se perder na conduta com defeito, não terá maneira de trazê-la de volta, por não ter o hábito da atenção plena ao que você está fazendo.

O resultado da falta destas três qualidades são que seus votos e o samaya serão prejudicados. Portanto, antes de se reunir com os inimigos da distração, você deve cercar-se com a armadura da plena atenção, vigilância e prudência, de modo que quando você for "atacado" não será destruído.

A sexta coisa que é necessária também são compostas de três pontos: a armadura do comprometimento, a coragem e a estabilidade na prática. Através da armadura do comprometimento, você não renúncia o seu compromisso com a prática. Através da coragem, os obstáculos e problemas que surgem durante a vida ou durante a prática não afetam a você. Você não permite que esses obstáculos e problemas, o afastem da prática, faça-o desistir de praticar. Através do seu comprometimento e coragem, você cria uma estabilidade em sua prática que é inabalável e sem medo, e impede que você seja afastado da prática por força de circunstâncias inesperadas. Se você se permite ser desviado da prática pelo menor incidente que seja, por obstrução ou a sua interrupção então você é pior do que qualquer pessoa mundana. Pessoas em atividades mundanas têm grande paciência diante de interrupções e obstáculos. Portanto, é muito importante para os praticantes do dharma mostrarem o mesmo  comprometimento e coragem.

A sétima coisa necessária é estar livre do apego (chag may) e da ausência de vício (zhen may). A frase tibetana para este significado, literalmente; “não deixe o seu anel de nariz ser pego por outros”.  As vacas tem em seu nariz uma argola, para ser facilmente levadas, através de uma corda. Se você é livre de qualquer tipo de apego ou vício de lugares específicos, de pessoas, dos seus bens, de experiências prazerosas ​​dos cinco sentidos, ou de objetos desejáveis que possam ser experimentados pelos cinco sentidos, então você está no controle de si mesmo e ninguém pode controlá-lo. No entanto, ter apego às condições agradáveis ​​e situações particulares é o mesmo que ter uma argola no seu nariz, com uma corda amarrada, e na outra extremidade uma pessoa puxando, para onde quer que ela queira que você vá. Apenas quando você possui uma argola ao redor de sua própria cabeça, sem deixá-la sobre o controle de ninguém, é que você poderá praticar  o dharma.

A oitava coisa necessária é que sua prática deve ser abraçada pela tríplice excelência. A primeira das três excelências é a pura motivação. No início de qualquer sessão de prática deve-se gerar o pensamento ou intenção que por meio dessa prática todos os seres sencientes possam ser levados ao estado de Buda completo. A segunda excelência é que, durante o corpo principal da sessão, você mantenha sua mente em um estado livre de elaboração, livre de elaboração conceitual da prática. A terceira excelência é no final selar com a dedicatória, não somente pelo mérito acumulado da sessão, mas também pelo mérito acumulado por todos os seres sencientes dos três tempos: passado, presente e futuro. Todo mérito é dedicado para a liberação completa e onisciência de todos os seres. Se a sua prática é abraçada por essa tríplice Excelência no início, no meio e no fim, resultará na dupla acumulação de mérito e sabedoria. Através da motivação correta, meditação e dedicação, você terá acumulação de mérito. Marcando toda a prática com o selo da não conceitualização, que é livre de elaboração, você realizará a acumulação de sabedoria.

A nona coisa necessária é o firme desenvolvimento da bondade e compaixão, por meio do qual você beneficia outros em ambas as formas, direta e indireta. Bondade amorosa é a desejo de que todos os seres sencientes possam ter a felicidade e as causas da felicidade. Através da bondade amorosa, você se engaja na conduta, que é necessária, para trazer benefício direto, em curto prazo para os seres. Em longo prazo, de forma indireta, você faz as aspirações de que, por meio de sua prática, todos os seres sencientes possam vir a atingir a felicidade suprema do estado de Buda. A Compaixão é o desejo de que todos os seres sencientes fiquem livres do sofrimento e das causas do sofrimento. Com esta motivação, você beneficia os seres sencientes diretamente, liberando-os a partir de situações de sofrimento e, indiretamente, através da aspiração, que sua prática será a causa de liberação total do todos os sofrimentos do samsara.

A décima coisa necessária é por meio da aplicação do conhecimento ou insight (sherab), evitar o defeito de reificação. Consiste em primeiro lugar, compreender intelectualmente e, segundo, realizar ou adquirir a experiência direta, que todas as coisas que percebemos não possuem substancialidade e nem características inerentes. O primeiro é entender que todas as coisas que percebemos não passam de meras experiências; são, em si, apenas elaborações mentais ou fabricações. O segundo é a realização plena de que a verdadeira natureza ou modo de ser de todas as coisas é livre de elaboração, ou seja, livre de qualquer mácula que pudesse ser produzida por suas aparentes características.

Este texto está dividido em capítulos contendo dez itens cada, e nós já passamos pelos dois primeiros. Uma compreensão apropriada de cada capítulo depende da memória do anterior. O entendimento do segundo capítulo depende da compreensão do primeiro e conforme seguimos adiante nos próximos capítulos, se faz necessário o entendimento dos anteriores. Por exemplo, se você estudar uma dos capítulos do final do texto, eles não farão muito sentido caso se desconsidere o conteúdo do material que os precede. Portanto, peço que não se esqueçam desses dois primeiros capítulos contendo dez itens cada.

 

Ensinamentos e comentários sobre este capítulo:

16/10/2016 - As Dez Coisas Necessárias Play Download


 

05. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 3 - As Dez Coisas Em Que Confiar

gampopaAS INSTRUÇÕES DE GAMPOPA
A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS EM QUE CONFIAR - Capítulo 3 

 

O texto

As dez coisas em que confiar:

1. Confiar no santo lama que possui realização e compaixão.

2. Confiar no local de meditação isolado, prazeroso e abençoado.

3. Confiar em companheiros estáveis com os quais se está de acordo com a visão, meditação e conduta.

4. Confiar na moderação lembrando-se dos defeitos dos objetos de subsistência.

5. Confiar imparcialmente nas instruções da linhagem dos siddhas.

6. Confiar em substâncias, medicamentos, mantras e na interdependência profunda cmo sendo benéficos para sai e para os outros.

7. Confiar em alimentos adequados à sua constituição e no caminho para liberação.

8. Confiar no dharma e no caminho da conduta que beneficia a experiência.

9. Confiar nos discípulos afortunados que possui fé e respeito.

10. Confiar na plena atenção e consciência por meio dos quatro modos de conduta.

AS DEZ COISAS NAS QUAIS DEVEMOS CONFIAR – COMENTÁRIOS KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

Em seguida, discutirei as dez coisas em que devemos confiar, a fim de gerar as qualidades associadas com a prática do Dharma. Desta forma as virtudes que cultivamos na prática do Dharma irão florescer e que não serão prejudicadas ou atingidas por quaisquer defeitos.

primeira coisa em que devemos confiar é um Guru Santo que possui realização e compaixão. O lama deve possuir realização, porque um mestre que não tem realização ou experiência efetiva é como uma pintura da água, que não pode saciar a nossa sede, ou uma pintura do fogo, que não pode nos aquecer. Portanto, o lama deve possuir compaixão. Se a lama só tem realização, mas não tem compaixão, ele ou ela não irá ensinar ajudando os seres sencientes a desenvolver qualidades virtuosas e abandonar os defeitos. Assim, a primeira coisa em que devemos confiar é em um lama que possui tanto realização como compaixão.

segunda coisa em que devemos confiar é em um local solitário, prazeroso e esplendoroso para praticarmos. Tendo recebido completamente as instruções do Lama com as qualidades descritas, temos que confiar em tal ambiente, a fim de colocar essas instruções em prática. 

O ambiente deve ter quatro características: em primeiro lugar, deve ser um lugar de solidão. Devemos estar isolado das distrações, caso contrário não seremos capazes de praticar. Em segundo lugar, ele deve ser agradável, e isso significa um lugar onde não estejamos afligidos por frio ou calor excessivo ou outras coisas que perturbam a mente e o corpo, criando obstáculos para a prática. Em terceiro lugar, deve ser esplendoroso, o que significa um lugar que tem sido envolvido pelo esplendor dos Siddhas da linhagem. Se possível, é melhor um ambiente onde os grandes praticantes do passado já tenham praticado nele. Caso contrário, um lugar solitário e agradável já é suficiente. Em quarto lugar, o ambiente deve ser um deserto ou lugar selvagem. O termo tibetano é gompa, que também significa mosteiro. Mas aqui isso não significa um mosteiro formal, onde há stupas e onde lamas e monges estão vivendo. Isso significa um lugar que está a uma distância razoável de outras habitações, e não no meio de uma cidade onde existem distrações.

terceira coisa em que devemos confiar é em companheiros que estão em harmonia com nós mesmos, na conduta  e na força de vontade. A primeira característica, a harmonia na visão, significa que as pessoas com quem vivemos e prática devem ter o compromisso, assim como nós somos de alcançar a liberação. A segunda, a harmonia na conduta, significa que os nossos companheiros e amigos também adotam todas as condutas apropriadas, quer seja a de um monge completamente ordenado, um novato ou um discípulo leigo. A terceira característica, ter uma boa atitude, significa que eles estão livres da paranóia que criam situações de desarmonia intensa, que o conflitam com os objetivos da prática. Em outras palavras, não devemos viver com pessoas que estão constantemente pensando: "Ele está com raiva de mim. Ela está com ciúmes de mim. Eu não gostei do jeito ele que disse isso. Eles estão causando problemas. Seria melhor me livrar deles”, e assim por diante. Eles não devem ter de uma mentalidade que cria desarmonia. Assim, a terceira coisa em que devemos confiar é companheiros que possuem essas três características. Se depender desses companheiros, ao invés destes serem fontes de distração nossos companheiros nos ajudarão a alcançar a libertação, e nós poderemos fazer o mesmo.

quarta coisa que devemos confiar é no modo de vida moderado, tendo reconhecido os defeitos dos excessos. Se não formos moderados na forma em que exigimos os alimentos, roupas, etc, vamos enlouquecer buscando estas coisas. Moderação consiste em ter roupas suficientes e abrigo para não congelar ou ficarmos sem-teto, e comida o suficiente para não morrer de fome. O objetivo é usar essas condições externas para nos manter a fim de praticar. Devemos evitar preocupações excessivas questionando se as coisas são prazerosas ou não, por exemplo, o sabor da comida que comemos. É recomendado que tomemos o nosso sustento, como se fosse um medicamento. Quando você está tomando remédio para curar uma doença que você não pensa "Gosto deste medicamento O gosto é bom, é doce Eu não gosto deste remédio; Isto não tem um gosto muito bom." Você o toma, porque ele vai curar a doença. Da mesma forma, você deve comer e beber para sobreviver, para que você seja capaz de praticar, e não para apreciar o sabor da comida. Além disso, se você está constantemente tentando adquirir melhor comida,  a melhor roupa, e assim por diante, o esforço de tentar adquirir essas coisas cria uma grande dificuldade. Então, se você adquiri-los, tornam-se fontes de distração, pois sua mente está voltada para apreciá-los ao invés de praticar o Dharma. Você acaba sendo atormentado por apego. Assim, é importante ser cuidadoso e atento com o uso dos recursos externos.

Foi dito pelo Buda que se você comer mais do que precisa, torna-se um obstáculo à meditação. Você começa a se sentir pesado, e muito de sua energia é dirigida para o processo de digestão que não restará nada para a meditação. Recomenda-se que você preencha um terço do seu estômago com comida, um terço com líquido, e se deixe um terço vazio. A questão não é medir a quantidade de comida consumida, mas simplesmente que esta seja apropriada para o consumo e que seja regular.

quinta coisa é que devemos confiar imparcialmente nas instruções da linhagem dos Siddhas. Isto significa que não devemos ser demasiadamente seletivos. Não devemos pensar, "Eu vou escolher isso, mas vou deixar aquilo de fora. Posso esquecer isso. Aquilo não se aplica a mim. Eu não preciso disso."Isso significa ter um respeito imparcial e veneração para todas as instruções autênticas que vêm das linhagens diferentes de yogis despertos. É importante receber formalmente a transmissão (lung) e a instrução (tri) para o qualquer tema que estivermos estudando. No entanto, também é adequado ler textos de instruções profundas que encontrarmos. É bom fazê-lo de maneira imparcial porque neste momento não sabemos o que irá  desencadear a nossa realização. Entre as instruções que encontrarmos, nós ainda não sabemos qual delas que pode gerar a compreensão da natureza da mente. Portanto, é importante não rejeitar qualquer instrução autêntica que surge em nosso caminho.

sexta coisa é que devemos confiar em substâncias, remédios, mantras, e várias condições que são benéficas para nós mesmos e para os outros. Não devemos desenvolver a atitude: "Eu sou um yogi de grande realização e, portanto, eu não preciso de nada Se eu ficar doente eu não preciso de remédios, eu não preciso ter cuidado em qualquer coisa externa...". Enquanto você não tiver aperfeiçoado sua realização, de alguma forma você está à mercê de seu corpo, que é composto por quatro elementos. Portanto, você tem que gerar as condições que sustentam o equilíbrio destes elementos, tudo aquilo que traz boa saúde. Você não deve rejeitar um tratamento médico correto, tampouco outros métodos profundos que são benéficos para sua saúde.

Da mesma forma que você não deve negar essas coisas para os outros. Você não deve pensar que não há benefícios para os outros ou que seja algo superficial ou sem importância proporcionar remédios, alimentos e outras coisas, porque tudo isso tem um genuíno benefício para os demais se forem adequadamente administrados. Você não deve pensar: "Eu sou um yogi, seguindo a tradição de yoga. Posso rejeitar a ciência. Posso rejeitar a medicina. Estas são coisas mundanas de nenhum significado duradouro." Na verdade, todas estas coisas que podem ser de grande benefício não devem ser rejeitadas. 

sétima coisa é que temos de confiar no alimento adequado com nosso estado de saúde e constituição, e métodos que praticam aquilo que está de acordo com os nossas capacidades. 

No que se refere a comida, não é importante realmente gostar da comida que você come. Se um alimento é doce e delicioso mas prejudicial para a sua saúde, você deve evitá-lo. Se você encontrar um alimento desagradável, mas muito benéfico para a sua saúde e longevidade, você deve confiar nele.

Em relação à prática do Dharma, esta deve ser de acordo com a sua compreensão e habilidades. Se alguém tem uma atitude muito limitada, pavor dos atos profundos e da profunda compreensão dos Bodhisattvas é melhor que essa pessoa a pratique o veículo menor, porque ele ou ela será naturalmente atraído para a paz de libertação e desejará escapar dos sofrimentos do samsara. Seria inapropriado para essa pessoa ir diretamente para a prática Mahayana. Da mesma forma, alguém que chegou ao ponto de ser capaz de praticar o Mahayana, mas que não tem fé ou compreensão real do Vajrayana ou mantra secreto, deveria praticar o Mahayana, e em particular o Sutrayana. Os ensinamentos Vajrayana são especialmente profundos e podem levar ao estado de unidade, o estado de Vajradhara em uma vida, mas isso não pode acontecer com alguém que não tem fé neles e não tem nenhum conhecimento sobre seu verdadeiro significado. Por esta razão, embora o estado último de Buda eventualmente seja atingido através da prática do mantra secreto, o Buda não ensinou apenas um veículo. Ele ensinou todas os diversos métodos e estágios, para que os seres sencientes de várias capacidades possam gradualmente amadurecer até o ponto onde possam praticar esses ensinamentos últimos.

oitavo é que temos de confiar em técnicas de meditação e modos de conduta que realmente ajudam a nossa experiência na prática. Devemos praticar de tal forma que estejamos com nossa atenção verdadeiramente focada na prática que estamos fazendo, e não misturar essa prática com outras coisas que são inapropriadas ao contexto.

Por exemplo, se você está praticando a meditação da tranquilidade ou Shamata, é importante que você continue com a prática até que você gerar a certeza sobre o seu benefício e uma certa estabilidade da mente, até o ponto em que você pode partir para a prática da introspecção ou meditação Vipashyana. No entanto, se no meio da prática Shamata você começar a executar uma análise associada com a prática Vipashyana, então você destruirá sua prática incipiente de Shamata. Você não chegará a lugar algum, porque você não está praticando o que você se propôs a praticar.

Da mesma forma, se você estiver fazendo uma prática simples, que não depende de análise extensa, mesmo podendo parecer não é apropriado envolver-se em uma análise complexa. Ou ainda, se você estiver envolvido em uma prática que depende de algumas análises, se descartar essa análise e simplesmente descansar em um estado de simplicidade, isso prejudicaria a sua prática, mesmo que isso seja adequado em outra circunstância. No que diz respeito ao modo de conduta, é importante o que você faz, sua postura física e assim por diante, devem ser adequadas à prática que está fazendo.O exemplo mais óbvio é, quando você está fazendo a primeira parte das práticas preliminares, Ngondro, você não se senta como na a prática Shamata, no lugar disso faz prostrações e assim por diante. Além disso, você recita a oração de refúgio enquanto você está fazendo as prostrações, e não pratica Shamata. É importante que todos os aspectos de sua prática sejam harmoniosos e unificados.

nona coisa em que confiar é nos estudantes dignos que têm fé e respeito, e essa confiança deve ser em alguém que, tenha atingido algumas qualidades associadas ao caminho, e está atuando como um amigo ou mestre espiritual para os demais. Quando o Mestre começa realmente a possuir essas qualidades, é preciso que ele decida em quais situações e quanto é apropriado ensinar. A decisão não deve ser baseada em quantas pessoas se pode reunir para ensinar, e o quanto você poderia dizer-lhes. Deve-se escolher o que se diz e para quem, com base no que é realmente adequado e necessário para a audiência. 

De um modo geral, os alunos do Dharma devem ter os três tipos de fé. O primeiro é a fé de clareza, é uma noção clara do valor do Dharma, portanto, uma natural sincera apreciação por ele. A segunda é a fé do desejo, é o desejo intenso de alcançar as qualidades dos Budas e Bodhisattvas. O terceiro tipo é a fé da confiança, que é a convicção do aluno que Dharma é a melhor maneira de viver, e que a prática é uma forma digna de utilizar o tempo. No que se refere ao respeito, os alunos deverão ser capazes de reconhecer seus próprios defeitos e valorizar as qualidades de seu mestre. Respeito no contexto do Dharma, significa que os alunos devem considerar o seu professor da mesma forma que eles consideram um médico, que prescreve o remédio apropriado para alguém que está sofrendo de uma doença grave.

Para o mestre é importante abandonar dois extremos. Um é pensar:  "Eu sou um yogi que transcendeu as atividades mundanas. Portanto, não importa quantos alunos qualificados se aproximam de mim eu não vou dizer-lhes qualquer coisa, porque eu estou além dessa comunicação com outras pessoas." Se os alunos qualificados aparecerem e você está qualificado para ensinar, você deve fazê-lo. O outro extremo é pensar: "Eu sou um yogi com algumas qualidades. Portanto, eu deveria ensinar o que puder para todos que conheço." O perigo do segundo extremo é que, quando você ensinar as pessoas que não tem nenhum respeito pelo Dharma, isso será desperdiçado porque as pessoas não serão beneficiadas pelo ensinamento. Não só não serão beneficiadas, na verdade a falta de respeito pelo Dharma e pelo mestre crescem à medida que o tempo passa, por receberem o ensinamento sem fé e respeito. Assim, ensinar sem os devidos cuidados é uma maneira muito eficaz de enviar a si mesmo e aos outros para os reinos inferiores.

décima coisa sobre a qual temos de confiar é manter contínua consciência e plena atenção ao longo dos quatro tipos de atividades. As quatro tipos de atividades são: comer, dormir, andar e sentar. Devemos estar conscientes de que estamos fazendo em todas as situações, com destaque para essas quatro.

É particularmente importante proteger todos os nossos votos nosso Samaya, sejam eles quais forem. Devemos considerar a proteção de votos e Samaya do jeito que consideraríamos a proteção de uma joia extremamente valiosa que nos foi confiada. Se soubermos que em algum lugar lá fora existem ladrões à espera de uma chance de roubar esta joia, estaremos constantemente atentos para evitar que a joia seja roubada. Da mesma forma, para manter nossa disciplina devemos sempre observar nossas mentes, porque os ladrões que roubariam a joia da nossa disciplina são as aflições mentais que surgem na mente. Quando aflições mentais assumem a mente, começam a produzir conceitos e pensamentos aflitivos, que levam a atos negativos. Desta forma, é especialmente importante observar a mente em todos os momentos.

Há duas explicações comuns e incomuns de como manter contínua consciência e plena atenção ao longo das quatro atividades. A explicação comum é: quando se estiver comendo, fazê-lo moderadamente, como foi explicado antes. Quando você dormir, fazê-lo com a intenção virtuosa de se levantar na manhã seguinte e usando todo o seu tempo para a prática do Dharma. Quando você está andando, ter o cuidado para evitar pisar em insetos ou prejudicar outros seres sencientes. Ao sentar-se, tome cuidado para não esmagar os insetos escondidos sob as almofadas, ou prejudicar quaisquer seres. Essa é a forma como a consciência comum é dirigida.

A atenção incomum do mantra secreto é baseada nestes preceitos mencionados, mas acrescenta-lhes outras práticas: Quando você está comendo, considerar o seu corpo como a Mandala de todos os Vitoriosos, e oferecer seu alimento a eles como substâncias de um banquete. Quando você está indo dormir, meditar sobre a luz clara associada com o sono, o que pode fazer recitaando um mantra, repousando a mente em um estado de não-conceitualização ou não-fabricação, e assim por diante. Quando caminhar, visualizar o seu guru raiz acima do seu ombro direito imaginado que você o está circumambando. Ao sentar, visualizar o seu Lama Raiz acima de sua cabeça em todos os momentos. O ponto de ambas as explicações comuns e incomuns é preservar contínua consciência e a plena atenção em todos os momentos, porque estes são a fundação ou base de todo o Dharma. 

Estas são as dez coisas nas quais confiar desde o início de sua prática do Dharma até a realização da fruição completa. Dentre elas, a primeira naturalmente, é o Mestre correto. Devemos confiar nestas dez coisas de modo a nunca nos separarmos delas, assim como corpo nunca está separado de sua sombra.


 

Ensinamentos e comentários sobre este capítulo:

 

23/10/2016 - As Dez Coisas Necessárias - Parte 1 Play Download
30/10/2016 - As Dez Coisas Necessárias - Parte 2 Play Download

 


 


 

06. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 4 - As Dez Coisas A Serem Abandonadas

gampopaAS INSTRUÇÕES DE GAMPOPA
A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS A SEREM ABANDONADAS - Capítulo 4 

 

O texto

Essas são as dez coisas a serem abandonadas:

1. Abandonar os Mestres cujas ações misturam-se com os oito dharmas mundanos.

2. Abandonar o séquito e as más companhias prejudiciais à mente e a experiência.

3. Abandonar lugares e eremitérios de grande distração e prejudiciais (a prática).

4. Abandonar o sustento obtido por meio furto, roubo, fraude e ocultação.

5. Abandonar ações e atividades prejudiciais à mente e a experiência.

6. Abandonar a comida e a conduta que prejudiquem a sua base.

7. Abandonar o desejo e o apego que prendem à avareza e à busca pelo prazer.

8. Abandonar a conduta desatenta que acarreta a perda de fé pelos outros.

9. Abandonar as ações de idas e vindas sem sentido.

10. Abandonar (a atitude) de esconder os próprios defeitos e revelar os dos outros.

AS DEZ COISAS A SEREM ABANDONADAS - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

primeira delas é um professor ou um mestre cujas ações estão todas misturadas com os oito dharmas profanos. Embora esses professores possam dar explicações muito profundas e terem muito conhecimento, todos eles estão preocupados e todos eles dirigem suas ações para a aquisição de bens para si próprios e seus seguidores, recebendo elogios, bajulações e ficando famosos. Eles estão muito preocupados com a perda de seus bens pessoais, evitando qualquer forma de crítica, e situações que as pessoas não vão adulá-los. Eles têm muito medo em terem uma má reputação. Embora eles pareçam bem e falem bem, e tenham informações de muitos aspectos do Dharma, não tem realização e não são professores genuínos. Pelo que devem ser abandonados.

segunda coisa que deve ser abandonada é o “séquito” e companheiros que prejudicam o seu estado mental e a sua prática. “Seguidores” são os estudantes, caso você seja um professor, e se você está numa posição de autoridade, aqueles sob sua autoridade espiritual ou mundana. Companheiros significam amigos, pessoas com quem você vive, família, e assim por diante. É importante ficar longe de pessoas que representem obstáculos a sua prática e gerem aflição mental, pois não são uteis. Há um ditado tradicional na linhagem Kagyu, “Fique longe do seu local de nascimento”. Isto é porque no local de nascimento normalmente há pessoas a quem você está apegado e pessoas a quem você tem grande aversão. Por esta razão os iogues têm tendência a vaguear, ir para lugares onde as pessoas não os conheçam. Por que as pessoas não os conhecem, há poucas interrupções em suas práticas. Você pode pensar que é necessário continuar associado às pessoas a que você tem apego, mas não é esse o caso. Você não pode realmente ajudá-las, pois se elas prejudicam sua prática, elas estão se prejudicando e a você também. No final, você acaba prejudicando a elas e a si próprio.

terceira coisa que deve ser abandonada são os lugares nos quais há muitas distrações ou perigos. Mesmo que você tenha abandonado seu lugar de nascimento, se você for para um local onde haja um monte de coisas mundanas que você pode fazer em vez de praticar, onde há muitas experiências desejáveis que você pudesse ter do que a prática, isto será um obstáculo para a prática. Na verdade, isto não é melhor do que estar em seu local de nascimento. Por outro lado, mesmo que você esteja em um local solitário, este pode ser um local onde haja o perigo de não obter alimento e água saudáveis, ou o perigo de grandes animais carnívoros ou pequenos animais venenosos. Num local onde há perigo para a vida ou saúde você não será capaz de praticar por causa do medo e ansiedade. Esse medo vai impedir que relaxe e, sem uma mente relaxada, a prática não progredirá.

quarta coisa que deve ser abandonada é a subsistência que vem com o roubo, fraude, trapaça e desonestidade. Furto se refere a surrupiar algo de forma escondida. Roubo se refere a obter algo através da força. Fraude se refere a fingir qualidades que não tem, isto é, fazer que alguém lhe dê algo como presente, fingindo ser digno da oferenda. Ocultação se refere a esconder defeitos que você tem, a fim de obter apoio. Estas quatro maneiras impróprias de obter alimento e outras condições necessárias para viver como um praticante devem ser abandonadas. Da mesma maneira, é preciso abandonar toda forma de subsistência que vem de atividades impróprias por parte de outros. Mesmo que uma pessoa te dê algo sem nenhuma atitude errada de sua parte, se ela roubou ou obteve isto por um delito e você sabe disto, então você não deve aceitar; você não deve participar disto. O que deve ser pedido são alimento e apoio sem transgressão, de forma honesta e direta. Quando se está praticando o Dharma, é apropriado receber de terceiros presentes, oferendas, alimentos, ou o que você precisar para viver, desde que estejam dispostos a dar. Até pedir esmolas é apropriado, mas é preciso ser honesto e direto sobre o que se está fazendo. Se não tem comida, pode dizer “Não tenho comida. Você pode me dar alguma?” e se quiserem te darão; mas não deve ser um engano.

quinta coisa que deve ser abandonada é o trabalho e atividade que prejudicam nosso estado mental e nossa prática. É conveniente estar engajado em trabalhos e atividades meritórias, como a construção, reforma, ou fazer oferendas para monastérios, imagens de Buda etc.. A atividade física relacionada com méritos é boa, porque beneficia a mente em longo prazo. Mas a atividade sem sentido que nos distrai e arrasta a mente para baixo devem ser evitadas.

sexta coisa que deve ser abandonada é alimento, conduta e atividade que são prejudiciais para a nossa saúde. Nossos corpos físicos possuem as oito liberdades e as dez resoluções extremamente preciosas. Elas são as bases pra a nossa existência humana. Podemos prolongar nossas vidas o máximo que pudermos. Então devemos fazer uso dessa oportunidade para praticar o Dharma. Por isso é importante evitar alimentos e atividades que possam causar doença ou colocar-nos em perigo de morte prematura.

sétima coisa que deve ser abandonada é fixação e apego a objetos de desejo ou situações que nos prendem a nossa própria ganância. Isto significa estar apegado a aquisição e proteção de bens, diversões, riqueza, fama etc.. Ambos incluem o sentimento de que precisamos destas coisas e a ansiedade que sentimos do perigo da perda, porque ambas são fixações nestas coisas e as experiências associadas com elas. Nossa fixação nestas condições significa que não somente suas presenças não ajudam no crescimento de nossas qualidades, mas irá provocar a diminuição delas no decorrer do tempo. Por esta razão é importante evitar lugares e pessoas a quem estamos indevidamente apegadas ou indevidamente fixadas.

oitava coisa que deve ser abandonada é a conduta descuidada que é a causa de outras pessoas não terem fé no Dharma. Isto não significa atividades que são diretamente prejudiciais para os outros, que já foram discutidas anteriormente. Quer dizer a situação na qual o praticante tem uma experiência real, ou mesmo alguma realização no significado do Dharma, e portanto tem pouca ansiedade sobre o que a outra pessoa pode pensar dele. Eles são inclinados a agir de maneira estranha. Mas não é apropriado para os praticantes exibirem suas realizações de alguma forma, porque outras pessoas, caso estejam envolvidas no Dharma ou não, verão estas ações como defeitos. Eles não pensarão, “Esta pessoa age estranhamente; deve ter realização.” Elas pensarão, “Mesmo os mais sérios praticantes do Dharma, pessoas que supomos que têm realização, parecem ter defeitos pessoais.”, e isto fará que desprezem não apenas o praticante, mas também ao Dharma. Isto leva outros seres sencientes a acumular o karma negativo extremamente prejudicial de abandonar e injuriar o Dharma. Portanto é importante, não importa quão alta seja sua experiência e realização, ter uma conduta simples, disciplinada e correta.

nona coisa que deve ser abandonada é atividades que não são benéficas para nós e outros, como running around e sitting around. Isto significa abandonar viagens sem propósito – por exemplo, visitar um grande oceano ou uma alta montanha somente para fins turísticos. Estas coisas são uma perda de tempo, e você não tem tempo a perder. Assim, se você percebe que uma atividade ou ação específica não tem um beneficio verdadeiro para você ou qualquer outra pessoa, você deve evitar isso.

décima e última coisa que deve ser abandonada é ocultar seus próprios defeitos e proclamar e divulgar os defeitos dos outros. É importante não tentar ocultar nossos próprios defeitos através da discrição, e não se focar nos defeitos dos outros, fazendo-os claros para os outros. Devemos sempre aspirar beneficiar os outros o máximo que pudermos e devemos nos comportar de acordo com essa aspiração. Nosso objetivo é sermos capazes de eliminar nossos defeitos, não escondê-los, e ajudar outros a eliminar seus defeitos, não expô-los. Não devemos nos tornar arrogantes. A base da arrogância, o modo de mantê-la e a causa do seu surgimento, é ocultar nossos próprios defeitos e expor o dos outros. A diferença entre o praticante genuíno do Dharma e uma pessoa mundana é que, pelo modo mundano, ocultamos nossos próprios defeitos e divulgamos o dos outros; já  no caminho do Dharma, ocultamos os defeitos dos outros e expomos os nossos.

Estas são as dez coisas que devem ser abandonadas.


 

30/10/2016 - As Dez Coisas a Serem Abandonadas Play Download

07. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 5 - As Dez Coisas A Não Abandonar

gampopaAS INSTRUÇÕES DE GAMPOPA
A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS A NÃO ABANDONAR - Capítulo 5 

O texto

1. Sendo a compaixão a raiz da realização do bem alheio, não abandone.

2. Sendo as aparências, a irradiação da própria mente, não as abandone;

3. Sendo os pensamentos, o jogo da vacuidade (dharmata), não as abandone.

4. Sendo as emoções perturbadoras a revelação da sabedoria, não as abandone.

5. Sendo os objetos de desejo, o adubo das experiências e da realização, não as abandone.

6. Sendo os sofrimentos e as doenças um mestre espiritual, não os abandone.

7. Sendo os inimigos e os obstáculos uma incitação ao reconhecimento da verdadeira natureza dos fenômenos (dharmata), não os abandone. Se desaparecerem espontaneamente, isto é realização. Não os rejeite.

8. Sendo o caminho do método o que conduz ao conhecimento transcendente, não o abandone.

9. Não abandone a atividade física que pode ser colocada a serviço do dharma.

A nona coisa que não deve ser abandonada é as diferentes práticas que envolvem atividades físicas, por que elas são práticas genuínas que amadurecem a mente e são benéficas. Isto significa não abandonar as prosternações, circumbalações, e outras práticas externas do Dharma porque isto realmente nos beneficia; elas realmente trazem resultados.

10. Não abandone a intenção de realizar o bem alheio, mesmo que se disponha de poucos meios.

AS DEZ COISAS A NÃO ABANDONAR - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

Em seguida, as dez coisas para não ser abandonadas. Para começar, por ser a raiz de todos os benefícios que somos capazes de dar aos outros, a compaixão não deve ser abandonada.

A segunda coisa que não deve ser abandonada são as aparências. Visto que as aparênciassão a manifestação da natureza da mente, não é necessário abandoná-las. Tilopa apontou isso quando disse: "Não é pelas aparências que você está acorrentado, mas pela fixação a elas. Então abandone essa fixação.” Não é o que você experimenta que causa confusão, e sim a sua fixação na experiência como sendo algo inerente ao que aparenta ser. Portanto, somente essa fixação precisa ser abandonada, não a experiência em si.

 

A terceira coisa que não deve ser abandonada é o pensamento, porque é o jogo da natureza última ou dharmata. Como é dito na oração linhagem Kagyu, "A natureza do pensamento é o dharmakaya." Se formos capazes de olhar diretamente para a essência do pensamento, então, qualquer pensamento que surja é auto-liberado.Se pudermos colocar isso em prática, não há necessidade tentar remover pensamentos ou abandoná-los de qualquer forma.

A quarta coisa que não deve ser abandonada se aplica principalmente àqueles com realização. Aflições mentais são indicações de sabedoria e, portanto, não devem ser abandonadas. A presença em nossa experiência de estupidez, aversão, orgulho, desejo e ciúme indica a presença em nosso contínuo da sabedoria do dharmadhatu, a sabedoria como um espelho, a sabedoria da equanimidade, a sabedoria discriminativa, e a sabedoria da atividade. Visto que as aflições mentais são apenas a manifestação das sabedorias que são a sua própria essência, alguém que tenha realização para experimentar isso diretamente, não precisa abandoná-las.

É importante analisar essa afirmação, pois pode parecer muito estranho. A pouco tempo atrás foi dito que se deve abandonar definitivamente as aflições mentais, e agora é dito que você não tem que abandoná-las. Isso não é uma contradição, mas a demonstração da diferença de maturidade dos praticantes, nos diversos níveis de ensinamentos. A abordagem para iniciantes, em que é preciso abandonar as aflições mentais, é como a necessidade de escadas para aqueles que desejam chegar ao segundo andar; por não terem asas, precisam subir um lance de escadas. O processo de subir escadas é como o processo de subjugar as aflições mentais. Aquele que têm asas, como um pássaro, não precisa usar escadas, pode voar diretamente até o segundo andar. Ter asas corresponde a ter a realização de ser capaz de aplicar a profunda sabedoria do mantra secreto. Assim, esses dois conselhos não são contraditórios, mas são direcionados para indivíduos com diferentes níveis de prática.

O quinto ponto nessa seção está na mesma categoria que a quarta. Os objetos de desejo que aparecem através dos cinco sentidos não devem ser abandonados, porque eles são a água e o adubo  da experiência e realização. Para um praticante com alguma realização e experiência mais forte, não há fixação grosseira em sua existência inerente imputada. Não há fixação grosseira à sua suposta existência inerente. Não há um apego grosseiro ao ego e, na ausência disso, não há um sentimento ou conceito inerente de propriedade. Para certos iogues e yoginis não importa quantas coisas o cercam, não importa o quanto de riqueza ou prosperidade eles experimentem, eles não têm um sentimento de identificação de posse dessas coisas. É como se houvesse belos animais selvagens vagueando em torno deles. Se nós vemos os animais selvagens, nós não sentimos: "Esse é o meu tigre" ou "Esse é o meu veado." Nós podemos aprecia-los, mas não há nenhum apego a neles.

Por exemplo, quando ofereceram a Jetsun Milarepa alimentos nutritivos e muitos saudáveis, foi de grande benefício para aumentar sua  realização, mas ele não desenvolveu qualquer apego ao gosto dos alimentos. Não era uma questão de saciar  o seu desejo, era uma questão de fortalecer seu corpo. Da mesma forma, os praticantes avançados podem usar comidas e bebidas como substâncias de festa. Existem práticas em que a roupa que vestem é consagrada como a armadura de mantra. Essas práticas são adequadas para praticantes avançados, com alguma experiência direta. É importante entender que as diferentes recomendações desse texto, são oferecidas aos praticantes de diferentes níveis.

A sexta coisa que não deve ser abandonada são as doenças, sofrimentos e dores, pois eles são excelentes professores. Quando nos distraímos e nos engajamos em coisas erradas, ou quando simplesmente não estamos atentos, ou quando a renúncia não é algo estável, algumas vezes um pouco de sofrimento pode nos lembrar, direta e efetivamente, do que não deve ser esquecido, o que deve ser renunciado, e o que é realmente  sofrimento. Por exemplo, se experimentamos um pouco de dificuldade física como seres humanos, então devemos considerar o quanto deve ser desagradável renascer nos reinos inferiores, onde o sofrimento é muito pior. Isto deve nos inspirar a tentar não renascer nos reinos inferiores. Então, estas situações difíceis não devem ser evitadas, porque em alguns momentos podem ser de muita ajuda.

De acordo com Shantideva, nossas experiências de sofrimento podem ser benéficas, pois elas nos entristecem, e a tristeza nos traz de volta para nós mesmos e corta o nosso orgulho. Com a perda de nossa arrogância grosseira somos capazes de experimentar compaixão genuína pelos outros. Nós pensamos, “Se estou sofrendo tanto assim, se isto é desagradável, quanto isto pode ser para os outros?” e nós avaliamos o sofrimento dos outros. Isto nos leva a deixar as coisas erradas e o que é prejudicial para nós e para os outros, e nos leva para o que é naturalmente agradável e virtuoso. Então, há algum beneficio nestas experiências.

A sétima coisa que não deve ser abandonada são inimigos e obstáculos, pois eles nos incitam a praticar. Do ponto de vista Mahayana, a base para a nossa realização, a realização da natureza última, é cultivar qualidades como a paciência. O único caminho possível para se cultivar a virtude da paciência através de situações em que lidamos com algum infortúnio ou efetiva agressão. Por esta razão, pessoas agressivas conosco são nossos ajudantes na prática, e desde que elas surjam naturalmente, é dito que são incentivos naturais para a prática. Eles são também os incentivadores que nos dirigem para a realização da verdadeira natureza de todas as coisas, que é a budeidade.

No entanto, se os inimigos e os obstáculos desaparecem espontaneamente, é sinal de realização (siddhi) e você não deve rejeitar o resultado. Se situações desagradáveis sumirem, mesmo quando você não faz nenhum esforço para removê-las, você não deve tentar trazê-las de volta.  Se você tem mérito e realização, em muitos momentos isto pode causar situações em que outros são agressivos com você e são pacificados naturalmente. Quando isto acontece, você não deve pensar que algo errado aconteceu. Por exemplo, quando o rei tentou matar Acharya Nagarjuna com uma variedade de espadas cortando seu pescoço, o rei não foi capaz de ferir Nagarjuna porque Nagarjuna não tinha o karma de ser ferido. Do mesmo modo, alguém com realização não encontrará muitos inimigos e obstáculos, e isto é sinal do siddhi; é o sinal de realização. Só porque a presença de inimigos não é  algo necessariamente ruim, a falta de inimigos também não necessariamente o é.

A oitava coisa que não deve ser abandonada é o progresso metódico e gradual em seu estudo e prática, pois é isto que nos eleva à altura à compreensão última. Não devemos  pensar que o progresso gradual através dos vários estágios ou veículos de prática deve ser abandonado por parecer não ser o sentido final dos ensinamentos do Buddha. Tal pensamento é incorreto. Todas as grandes escolas e siddhas do passado começaram aprendendo no vários estágios e veículos dos ensinamentos do Buddha, e  a partir destas bases, chegaram finalmente ao conhecimento definitivo associados ao Vajrayana. Para o nosso próprio progresso devemos praticar de uma maneira que irá gradualmente amadurecer nossa compreensão do Dharma. Há muitos estágios para isto e eles devem ser cultivados. Da mesma forma, não devemos abandonar ou rejeitar as várias apresentações do Dharma que são feitas em estilos e níveis diferentes, porque estas são apropriadas para as necessidades e disposições dos diferentes seres.

A nona coisa que não deve ser abandonada é as diferentes práticas que envolvem atividades físicas, por que elas são práticas genuínas que amadurecem a mente e são benéficas. Isto significa não abandonar as prosternações, circumbalações, e outras práticas externas do Dharma porque isto realmente nos beneficia; elas realmente trazem resultados.

A décima coisa que não deve ser abandonada é a intenção de beneficiar os outros, mesmo quando você não tem muitas habilidades para beneficiá-los neste momento. Frequentemente, quando as pessoas começam a praticar elas pensam, “Qual é o beneficio de dizer, “Estou fazendo esta prática para beneficiar outros. Eu ajudarei outros no futuro dessa ou daquela maneira? Uma vez que, de fato,  não estou fazendo nada que beneficie aos seres neste momento, qual o significado disto? Eu não posso fazer nada para ajudar alguém.”” De fato, há o mesmo potencial para que esta atitude altruística produza resultados concretos, como há na semente para produzir a flor. Se você diz que não há beneficio no altruísmo, é como dizer que a semente não gerará a flor. Como o altruísmo em si não é benéfico para os outros, a semente não é a flor. Uma semente não é mesmo um broto. No entanto, sem a semente não existe a possibilidade de ter broto, folhas e flores; então é importante iniciar com a atitude e intenção pois assim você se tornará de grande, vasto beneficio para outros.

Ao iniciar o caminho ninguém pode realizar os atos grandiosos de um Bodhisatva. Quando Buddha gerou pela primeira vez a intenção de realizar a suprema iluminação ele ainda era incapaz de fazer muito pelas pessoas. Com o correr do tempo, então, ele se tornou extraordinariamente capaz de ajudar outros. Atualmente, as pessoas têm muitas dúvidas a respeito disto. Quando instruções são dadas dessa maneira, como as instruções sobre a boddhicita, as pessoas normalmente  dizem, “Que uso tem isso? Eu não posso fazer nada.” É importante não abandonar o altruísmo somente porque você não percebe sua capacidade de fazer muita coisa agora.

Estas são as dez coisas a que não devem ser abandonadas.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

P: Eu tenho uma pergunta sobre as formas comuns e incomuns da atenção plena. Será que elas se aplicam quando nós começamos a comer, a cair no sono, ou começamos a andar, ou através do todo processo de caminhar ou comer? Elas estão presentes no inicio ou no contínuo?

R: Se você praticar as formas comuns ou incomuns de desenvolvimento da atenção plena, deve ser o mais contínuo quanto possível. Claro, por se envolver em uma variedade de atividades, não é possível permanecer continuamente absorto em uma determinada contemplação ou em uma meditação particular. No entanto, deve fazê-lo no início de qualquer atividade, e fazê-lo sempre que vem à mente como a atividade continua, se está comendo, andando, ou em qualquer outra atividade. Quanto mais continua melhor. Não é o caso de você simplesmente gerar uma visualização ou contemplação no início, e em seguida, esquecê-la.

 

P: Eu não tenho certeza se entendo os três tipos de fé. Eu acredito que o primeiro tipo é a fé da clareza e o segunda tipo é a fé do desejo. Isso quer dizer que o desejo de se tornar iluminado, ou há mais do que isso?

R: Sim, está correto. Pode haver alguma confusão sobre o termo "desejo". Esse tipo de fé, a fé do desejo, é reconhecer o valor da obtenção da liberação e onisciência ou estado de Budha. O pensamento: "Eu realmente quero atingir esse estado, portanto, vou fazer o que for necessário para alcançá-lo", é diferente do convencional ou desejo mundano, em que eu quero experiências agradáveis ​​de todos os tipos. A fé do desejo não é com base em um erro ou um equívoco, se baseia no querer aquilo que realmente vale a pena. Embora a forma do pensamento seja em um sentido paralelo ao desejo convencional, o objeto é completamente diferente.

 

P: “Das dez coisas a serem abandonadas”, a oitava é; abandonando as atividades que causam a perda de fé no Dharma. Você poderia esclarecer a que se refere a nossa própria perda de fé no Dharma ou a perda de fé no Dharma dos outros através de ver nossas ações?

R: O ponto da oitava, das dez coisas a serem abandonadas é abandonar conduta estranha que faz com que outras pessoas tenham desrespeito ao Dharma. Isso pode ocorrer quando você tem algum tipo de experiência na prática que o leva a sentir um desejo a agir de uma forma estranha. Nesse caso, ele irá prejudicá-lo, porque isso será enganoso, e vai prejudicar aos outros. Ou você pode ter algum grau de realização que leva a agir de uma forma estranha. Isso não pode prejudicá-lo, mas pode prejudicar outras pessoas, porque outras pessoas não podem ver a sua realização, elas só podem ver o que você está fazendo. Se você fizer as coisas que parecem estranhas ou impróprias para elas, elas vão assumir que há algo de errado com você, e, uma vez que é suposto ser um praticante exemplar, há algo de errado com as instruções ou o caminho que o levou a se comportar de tal maneira. Você está fazendo com que os seres sencientes tenham desrespeito ao Dharma, que os afasta do Dharma, é uma tremenda fonte de karma ruim para eles. A responsabilidade de alguém com realização é manter e fomentar o Buddha-dharma, para fazer com que floresça e para ser um professor exemplar para os outros. Se agir de tal maneira, na qual não deve ser feito, você não está mantendo suas responsabilidades.

 

P: Gostaria de saber se você poderia dar alguns exemplos?

R: Eu posso dar um exemplo de mim mesmo. Estou sempre falando sobre como são importantes a bondade amorosa e a compaixão, enquanto estou comendo carne durante todo o dia.

 

P: Você comentou sobre muitos pontos fortes feitos por Gampopa, nesse texto. Para nós, é possível ou necessário colocar todos esses pontos em prática?

R: Primeiro de tudo, Gampopa dá uma variedade de instruções e gera um grande número de pontos nesse texto, e não se destina apenas a uma pessoa. Ele contém métodos e instruções destinadas a orientar os indivíduos a partir do início do seu caminho até que atinjam o estado de Buda completo. Ele também contém instruções destinadas a diferentes tipos de pessoas. Você tem que fazer a distinção entre estudar o texto e colocá-lo em prática. No contexto do estudo e análise do texto deve ser lido do começo ao fim, em sua totalidade, e chegar a um coeso entendimento definitivo. Por outro lado, quando colocar em prática, você seleciona partes do texto como conselhos pessoais, apropriados à sua situação. No contexto de prática, não é importante passar por todo o texto do começo ao fim e lembrar cada coisa dele.

 

P: Na primeira estancia, das dez causas de perda, o termo "sem sentido" foi utilizado em termos de atividade sem sentido e distrações sem sentido. Isso significa que muitas das coisas que fazemos devem ser evitadas, como assistir TV, ouvir música, ou tirando uma soneca? É isso que é chamado de "atividade sem sentido"?

R: De um ponto vista convencional ou mundano, claro, quando você está muito cansado do trabalho e de todos os tipos de atividades que você não tem escolha a realizar, talvez seja necessário para relaxar. Normalmente no mundo, não consideramos isso uma perda de tempo, ver um espetáculo de algum tipo, tirar um cochilo ou simplesmente relaxar. A questão aqui é que não temos muito tempo para praticar, e não queremos desperdiçar o pouco tempo que temos. Tendo-se comprometido a gastar um determinado período de tempo diário praticando o Dharma, em vez disso, usou o tempo para relaxar e se divertir, seria definitivamente uma atividade sem sentido, uma causa de perda ou desperdício.

 

P: A pergunta que eu tenho diz respeito ao desenvolvimento de coragem e confiança na prática do Dharma em face aos obstáculos. Eu sou um chefe de família com um filho, e trabalhando. Não tenho o habito  de praticar todos os dias. Eu sei que a prática constante é importante. Contemplando os quatro pensamentos como é feito no início de prática do ngondro, sensibilizando-nos para o fato de que essa é uma preciosa vida humana, que tudo é impermanente, que a lei do karma é verdade, e que não devemos nos apegar aos prazeres mundanos. No entanto, continuam sendo impulsionados por padrões habituais, é difícil ter tempo para fazer a prática formal. Qual é a melhor maneira de trabalhar com isso e tornar-se um forte praticante?

R: De uma forma ou de outra, todos tem que lidar com essa situação. A principal coisa em trabalhar com isso é, como disse anteriormente, não deixar ninguém se apossar de sua “corda de nariz”, significa estar no controle de sua própria direção e suas próprias decisões. Alguém que tem uma total convicção sobre os quatro pensamentos que transformam a mente não terá qualquer dificuldade em praticar Dharma. Se você achar que, apesar de compreendê-los, você não consegue praticar porque as coisas sempre ficam no caminho, indica que você não confia neles completamente ou está afligido por medos e esperanças. Embora tenhamos estudado a impermanência e os defeitos do samsara, tendemos, por um longo tempo, a manter interiormente a esperança de que nunca vamos morrer, dando uma sensação de espaço, de tempo de espera para a prática. Apesar de ter estudado os defeitos do samsara, dentro de nós existe a dúvida se realmente é tão ruim assim, e a dúvida faz com que seja fácil adiar a prática. Se alguém tem total convicção sobre a validade dos quatro pensamentos que transformam a mente, ele ou ela não terá qualquer dificuldade em praticar.

O fato de você ter acesso ao Dharma, estando envolvidos em tais práticas, indica que você acumulou muito de mérito no passado, significa também, pela quantidade de méritos, que você pode construir o hábito de praticar o Dharma em relação ao hábito de não praticar. Pensando que o Dharma está em tudo, pensando em outras coisas como nos quatro pensamentos que transformam a mente, pensando "Eu tenho que encontrar tempo para praticar", indica o hábito prévio de prática do Dharma, é algo para dar confiança a si mesmo e pode ser construído.

Quanto à prática, a principal a ser praticada é o ngondro, que chamamos de preliminares. Na verdade, ngondro é um termo equivocado, pois implica em ser um tipo secundário de prática ou preliminar, ou seja, algo que começamos fora do caminho para irmos até a prática real. Normalmente as pessoas têm a ideia que, ao terminarmos o ngondro, vai ser muito melhor, muito mais eficaz, e certamente, muito mais interessante. Mas isso é incorreto, pois os temas trazidos e as técnicas apresentadas no ngondro são a essência de todo o Dharma, não são realmente preliminares. Em particular, a base e a essência de toda a prática do Dharma são o refúgio e a geração de bodhicitta. Bodhicitta é a remoção de obscuridades. Bodhicitta é a realização da iluminação.

As outras práticas mais centrais são; a prática de Vajrasattva que é a remoção de obscuridades, os vários padrões habituais e confusões que impedem a prática do Dharma e são as razões pela qual temos que praticar em primeiro lugar. O acúmulo de mérito através da oferenda de mandala, que leva diretamente para o abandono do apego ao ego, a falsa imputação de um eu inerentemente existente, por isso que se diz que o Dharma é tudo. Finalmente, o guru yoga que é a melhor forma para aperfeiçoar todas as qualidades e remover todos os defeitos. A essência do Dharma é a percepção de que a sua mente, em sua natureza sempre foi e sempre será o próprio Dharmakaya, é o guru ioga que desperta esse tipo de experiência e realização.

Se você entender a eficácia e a profundidade do ngondro terá prazer e respeito, e será capaz de praticá-lo, tanto quanto possível. Agora, se você tem um monte de responsabilidades, por exemplo; o trabalho, uma casa, uma criança para cuidar, e assim por diante, o seu tempo é mais limitado do que a de alguém sem responsabilidades. Mas não importa quantas responsabilidades que venha ter, se você realmente quer praticar, vai definitivamente achar pelo menos algum tempo para isso, e o desejo de prática leva à criação de oportunidades para fazê-lo. Caso contrário, se não houver um desejo forte, intenso para a prática o mais rápido possível, você encontrar-se-á procrastinando. A causa da procrastinação é simplesmente uma falta de motivação, e a maneira de superar o hábito da procrastinação é a própria prática. Quanto mais você praticar, mais você vai querer praticar, e você criará um hábito crescente, que reforça a si mesmo. Assim, a melhor coisa para você fazer é continuar a praticar, seguir em frente, e que em si é a solução para o problema de não ser capaz de praticar. Não há outra solução necessária. Quanto mais você praticar, mais você irá beneficiar não só a si mesmo, mas todo mundo que entra em contato com você, especialmente os seus filhos e aqueles que vivem com você.

 

P:- Você disse que não devemos abandonar nosso inimigo porque ele deve nos ensinar a paciência. Suponha que um homem tem uma esposa que não o deixa estudar o Budismo ou se associar com lamas e professores, e não deixará que ensine a seus filhos o Budismo porque ela e as pessoas ao seu redor são católicos. Esse homem deve abandonar seu inimigo da mesma forma que os tibetanos deixaram o Tibet após a invasão chinesa, ou deve praticar o Budismo quieto e pacientemente em sua casa e não falar para seus filhos do Budismo até que, talvez no futuro, a chance surja para ele assim o fazer? 

R:- Eu não posso afirmar o que tal pessoa deve fazer. Se essa pessoa puder ser paciente com o que sua esposa possa fazer, esta é a melhor coisa, pois a paciência é o caminho mais efetivo para o desenvolvimento de nossas qualidades. Por outro lado, se ele não puder ser paciente com a situação e isto o levar a agressão de sua parte, e o levar a ter problemas, então será difícil dizer que é particularmente bom. Os detalhes específicos desta situação são muito importantes, então eu não posso dizer em geral que ele deve ficar ou deve partir. Isto varia de caso a caso.

De fato, há dois tipos de conselhos neste contexto que entram em jogo aqui e eles podem parecer contraditórios a princípio. Um diz para não abandonar seus inimigos porque ajudam a desenvolver a paciência. O outro diz para abandonar companhias nocivas pois eles obstruem o Dharma. Não é uma contradição. Alguém capaz de ser paciente com a agressão dos outros, especialmente em situações que não é possível evitá-los, pode usar a agressão de outros para promover a prática da paciência. Se a agressão é muito forte para se manter paciente e isso impedir sua prática do Dharma, então é melhor se afastar desta situação. 

Quanto à situação dos refugiados tibetanos, durante a invasão muitos saíram para serem capazes de praticar o Dharma em outro lugar, enquanto outros simplesmente fugiram para salvar suas vidas. Em geral, desde essa época, eles se envolveram em atividades correspondentes com as razões de suas vidas. Aqueles que deixaram para praticar o Dharma, praticaram muito o Dharma, e aqueles que saíram simplesmente para sobreviver, fizeram o seu melhor para sobreviver e enriquecer se possível.

Esta é a situação geral. A respeito do que uma pessoa específica deve fazer neste tipo de situação que você descreveu, não posso dizer de antemão.

 

P:-  O compromisso estável significa que quando estou praticando Hevajra eu não posso mudar para o Kalachakra? Se estou entoando um mantra, quantas vezes devo entoá-lo antes de mudar para outro?

R:- Isto depende de cada indivíduo. Alguém que tem fé ou pleno conhecimento e reconhece que todas as deidades encarnam as qualidades completas e poder de Buddhahood precisa praticar somente uma deidade. Não é um ponto particular importante qual ela é, já que a deidade na qual ela ou ele tem completa confiança. Alguém que não tenha essa compreensão, mas vê coisas num caminho conceitual e pensa que precisa praticar uma deidade para ter riqueza, uma deidade para obter a iluminação, uma deidade para atividade vigorosa, uma deidade para a pacificação, e assim por diante, terá que praticar deidades diferentes para obter os respectivos resultados. Alguém que tenha o profundo conhecimento que elas são todas as mesmas, realizando uma, realiza todas.

 

P:- Estou fazendo esta pergunta para um amigo que pratica o Budismo da Terra Pura. Ele pergunta se há algum método especial no Vajrayana que leva ao renascimento em Dewatchen, e exatamente quantas vezes devemos entoar um mantra específico para garantir o renascimento em Dewatchen?

R:- Há uma diferença entre o sutra e a apresentação tântrica da prática de Amitabha nos métodos que eles são aplicados. A raiz e a intenção de ambas são as mesmas - obter renascimento em Dewatchen, a terra pura. A principal diferença é que no contexto da prática sutra consideramos nós mesmos como seres comuns e mantemos nosso conceito comum do corpo, palavra e mente. Reconhecemos a presença de Amitabha no centro do seu reino puro e suplicamos para ele. Isto é algo como se alguém estivesse na prisão suplicando a um indivíduo poderoso de fora para fazer o possível para tirá-lo da prisão. Isto é basicamente a visão sutra.

Na visão tântrica, a súplica para Amitabha é exatamente a mesma, mas em vez de trazer para a mente que Amitabha está em Dewatchen. realmente visualizamos o reino de Dewatchen, incluindo Amitabha, em frente de nós enquanto ele está presente na nossa própria experiência. Também, não nos consideramos sendo comuns, mas consagramos nosso corpo como uma deidade, nossa palavra como mantra, e assim por diante. Seguindo com a analogia acima, é como se para nos livrarmos do nosso aprisionamento, não apelamos apenas para alguém de fora nos livrar da prisão, mas também desenvolvemos o poder em nós mesmos que nos capacita a sair.

A razão para a diferença de aproximação é a visão. Um aspecto da visão Vajrayana é que todos os corpos e reinos dos Buddhas como Amitabha já estão espontaneamente presentes em nossa mente. Podemos experimentá-los externamente apenas por causa da sua presença espontânea dentro de nós, e este tipo de liberação pode ocorrer com a reunião das condições internas e externas. Por exemplo, o sol é algo fisicamente externo a nós, mas para vermos o brilho do sol temos que ter olhos, e nossos olhos tem que estar abertos. Do mesmo modo, a liberação dentro do reino de Sukhavati é considerada do ponto de vista Vajrayana a ser realizado através da interdependência de condições externas e internas. No que diz respeito a recitação de mantras, diferentes mantras e práticas associados com este ciclo. Não seria possível dizer que temos que recitar um número específico para obter o renascimento em Dewatchen.

 

P:- Como sabemos se somos adequados para a prática Mahayana ou Vajrayana? A prática Vajrayana é muito perigosa? Se quebrarmos os votos cairemos no inferno Vajra. 

R:- Em geral, as pessoas se encontram com os professores, que ensinam nos diferentes veículos, de acordo com as suas próprias disposições e na medida do seus próprios méritos. Quanto ao que é adequado aos indivíduos praticarem entre os diversos veículos, devem praticar o que os professores a qual se tornam naturalmente ligados enfatizam, deveriam ensinar o que está em conformidade com a sua própria confiança e visão sobre o Dharma. Isto não é somente verdadeiro com respeito ao Mahayana e Vajrayana, isto é verdadeiro em todos os níveis de Ensinamentos Budistas - Hinayana, Mahayana, Vajrayana, e assim por diante. Basicamente, você pode praticar o que você quiser, o que surge naturalmente para você, e para onde sua inclinação está voltada. O ponto principal é seu interesse e confiança nos ensinamentos, assim você deve praticar qualquer ensinamento que você tiver a maior confiança.

A respeito do perigo do Vajrayana, é verdade que o Vajrayana tem grande eficácia e pode ser também perigoso. O Vajrayana apresenta um caminho para pessoas com grande conhecimento, que são capazes de serem muito cuidadosas e metódicas em suas práticas. Apresenta um caminho através do qual estas pessoas podem, usando os excelentes métodos do Vajrayana, obter o despertar de muitas maneiras efetivas. É verdade que se alguém não tem esse tipo de conhecimento, não é diligente, e especialmente carece de fé e devoção, ela ou ele poderá violar o samaya, os compromissos do Vajrayana.

Na prática, porém, é preciso fazer uma distinção entre dois tipos de iniciação, uma vez que o samaya ou compromisso da iniciação foram aceitos. Podemos distinguir entre a iniciação que é uma benção e o que é chamado de iniciação último e real. Através da fé e confiança no lama, você deverá receber dele ou dela uma benção de iniciação que envolve várias substâncias, vasos e assim por diante coisas que serão colocados sobre sua cabeça e mantras recitados para você. A função disto é plantar uma semente para sua futura liberação, baseado sobre o processo de iniciação e sua própria abertura e fé nele. Este processo e método têm sua característica especial e qualidade do Vajrayana e é muito benéfico para os indivíduos envolvidos. Devemos distinguir entre este e a iniciação última, no qual o estudante, no momento que recebe o iniciação, gera a sabedoria associada com a iniciação através do entendimento completo de tudo que está acontecendo. Se alguém recebeu a iniciação última e então não faz nenhum uso dela e não pratica, mas só está envolvido em atividades mundanas e vira as costas para o Dharma, então esta pessoa poderia certamente quebrar o samaya.

Há, é claro, a forma comum de iniciação de benção, entretanto, quando as pessoas recebem esteiniciação, em geral não entendem nada do que está acontecendo. Não entendem exatamente o que deve ser praticado e o que deve ser rejeitado, estão se comprometendo talvez para receber o mantra, visualizar a deidade, e assim por diante. Em termos práticos, é pouco provável que as pessoas em tais situações vão se prejudicar com vajrayana.

 

P: Você poderia explicar a diferença entre um voto comum e o samaya?

R: Voto ou dompa em tibetano, e samaya, ou damtsig, são basicamente termos diferentes para a mesma coisa.  Em geral, o termo dompa, que normalmente é traduzido como voto, é usado nas discussões sobre o sutra, e o termo damtsig ou samaya é usado no contexto do tantra. O termo dompa significa "aquilo que segura" no sentido de nos proteger da perda ou enfraquecimento das qualidades do caminho que adquirimos, e nos protege da invasão de obstruções exteriores – por isso mantém e protege. Uma metáfora para isso é um cinto. O motivo de atar-se com um cinto é para impedir que sua roupa fique solta. Por exemplo, se você usa o cinto para manter uma chuba fechada, ele também impede a chuba de cair segurando a chuba fechada, mas também protege o seu corpo do vento, do sol e de tudo o mais, mantendo a chuba fechada. Votos ou dompa são assim. Eles atam, e atando, eles protegem. Este termo é, basicamente, o que é usado nos sutras ou é comum a ambos sutra e tantra.

O termo usado na maioria das vezes em tantra é damtsig, que literalmente significa "palavra que obriga" ou "comando". A analogia aqui é com a palavra de comando de um rei, de cuja desobediência significa certamente a morte. A ênfase está no perigo de ignorar as prescrições e as proibições do samaya, mas o perigo não vem do medo da punição como acontece com um rei, mas porque samaya é uma expressão natural da qualidade do ensinamento vajrayana. Não é um comando arbitrário imposto a nós; é simplesmente as regras que devem ser seguidas para que as qualidades não se transformem em defeitos. Por exemplo, se você estiver viajando em um automóvel existem certas regras que devem ser seguidas para evitar que você se mate. Se você estiver viajando em um avião, há mais regras porque as qualidades e a eficácia do veículo são maiores. Se pular de um avião você morre, e se pular fora do vajrayana, você irá para o inferno vajra. O rigor ou a ferocidade da samaya é diretamente proporcional às qualidades do Vajrayana.

 

P: O décimo ponto sobre as dez coisas necessárias para praticar o dharma fala sobre a aplicação de uma realização ou compreensão que não possua o "defeito da reificaçã". Eu realmente não entendi o que o defeito da reificação significa, e eu estou interessado em saber mais sobre o que podemos fazer para evitá-lo. 

R: Em primeiro lugar, o texto-raiz a partir do qual esta explicação é derivada tem a declaração: "É preciso que a nossa visão de todas as coisas não se desvie para a reificação ou a falsa imputação de solidez e o hábito de tomar por inerentes as características presentes; e nós evitamos isso, por meio do conhecimento, compreensão e realização". Isto significa que em relação a tudo o que vivenciamos, devemos transcender a ego-apreensão, ou mais precisamente, a falsa imputação de um eu inerentemente existente e a falsa imputação de solidez ou realidade de nossas experiências. Isto é verdade não só com as coisas em geral, mas também com a nossa atitude em relação ao Dharma e a prática do Dharma. Quando estamos meditando sobre uma divindade, se nos fixarmos na solidez daquela meditação e considerarmos a divindade como algo com uma existência física externa, com um corpo de carne e osso que se pareça com essa divindade particular, então há um equívoco. Esse ponto de vista não vai levar à realização. Se há uma fixação sobre as características ou forma da divindade como sendo qualquer coisa que não seja uma expressão da sabedoria que a divindade corporifica, não vai levar à realização a que a prática deveria levar. É o mesmo quando estamos considerando reinos puros. Se pensar que o reino de um Buddha é algo que existe em um lugar específico e é feito de objetos sólidos com forma tal e tal, como o mundo que experimentamos, se nos fixarmos em uma imputada solidez e em imputadas características daquele reino, isso não vai levar para a libertação naquele reino porque simplesmente perpetua nossa ordinária forma de experiência.

Diz-se que a forma de uma deidade, e, por conseguinte, a forma do reino daquela divindade é um corpo de luz cuja essência é sabedoria. Luz aqui não significa luz física; significa uma presença que é totalmente insubstancial. A divindade ter o aspecto da sabedoria significa que a forma é apenas a personificação da sabedoria, eficácia e atividade para o benefício dos seres que são a divindade. Portanto, diz-se que a forma da divindade é como raios de luz do arco-íris, e a essência da divindade é a própria sabedoria. Em última análise, no entanto, esta declaração refere-se ao fato de que a nossa compreensão final deve ser a realização do vazio que é totalmente sem qualquer tipo de elaboração, sem qualquer realizador e realização, qualquer tipo de atitude intelectual ou posicionamento algum. Assim, o ponto final é a transcendência da mente conceitual.

 

15/01/2017 - As Dez Coisas A Não Abandonar Play Download

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08. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 6 - As Dez Coisas a Serem Reconhecidas ou Compreendidas

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS A SEREM RECONHECIDAS OU COMPREENDIDAS - Capítulo 6 

O texto

Em seguida, vêm as dez coisas que devem ser conhecidas ou compreendidas. Considerando que o conjunto anterior; “as coisas que não devem ser abandonadas” devam ser colocadas em prática, estas devem apenas ser compreendidas.

1. Uma vez que as aparências exteriores são confusão, reconheça-as como sendo ilusórias.

2. Uma vez que os fenômenos mentais internos são desprovidos de uma existência em si (self), reconheça-os como sendo vazios.

3. Uma vez que os pensamentos surgem de forma condicionada, reconheça-os como sendo adventícios.

4. Uma vez que o corpo e a palavra, compostos por elementos, são compostos, reconheça-os como sendo impermanentes.

5. Uma vez que o prazer e o sofrimento dos seres sencientes surgem do karma, reconheça a lei da causalidade como sendo infalível.

6. Uma vez que o sofrimento é causa de renúncia, reconheça-o como sendo um amigo-espiritual.

7. Uma vez que o prazer e o conforto são a raiz do samsara, reconheça o desejo-apego como sendo Mara.

8. Uma vez que as distrações são condições prejudiciais à acumulação de mérito, reconheça-as como sendo obstáculos.

9. Uma vez que os obstáculos incitam à prática da virtude, reconheça os inimigos e obstrutores como sendo seu lama.

10. Uma vez que, na verdade última, todas as coisas são desprovidas de natureza própria, reconheça todos os fenômenos como sendo o mesmo.

AS DEZ COISAS A SEREM RECONHECIDAS OU COMPREENDIDAS - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

A primeira coisa a se compreender é que as aparências externas são as manifestações da nossa confusão. Devemos reconhecer que a nossa forma de experimentar o mundo não tem qualquer validade ou verdade inerente. A nossa forma de experimentar o mundo é baseado no apego-ego, a falsa imputação de uma auto existência inerente. Portanto, imputamos uma verdade ou realidade de nossa experiência do mundo, que é igualmente falsa, porque as coisas que nós experimentamos são simplesmente a exibição de nossa própria mente.  Se reconhecermos isso, as nossas experiências são em si a auto liberação, não haverá fixação sobre o que nós experimentamos. A forma de experimentarmos o mundo é como ver o reflexo da lua na água. Não é mais válido dizer que o que experimentamos é uma realidade objetiva do que dizer que o reflexo da lua é outra lua, ou seja, que há uma lua no céu e outro na água. Isto é válido na medida em que é uma experiência, mas em si não é a lua, e sim um reflexo.

Nos experimentamos coisas dessa forma em virtude de nossos hábitos e por influência de nossas ações passadas. Reconhecendo isso é reconhecer o mal ou engano oculto na forma como experimentamos as aparências. Para ilustrar a diferença entre o reconhecimento disso ou não, suponha que alguém diz que fora desse país, para além de uma cadeia de montanhas, existe um reino magnífico cheio de coisas deliciosas. Se ainda não o viu, não pode concebê-lo, por não ter a experiência disso. Trata-se de algo  que você apenas ouviu falar. Você pode acreditar ou não, mas não tem uma ideia definitiva sobre isso. Alguém que realmente tenha estado lá saberia. Da mesma forma, quando você reconhece o fato de que a forma que você experiência o mundo não tem uma validade inerente, além de ser simplesmente a sua maneira de experienciá-lo, a fixação por ele diminui.

O segundo ponto é que, uma vez que a mente em si (interna, em oposição à aparência externa) não tem existência inerente, deve ser reconhecida como vazia. Ao reconhecer o vazio ou ausência de existência inerente da mente, três tipos de fixações podem ser dissipadas. Trata-se de fixação na mente como sendo um eu (self) , fixação na mente como algo real, e fixação na mente como algo sólido.

O terceiro ponto é que os pensamentos surgem a partir da união de diversas condições, e devem ser reconhecidos como adventícios, significa que subitamente aparecem e desaparecem, e não de forma inerente à natureza da mente. Esse reconhecimento é importante, porque se nós acreditamos que os pensamentos são reais e sólidos, a fixação aos pensamentos produz por esse equívoco, um acúmulo de karma, através do poder dos pensamentos.

A quarta coisa a ser entendida é que este corpo e fala que são produzidos a partir dos elementos são coisas compostas. Elas não são coisas unitárias e, portanto, são impermanentes. Ao reconhecer a impermanência e a natureza composta do nosso corpo e fala, a tendência a se fixar sobre eles como coisas permanentes e sólidas são dissipadas.

A quinta coisa a ser entendida é que as experiências vividas pelos diversos tipos de seres vivos, de prazer e sofrimento surgem do karma, a partir de suas ações anteriores. Portanto, deve ser compreendido que os resultados das ações são infalíveis, o que você fizer, vai produzir certo resultado, que será vivido por você. O que você experimenta é definitivamente um resultado de suas próprias ações anteriore.

O sexto ponto é que o sofrimento e a doença são um motivo de renúncia estável para um praticante de Dharma, portanto, deve ser entendido como um tipo de professor valioso. Primeiro de tudo, a experiência da doença e do sofrimento, se for vivida com consciência por um praticante, é uma das causas de sua felicidade futura, pois irá esgotar o carma que o produziu. Se a doença não for experimentada agora, e o karma amadurecer-se mais tardiamente, a experiência de sofrimento será muito mais intensa, com um período de tempo muito mais longo. Além disso, a doença e o sofrimento exortam o praticante à renúncia, porque eles mostram que há karma negativo. Portanto, como praticante, você deve regozijar-se na presente experiência do sofrimento, e também usá-lo para continuar a sua renúncia ao reconhecer que isso significa que você ainda tem o carma que poderia leva-lo a um enorme sofrimento futuro.

O sétimo ponto é que como apego ao prazer e felicidade é a raiz do samsara, devemos saber que esse apego é devaputra-mara, ou lhai bu'i du em tibetano - significa que o demônio é o filho dos deuses. As experiências dos três reinos do samsara surgem do apego ou fixação na experiência de prazer e na tentativa de adquiri-la. Intoxicação com esta experiência do prazer é a causa dos sofrimentos do samsara. Portanto, este tipo de experiência deve ser reconhecido como o devaputra-mara.

O oitavo ponto é que, uma vez que as distrações e diversões são impedimentos para a acumulação de mérito, devem ser entendidas como obstáculos para a prática do Dharma. Se dedicamos o nosso tempo para distrações e diversões sem sentido, interrompendo a nossa prática, é uma forma de procrastinação da nossa prática. Isso interrompe nossa prática, fazendo como as coisas tomem muito mais tempo para serem concluídas. Isso rouba a nossa acumulação de mérito e, portanto, deve ser entendido como algo que devemos evitar.

A nona coisa a se compreender é que os obstáculos para a prática que surgem através de circunstâncias súbitas ou condições, como ações agressivas por outros, doenças e etc, são exortações para o cultivo da virtude. Portanto, esses inimigos e obstrutores devem ser conhecidos como nossos professores, nossos lamas. Como foi dito antes, se pudermos passar por condições adversas para o desenvolvimento do amor e da compaixão para com os outros, especificamente, com a atitude de que "qualquer sofrimento similar ao meu que os outros seres tenham que enfrentar, que somente eu tenha que suportá-los", então, as condições adversas, de fato, acabam por fomentar a prática do Dharma. Em particular, quando outras pessoas estão sendo agressivas com você, do seu ponto de vista, pode parecer agressão, mas se você olhar para o seu efeito final sobre a ótica do praticante, é como alguém dizendo: "Se você não sair do samsara, vai ter que lidar com essa situação novamente.” É uma exortação à renúncia e uma exortação à prática. Assim, a partir do próprio ponto de vista, e a partir do efeito final sobre você, as pessoas agressivas são realmente seus professores.

O décimo ponto é que uma vez que todas as coisas não têm a natureza inerente, devemos saber que todas as coisas, sem qualquer exceção que seja, possuem a mesma natureza, que é a quididade. Normalmente, na experiência de pessoas sem a realização da natureza ultima, há uma grande diferença entre as coisas, por um lado, que são distintas entre si, e por outro,  a natureza de todas as coisas, que é a mesma. Essa natureza é a ausência de uma essência as suas características. No entanto, quando essa mesma natureza é reconhecida, verifica-se que não existe qualquer diferença entre "coisas", de um lado, que são distintas entre si e, de outro lado, a "natureza" de todas as coisas, que é a mesma. Essa natureza é a ausência de uma essência para suas características. Entretanto, quando essa natureza em si é reconhecida, vê-se que não há diferença entre as coisas e sua natureza.  O convencional e o absoluto são os mesmos, porque qualquer coisa é a expressão da sua natureza, e a natureza de cada coisa é a mesma. Portanto, uma vez que cada coisa exprime a mesma natureza, cada coisa em sua natureza é a mesma.

É isso que é para ser entendido aqui. Esta décima coisa a ser entendida é direcionado principalmente para praticantes experientes, que têm alguma realização, e para eles é algo não apenas para ser compreendido, mas para ser praticado e realizado. Para os iniciantes, é algo que deve ser entendido como um conceito ou uma ideia.

Estas são as dez coisas a serem conhecidas ou compreendidas. A compreensão dessas coisas que chega através do raciocínio inferencial, no contexto de estudo e reflexão, é bastante diferente da realização direta do seu significado, que só pode vir através da prática de meditação. Compreender por si só não é uma base suficiente para as decisões morais, para decidir o que aceitar e o que abandonar. Devemos saber a diferença entre um reconhecimento conceitual e a realização definitiva.

a da mente conceitual.

26/02/2017 - As Dez Coisas a Serem Reconhecidas ou Compreendidas Play Download

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09. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 7 - As Dez Coisas a Serem Praticadas

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS A SEREM PRATICADAS - Capítulo 7 

O texto

1. Tendo se engajado na via do dharma, sem se juntar ao bando de profanos, pratique segundo o Dharma.

2. Tendo abandonado a sua terra natal, sem se enraizar de novo entre os homens, pratique o não apego.

3. Confiando no mestre, abandonando todo orgulho, pratique de acordo com as suas instruções.

4. Tendo-se treinado na escuta e na reflexão, sem ensinar aquilo que conhece apenas teoricamente, pratique o que foi aprendido.

5. Tendo surgido na mente a realização, sem cair na indiferença e na negligencia pratique sem distração.

6. A experiência da meditação tendo surgido, pratique sem se abandonar às distrações das multidões.

7. Uma vez engajados nos compromissos, sem deixar que corpo, palavra e mente tornem-se negligentes, pratique as três instruções.

8. Quando se desenvolveu a sublime mente do despertar, sem se preocupar consigo mesmo, pratique para o bem dos outros.

9. Uma vez engajados no caminho dos mantras (Mantrayana), sem deixar o corpo, a palavra e a mente em estado ordinário, pratique a meditação nas três mandalas.

10. Na juventude, sem perambular sem rumo, pratique os exercícios espirituais aos pés de um santo mestre.

AS DEZ COISAS A SEREM PRATICADAS - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

A lista anterior era de dez coisas a serem conhecidas, e em seguida temos as dez coisas que realmente devemos praticar. A primeira é que, tendo entrado pela porta do Dharma, não se deixe levar pelo comportamento de rebanho como nas atividades humanas insignificantes, mas pratique o Dharma adequadamente. Uma vez que tenhamos começado a prática do Dharma, é importante contar com as condições apropriadas que apoiarão a nossa prática inicial do Dharma, como ficar em um ambiente solitário onde a prática é possível, e nos cercar de companheiros que irão nos ajudar. Não devemos nos permitir ser atraídos para um monte de atividades insignificantes e distrativas. Isso pode acontecer com muita facilidade no início, nos impedindo de fazer pleno uso da nossa entrada na prática do Dharma. É importante, desde o início de nossa prática até o dia da nossa morte, fazer pleno uso da oportunidade que é o Dharma, criando condições que favoreçam a prática, como o ambiente, companheiros, e assim por diante.

A segunda coisa a ser praticada é, tendo abandonado o seu local de nascimento, não se estabeleça muito firmemente em qualquer lugar. Em outras palavras, pratique sem apego. Como foi dito antes, é importante abandonar o seu local de nascimento, o lugar pelo qual você está mais conectado, com a aspiração correta de desejar transcender o aprisionamento do samsara. Você pode deixar o local de seu nascimento, mas se você não abandonar o apego, você vai recriar os vínculos associados à sua terra natal em algum outro lugar. Você vai se identificar com um ambiente específico e se acomodar nele, o que não é melhor do que estar preso à sua terra natal. É importante que, não importando onde você esteja, manter uma falta de apego.

A terceira coisa a ser praticada é, confiando em um autêntico guru, abandonar a arrogância, e praticar de acordo com o comando dele ou dela. Ao confiar em um professor, deve-se respeitar a validade de seus ensinamentos e instruções e não ter o tipo de atitude arrogante que o faz pensar interiormente que você sabe mais. Diz-se que as qualidades não podem restar   sobre a dura esfera de ferro da arrogância . As pessoas muitas vezes têm uma atitude de pensar assim: "Meus professores sabem muito sobre o Dharma, mas eu não vou tomar os seus conselhos sobre as coisas mundanas. Quando se trata de decisões realmente sérias, eu não confio tanto neles." Se você tem uma desconfiança tão grande assim sobre seus gurus, que surgem a partir de uma espécie de arrogância, não há possibilidade de você gerar em si as qualidades deles e desenvolver o tipo de compaixão que eles encarnam.

A quarta coisa a ser praticada é, depois de ter treinado sua mente através da escuta e da contemplação, ou através do estudo e análise, não basta apenas estar envolvido em falar sobre isso, mas realmente colocar o que você entendeu em prática. Receber instruções ou chegar a um entendimento e apenas repeti-lo aos outros não vai fazer nenhum bem. Tudo que faz é criar ecos. Quando você está com fome e você tem comida, você só vai aliviar a fome na medida em que você realmente comer. Todo o propósito de possuir alimentos é que são para ser consumidos, a fim de aliviar a fome de alguém. Da mesma forma, você deve realmente colocar em prática e fazer uso de qualquer instrução que você receba e qualquer coisa que você vir a compreender através da análise.

A quinta coisa a ser praticada é que, se a experiência ou realização é gerada em seu contínuo mental, não fique esteja satisfeito com apenas isso, mas continue a praticar sem distração. Com frequência é possível ter algum tipo de experiência ou leve realização e achar que isso é o suficiente, que mais diligência e prática são desnecessárias. Isso está errado. É como tentar esfregar dois pedaços de madeira para fazer fogo, e quando eles começam a soltar fumaça, achar que isso é o suficiente. A fumaça é uma indicação de que se você continuar a fazer fricção, você obterá uma fogueira, pois a fumaça em si não é fogo; fumaça não é o suficiente. As indicações de sucesso que você experimenta em suas práticas não são indicações de que você não tem necessidade de praticar mais; eles são indicações que se você praticar ainda mais diligentemente, você vai chegar a algum resultado ou fruição. Portanto, a experiência e a realização devem estimulá-lo a um esforço adicional e não para abandonar o esforço.

A sexta coisa a ser praticada é que quando a prática tiver, em certa medida, entrado em seu contínuo mental, não se perca em distrações sem sentido em meio a muitas pessoas, mas continue a prática. Por exemplo, depois de ter terminado um período de retiro, se você entrar em um estado de completa distração e perder muito tempo, então, com o passar do tempo, o benefício recebido a partir da prática, as indicações de uma prática bem sucedida, e as mudanças em sua personalidade que são marcas de prática, vão diminuir, e sua distração e negligência aumentarão. Finalmente, se não se afastar dessa direção, você vai se dar conta que não tem ficado a menor impressão de qualquer tipo de benefício deixado pela prática que tem feito. O ponto é que se você pratica, você tem que continuar praticando. Você não pode parar e ser apenas descuidado.

A sétima coisa a ser praticada é, depois de ter se entregue ao compromisso de uma certa disciplina e modo de conduta na presença do khenpo, ou upadyaya, ou preceptor no caso de vinaya, ou o mestre vajra no caso de samaya, não deixe suas três portas – seu corpo, fala e mente – decaírem em descuido e preguiça, mas continuamente pratique os três treinamentos em conformidade com os compromissos que você fez. Os três treinamentos são disciplina pessoal ou moralidade, meditação e a aquisição de conhecimento e compreensão.

A oitava coisa a ser praticada é, tendo gerado bodhicitta – a intenção de atingir o supremo despertar – não pratique apenas para seu próprio benefício, mas execute todas as atividades, e especialmente toda a prática, para o benefício de outros. Em conexão com isso, muitas pessoas vêm a mim e dizem: "Eu não posso tomar o voto de bodhisattva, porque eu sou realmente mais preocupado comigo mesmo. Eu não posso simplesmente, de uma hora para outra, renunciar esse pensamento e fingir que eu estou preocupado apenas com as outras pessoas.” De certa forma esta é uma observação válida, mas quando você toma o voto do bodhisattva não é o caso que você deve imediatamente, em um instante, se tornar perfeito. Você tem que continuar trabalhando, ou fazendo o que quer que você precise fazer para sobreviver, mas você deve praticar o máximo Dharma que você possa, e praticá-lo para o benefício de outros. Lentamente, por incutir tal motivação, a preocupação para com os outros vai crescer, o treinamento relacionada com o voto de bodhisattva vai se enraizar em você.

A nona coisa a ser praticada é, depois de ter entrado pela porta do mantra secreto através receber a iniciação (capacitação), não deixe o seu corpo, fala e mente em um estado ordinário, mas pratique o estabelecimento de seu corpo, fala e mente como sendo as três mandalas. Isto significa reconhecer que o seu corpo é a divindade, que a fala e todos os sons são o mantra, e que tudo o que ocorre na mente é a extensão da sabedoria. O ponto é manter a atitude que o seu corpo, fala e mente são o corpo, fala e a mente de todos os Budas.

Em seguida, a décima coisa a ser praticada é que, quando você é jovem, não perca seu tempo vagando sem sentido, mas pratique com austeridade na presença de mestres autênticos. Quando as pessoas são jovens tendem a ir passear, a viajar (run around) e buscar novas experiências. Por exemplo, no Tibet, quando as pessoas eram jovens, muitas vezes gastavam muito tempo indo em peregrinação para as dezoito regiões e assim por diante. É verdade que estes são lugares que têm grandes bênçãos, porque eles foram consagrados pelos siddhas do passado, mas ir para as diversas montanhas, e assim por diante, envolve uma boa porção de dificuldades e trabalhos. Seria melhor, quando você é jovem e tem uma mente clara e um corpo forte, fazer uso dessas faculdades, não em tais atividades, mas para ficar em um lugar e praticar na presença de professores, que envolve em grande parte as mesmas dificuldades.

Estas são as dez coisas a serem praticadas.

 

03/03/2017 - As Dez Coisas a Serem Praticadas Play Download

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10. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 8 - As Dez Coisas para se Persistir

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS A PARA SE PERSISTIR - Capítulo 8 

O texto

1. Os principiantes devem persistir a escuta dos ensinamentos e na reflexão do seu sentido.

2. Quando a experiência aparece, persistir na prática da meditação.

3. Enquanto esta experiência não for estável, persista no isolamento e no retiro.

4. Se a dispersão e a agitação predominam, persista no domínio da mente.

5. Se o torpor e a opacidade predominam, persista em expandir e tonificar a mente.

6. Enquanto a mente não for estável, persista na absorção meditativa.

7. Tendo-se dedicado à absorção meditativa, persista na fase de pós-meditação.

8. Quando se encontram numerosas circunstancias desfavoráveis, persista nas três formas de paciência (não devolver o mal com o mal, tirar vantagem de toda adversidade, aceitar com certeza os ensinamentos do Lama).

9. Quando o apego e o desejo são muitos fortes, persista no emprego de meios poderosos para combatê-los.

10. Se o amor e a compaixão são muito frágeis, persista no cultivo da mente do Despertar.

AS DEZ COISAS PARA SE PERSISTIR - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

Em seguida, as dez coisas para se persistir, ou as dez coisas sobre as quais devemos ser diligentes. A primeira é ser diligente em ouvir ou contemplar, ou estudar e analisar. Quando você é um iniciante, por não saber absolutamente nada sobre o Dharma, não pode praticar, porque não sabe o que praticar e como praticar. No início, é importante se concentrar em adquirir as informações necessárias e certificar-se do entendimento.

A segunda coisa a ser persistente é tendo gerado a experiência e os conhecimentos básicos que vem da aquisição de informação e análise, enfatizar a prática da meditação.

No contexto da prática da meditação, o terceiro ponto é, até você alcançar a estabilidade, pratique na solidão. Estabilidade significa em sua prática, um estágio em que a sua mente não é afetada de forma alguma por qualquer tipo de condições ou circunstâncias externas, de qualquer natureza, e não é afetado também por nenhum tipo de pensamento ou emoção que pode ocorrer na mente. Até atingir esse grau de estabilidade, é necessário praticar na solidão.

No contexto de uma prática intensa, o quarto ponto é, se achar que sua mente divaga muito e está constantemente distraída pelos objetos, e se achar que é vítima da excitação ou agitação da mente, então, seja diligente relaxando sua consciência para pacificar essa agitação.

O quinto ponto é, se por outro lado achar que é presa do torpor e confusão mental, então eleve a sua consciência. Isso significa, por exemplo, endireitar sua postura e ligeiramente intensificar a aplicação de consciência. Dos dois defeitos que são mencionadas aqui, o primeiro, jingwa, o que significa sunkenness ou torpor, é um estado de depressão física e mental ou sonolência, não necessariamente depressão emocional e a segunda, mukpa, ou confusão mental, é um falta de clareza mental.

O sexto ponto é, até que sua mente se torne estável, enfatize o mesmo posicionamento. Mente estável refere-se ao estado em que a mente não é afetada por pensamentos, o estado em que a mente pode dirigir-se a um objeto sem que haja qualquer tipo de obstáculos surgidos dos pensamentos recorrentes. Até você chegar a esse estágio, deve se concentrar no mesmo posicionamento, o que neste caso significa a prática da meditação ou shamata.

O sétimo ponto é, quando você se tornou estável no mesmo posicionamento, em seguida, enfatize a pós-meditação. Pós-meditação aqui, não significa não praticar, significa  a classe de práticas formais que são feitas a fim de acumular mérito, são mais estruturadas do que shamata básico ou meditação da tranquilidade. O ponto aqui é, quando nós ganhamos alguma tranquilidade, devemos então aplicar isso para a acumulação de mérito, a fim de que nossa prática de tranquilidade não se torne apenas  a absorção dos reinos sem forma.

O oitavo ponto é, se parece haver muitas condições adversas,  concentre-se em aplicar diligentemente os três tipos de paciência. Quando as coisas não vão bem com qualquer aspecto de sua prática ou de sua vida, deve-se aplicar apropriadamente o tipo de paciência, ao invés de tentar fugir das circunstâncias.

O primeiro tipo de paciência é a aceitação do sofrimento. Isso significa aceitar a experiência do sofrimento que você está passando, e não tentar fugir dela ou negá-la, mas trabalhar com ela diretamente. O segundo tipo de paciência é a certeza sobre o Dharma. Isso significa ser paciente com a profundidade do Dharma, que pode não ser muito fácil de entender, e ser paciente com o processo de crescimento para compreendê-lo. O terceiro tipo é, literalmente, "a paciência que não pensa absolutamente em nada", significa, a paciência de não tornar as coisas como sendo algo relevante . Refere-se a situações em que alguém é agressivo com você, significa não reagir por intrigas; não pensar, "Fulano de tal fez (ou disse) isso, o que devo fazer (ou dizer) de volta?" e não trabalhar as estratégias e manobras complicadas, mas só pensar: "Bem, não é grande coisa, eu não tenho que fazer nada sobre isso”.

O nono ponto é, se você tem um grande apego e fixação em alguma coisa, então com força ou violência reverter esse apego. Isso significa concentrar-se em transcender qualquer forma particular de apego que atormentam a maioria. No caso, um professor Kadampa do passado, por exemplo, houve um momento em que alguém chegou pedindo a comida dele, claro que a comida significava farinha de cevada torrada ou tsampa. Ele não tinha muito tsampa, e foi originalmente dando a essa pessoa um punhado, porque quando olhou para o que tinha, pensou que era tudo o que poderia poupar. Percebeu, ao medi-lo daquele jeito, que estava muito ligado a este alimento, então deu tudo ao mendigo o que tinha, apenas para ser capaz de cortar através dessa avareza.

Finalmente, se você achar que não tem muita bondade e compaixão, então concentre-se em desenvolver a bodhicitta. Você deve considerar cuidadosamente os benefícios da bodhicitta, uma vez que é a única causa possível do estado de Buda, e os defeitos de não possuir a bodhicitta, pois sem ela não há nenhuma possibilidade de despertar. Portanto, considere a necessidade de se engajar no processo de desenvolvimento da bondade amorosa e compaixão. Motive-se a si mesmo e analise a situação. Compreenda que não importa como possa parecer, a raiz de todo o sofrimento é na realidade o desejo de realizar em benefício próprio os nossos próprios objetivos, e a raiz de toda a felicidade é a renúncia dessa preocupação, diz respeito ao desejo de realizar em benefício dos outros. Tendo compreendido essas coisas como elas são explicadas nos textos Mahayana, deve cultivá-las da melhor maneira possível.

Estas são as dez coisas a serem feitas de forma diligente, ou dez coisas para enfatizar em situações específicas. 

12/03/2017 - As Dez Coisas para se Persistir Play Download

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11. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 9 - As Dez Exortações

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ EXORTAÇÕES - Capítulo 9 

O texto

Essas são as dez exortações:

1.  A reflexão sobre a dificuldade de obter as liberdades e aquisições é uma exortação à prática do Dharma.

2. A reflexão sobre a impermanência e a morte é uma exortação à pratica da virtude.

3. A reflexão sobre a infalibilidade da lei da causalidade é uma exortação ao abandono dos atos nocivos.

4. A reflexão sobre os defeitos do samsara é uma exortação a se atingir a liberação.

5. A reflexão sobre o sofrimento dos seres sencientes presos ao samsara é uma exortação ao cultivo da mente do despertar (bodhicitta).

6. A reflexão sobre a confusão inequívoca dos seres sencientes é uma exortação à prática da escuta dos ensinamentos e a à reflexão sobre o seu sentido.

7. A reflexão sobre a dificuldade de abandonar os hábitos que mantém os seres na ilusão é uma exortação à prática da meditação.

8. A reflexão de que nesta época degenerada as emoções perturbadoras são muito fortes é uma exortação ao emprego dos antídotos.

9. A reflexão de que nesta época degenerada as circunstancias adversas são uma exortação à paciência.

10. A reflexão de que se pode desperdiçar a vida em várias distrações é uma exortação a diligencia 

Essas são as dez exortações.

AS DEZ EXORTAÇÕES – COMENTÁRIOS KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

Em seguida, vêm as dez exortações. A primeira delas é, pensando na dificuldade de obter a liberdade e os recursos da existência humana preciosa, exorta-se para a prática do Dharma sagrado. Considere-se que a única base possível para a realização da existência humana preciosa é ter acumulado uma quantidade inconcebível de mérito sobre um período longo inconcebível de tempo, e por isso é muito, muito duro alcançá-la, e muito improvável que pudéssemos alcançá-la sem o esforço intencional através do cultivo da virtude. Consideração esta nos exorta à prática de Dharma.

Em segundo lugar, pensando em morte e impermanência, exorta-se a praticar a virtude. Considere, ainda, que esta existência humana preciosa que possuímos agora, que é tão rara não dura muito tempo, portanto, não há tempo a perder. Se quisermos fazer uso dela e se quisermos obter  novamente, devemos praticar a virtude tanto quanto possível. Estas considerações levam a realmente se envolver na prática.

Em terceiro lugar, pensando na infalibilidade dos resultados das ações, exorta-se a abandonar as transgressões. Uma ação negativa não só causa dano aos outros, mas também a si mesma, porque produz um resultado desagradável na experiência futura do executor da ação. E uma ação virtuosa não só ajuda os outros, mas vai certamente ajudá-lo no futuro. Se considerar e tiver confiança nisso, naturalmente irá evitar tudo o que é nocivo. 

Em quarto lugar, considerando-se os defeitos do samsara, exorta-se para a atingir a liberação. Lembre-se que não importa em qual dos seis estados de existência que tenha nascido, é uma experiência inteiramente composta dos três tipos de sofrimento. Pensando realmente sobre o quão ruim é o samsara, você naturalmente irá desenvolver a motivação para ser liberado daquele estado de existência, e você vai realmente se envolver nos métodos que levam à libertação.

Em quinto lugar, pensando que você não está sozinho em seu sofrimento, que todos os seres sencientes dentro do samsara passam por um sofrimento terrível, exorta-se a cultivar bodhicitta.

Em sexto lugar, pensando que as atitudes de todos os seres sencientes estão incorretas ou equivocadas, exortam-se a serem diligentes em ouvir e contemplar. Ao reconhecer o fato de que a forma como todos nós vemos a nossa experiência é equivocada ou imprecisa, você reconhece a necessidade de estudar e analisar a informação que é adquirida através do estudo.

Em sétimo lugar, pensando em como é difícil extirpar o hábito de confusão que temos cultivado durante um período de tempo sem começo, exorta-se a praticar a meditação.

Em oitavo lugar, pensando que, nestes tempos degenerados as aflições mentais tornam-se mais e mais fortes, exorta-se a aplicar o remédio ou antídoto específico para cada um.

Em nono lugar, pensando, nesses tempos degenerados em que vivemos, há muitas condições adversas, exorta-se a aplicar a paciência. Diz-se que a paciência é especialmente necessária em tempos ruins ou degenerados porque há tantas condições adversas que aumentam os casos de pessoas que prejudicam os outros. Tê-la em tais circunstancias,  é dito ser a mais importante qualidade no Dharma, portanto, torna-se cada vez mais necessário o cultivo da paciência.

Em décimo lugar, pensando que a constante distração desperdiçará toda a sua vida humana, exorta-se a ser diligente.

Estas são as dez coisas para usar como exortações.

19/03/2017 - As Dez Exortações Play Download

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12. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 10 - Os Dez Riscos

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
OS DEZ RISCOS - Capítulo 10 

O texto

Esses são os dez riscos:

1. Se você tem pouca confiança e muito conhecimento, isso é o risco para se tornar um falador.

2. Se você tem muita confiança e pouco conhecimento, isso é o risco de esforço inútil.

3. Se você tiver muita energia e poucas instruções, isso é o risco de defeitos e erros.

4. Se você não eliminou previamente seus equívocos através da escuta e da contemplação, isso é o risco da meditação sobre a escuridão mental.

5. Se uma nova instrução não é colocada em prática, isso é o risco de se tornar um estudioso do Dharma fatigado.

6. Se sua mente não estiver treinada no método - grande compaixão - isso é o risco para o caminho do veiculo menor.

7. Se sua mente não estiver treinada no conhecimento - vacuidade - isso é o risco no caminho do samsara.

8. Se os oito dharmas mundanos não são superados, isso é o risco de que qualquer coisa que você faça se torne um ornamento mundano.

9. Se aldeões tem muita confiança e interesse em você, isso é o risco de ter que agradar pessoas comuns.

10. Se você tem grandes qualidades e poder, mas uma mente instável, isso é o risco de se tornar um artista de rituais da vila.

Esses são os dez desvios.

OS DEZ DESVIOS - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

Em seguida, estão os dez desvios.

O primeiro deles é que, se você tem pouca confiança, mas é muito intelectual, arrisca-se a se tornar um grande falador. Se entender o Dharma intelectualmente, mas não tiver muita fé, você não vai praticá-lo realmente, e, consequentemente, o seu entendimento se tornará um mero aglomerado de palavras.

O segundo risco é que se, por outro lado, você tiver uma grande quantidade de fé, mas não tiver muita compreensão, então vai se arriscar a conceber tudo de forma literal e, assim, avançar cegamente, ou esforçar-se com intensidade sem saber o que está fazendo. Isto significa que você não terá nenhum reconhecimento do significado do que está praticando, e, assim, não será realmente capaz de atingir a liberação que a prática poderia proporcionar.

Em terceiro lugar, se tiver muita energia, mas lhe faltarem instruções, corre o risco de fazer as práticas com defeitos e erros. Você pode ser muito diligente na sua prática, mas não receber instruções de professores qualificados, que incluem conselhos como: "quando isto é feito, isso pode acontecer, e se aquilo acontecer, então você deve fazer tal coisa; se esta experiência surge, então não se preocupe, só significa que você deve proceder de maneira tal", e assim por diante. Se não tiver tais instruções, vai ser enganado por suas próprias experiências, e desviar-se para o engano e a ruína.

Em quarto lugar, se você previamente não cortar os equívocos através do estudo e análise, ou escuta e contemplação, consequentemente a prática de meditação será simplesmente o cultivo do estado de escuridão mental ou estupidez. Isto seria como apenas estar sentado e tentando não pensar, apenas se fechando e se isolando.

Em quinto lugar, se você não colocar imediatamente em prática o seu entendimento do Dharma, vai se tornar um estudioso fatigado. Quando você chegar a um entendimento de algo ou receber algumas instruções práticas, se não as utilizar imediatamente, o desejo de usá-las se torna cada vez menor ao longo do tempo. Você se torna mais e mais cansado e começa a pensar menos e menos no valor do Dharma e das instruções que recebeu. Você continua a receber mais e mais instruções e adquirindo mais e mais conhecimento ou informação, mas permanece apenas como informação, e tem cada vez menos vontade de praticar. Por outro lado, se imediatamente põe em prática as instruções que recebe, o seu desejo de praticá-las aumenta. Quanto mais prática você fizer, mais o seu respeito pelas instruções e a compreensão do seu verdadeiro valor irá aumentar.

Sexto, se você não treinar no aspecto do método, cultivando a compaixão, então, ao se preocupar apenas com seu próprio benefício e com sua própria libertação, há o risco de se desviar para o veículo menor. Isto significa que se não gerar uma intenção pura por ter compaixão e genuíno interesse em benefício dos outros, não importa que prática esteja fazendo, ela ainda será do veículo inferior, uma vez que é a motivação que as distingue. Mesmo que se esteja praticando o mantra secreto, que é certamente o veículo maior, fazendo pujas, visualizando divindades, recitando mantras, e assim por diante, se não tem compaixão, então não é realmente o mantra secreto. Essa situação se parece um pouco com a de alguém que tem uma arma muito poderosa que poderia disparar uma bala com muita precisão a longa distância, mas dispara apontando para o chão. Assim, é essencial ter o compromisso e compreender a importância de enfatizar o benefício de outras pessoas na sua motivação para a prática.

Em sétimo lugar, se não treinar sua mente no aspecto do conhecimento, que é a compreensão correta da vacuidade, o que quer você pratique será simplesmente o cultivo de mais samsara. Se não chegar a um entendimento da vacuidade, então o que você fizer terá a marca do apego e uma crença persistente em sua própria existência inerente como sua motivação básica ou ponto de partida. Com isso como base, não importa o que você pratique, se é o mantra secreto mais profundo ou qualquer outra coisa, isso só vai aumentar o cultivo do ego.

Em oitavo lugar, se você não transcender ou derrotar os oito dharmas mundanos, qualquer prática será apenas um ornamento mundano. Se a motivação para a sua prática é o desejo de adquirir bens, fama, respeito e serviço, e o medo que estes possam diminuir, então a prática do Dharma irá conduzir a uma ligeira obtenção de tais coisas, tal como um belo ornamento sem significado, que não leva a nada.

Em nono lugar, se as pessoas em aldeias ficam muito interessadas e tem muita fé em você, pode se desviar e tornar-se alguém que só atende aos desejos das outras pessoas. Este ponto é expresso em termos de uma situação que pode surgir no Tibete: se você é um praticante e deixar moradores ter muita fé e interesse em você, só vai se tornar um escravo da popularidade. Isto significa que se você atender demasiadamente as solicitações de outras pessoas, é onde sua mente estará, e sua prática vai degenerar em simplesmente tentar agradá-los.

Em décimo lugar, se tiver gerado algumas qualidades e poderes pessoais através de sua prática, mas a sua mente não se estabilizou – ter adquirido algumas qualidades em sua prática, mas não as ter estabilizado ou maturado, permitindo permanecer na solidão, concentrando-se em apenas praticar, – então pode se tornar alguém que vagueia em torno das aldeias fazendo pequenos pujas para agradar as pessoas e adquirir oferendas.

Estes são os dez tipos de desvios.

26/03/2017 - Os Dez Riscos Play Download

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13. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 11 - As dez confusões de uma coisa por outra

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ CONFUSÕS DE UMA COISA POR OUTRA - Capítulo 11 

O texto

Essas são as dez confusões de uma coisa por outra.

1. Pode haver confusão entre fé e desejo.

2. Pode haver confusão entre amor-bondade e apego.

3. Pode haver confusão entre a essência da vacuidade e a vacuidade que é conceitualizada pelo intelecto.

4. Pode haver confusão entre dharmadhatu e a visão nihilista.

5. Pode haver confusão entre simples experiência e realização.

6. Pode haver confusão entre praticantes que são realizados e aqueles com experiência relativa.

7. Pode haver confusão entre praticantes virtuosos e impostores.

8. Pode haver confusão entre sidhas e charlatões.

9. Pode haver confusão em beneficiar os outros e beneficiar a si próprio.

10. Pode haver confusão entre professores qualificados e enganadores.

AS DEZ CONFUSÕES DE UMA COISA COM OUTRA - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE:

O Próximo capitulo são relacionados às dez situações em que se pode confundir uma coisa com outra. Refere-se a dez situações em que duas atitudes podem ser similares em aparência, mas são muito diferentes em seu efeito e natureza, e, portanto, podem facilmente ser confundidas uma pela outra.

A primeira delas é que é possível confundir a fé e o desejo. Quando você tem fé em alguém, isso é bom, é prazeroso. Quando você está pessoalmente ligado a alguém, você também se sente bem. É possível confundir uma coisa pela outra na sua atitude com seus professores. A fé nos professores é a valorização do fato de que através de sua realização, compreensão e compaixão, ensinam o caminho que conduz à liberação e onisciência. É um interesse neles e no que eles ensinam, um respeito por eles e pelo método.

Por outro lado, o apego, o desejo, ou a fixação pessoal pelos professores acontece por se estar atraído por eles e se ter prazer por sua raça, sua aparência, pelo fato de que eles podem ser jovens, ou algo efêmero ou superficial em sua personalidade.

Em segundo lugar, é possível confundir apego por bondade genuína e compaixão. Amor e compaixão se distinguem de apego quando são igualmente aplicados aos seus amigos e seus inimigos. O amor genuíno e compaixão não fazem distinção com base na sua relação com o objeto de compaixão. Eles são o desejo de que todos os seres sencientes, sem exceção tenham a felicidade e as causas da felicidade, e o desejo de que todos os seres sencientes, sem exceção, sejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento. A tônica dessas duas atitudes é que não há nenhuma esperança envolvida de qualquer natureza de retorno ou qualquer tipo de satisfação pessoal como resultado da felicidade dos outros.

No caso do apego por alguém, você deseja o bem a essa pessoa, mas ele está baseado em uma identificação com ele ou ela como "meu amigo, meu filho, minha filha". Essa identificação e sentimento de propriedade ou de territorialidade estão relacionados com querer algum tipo de retorno. Você desfruta da felicidade dessa pessoa por ter uma identificação com ele ou ela, e, portanto, em essência, é apenas o desejo para seu próprio benefício. Tal apego pode muito facilmente se transformar em aversão, raiva e ódio. Esta é a diferença entre a compaixão e o apego.

Terceiro, é possível confundir a natureza vazia de todas as coisas com a vacuidade conceitualmente imputada. Isto é, podemos confundir a vacuidade genuína com uma ideia de vacuidade. A vacuidade genuína, a verdadeira natureza de todas as coisas, está além de qualquer tipo de elaboração, significa que está além de qualquer tipo de descrição ou apreciação conceitual. Ela não pode ser encontrada através do pensamento. Portanto, quando pensamos sobre a vacuidade e geramos um conceito ou ideia sobre isso, tudo o que podemos fazer é negar aspectos da nossa experiência e chamar essa negação de vacuidade. Não há nenhuma experiência direta da vacuidade em tal raciocínio. Raciocínio pode ser útil, mas não pode levar a uma experiência direta da própria natureza. Ele só pode conduzir à negação parcial de conceitos errôneos. A vacuidade verdadeira transcende não só a existência ou a afirmação da existência, mas também a não existência ou negação da existência. A vacuidade é inconcebível e, portanto, deve-se distinguir de uma ideia conceptual dela.

Em quarto lugar, é possível confundir o domínio dos fenômenos, o dharmadhatu, e a visão niilista. Porque o dharmadhatu é a natureza de todas as coisas, ele transcende o fato de ser uma coisa interdependente. Não é ocasionado por causas e condições. Não é um produto e não é um fenômeno composto. Isto é muito diferente da visão de que não há interdependência e, portanto, nenhuma continuação dos resultados produzidos por nossas ações presentes e passadas. É possível confundir estes dois. Algumas vezes, quando a natureza do dharmadhatu é apresentada, o entendimento parcial dessa natureza pode levar ao equívoco de que não há algo como karma.

Houve uma vez um mestre eminente, um nascimento anterior do Dodrupchen Rinpoche, que deu um ensinamento no qual expôs sobre o dharmadhatu. Um dos monges presentes entendeu mal a visão do dharmadhatu e pensou que isso significava que não havia resultados das ações e que era permitido fazer qualquer coisa. Ele saiu e matou uma cabra. Então Dodrupchen Rinpoche perguntou-lhe: "Você é uma pessoa do Dharma e um monge, como você poderia matar uma cabra?" Ele respondeu: "Você disse que eu não existo, a cabra não existe, e o ato de matar não existe. Portanto, pensei que não haveria nenhum problema." Dodrupchen Rinpoche estava tão angustiado pelo fato do seu ensinamento ter levado a tal mal-entendido que ele entrou em retiro e não ensinou durante anos.

Quinta estancia, é possível confundir experiência e realização. Uma variedade de experiências pode surgir durante a sua prática. São indícios de que a prática é bem sucedida e está surtindo algum efeito sobre você. Tais experiências, tais indicações ou sinais são bastante diferentes da realização. As experiências por sua própria natureza decaem e desaparecem, enquanto que a realização não se desfaz e não pode desaparecer. Se você se fixar em uma experiência e direcionar sua prática em direção a ela, quando a experiência desaparecer você vai ficar sem nada, e certamente sem nenhuma realização.

É muito comum que as pessoas confundam estes dois. A diferença é extrema porque na realização todos os defeitos foram abandonados e o poder da sabedoria expandiu-se ou floresceu. É bastante comum para pessoas que têm algumas experiências durante a prática, assumir que atingiram realização. Eles assumem que são siddhas, e, portanto, se envolvem em condutas que eles ouviram que são apropriadas para siddhas. Então, é claro, quando eles morrem, vão para os reinos inferiores.

Em sexto lugar, é possível confundir um bom monge ou monja por um falso. Bons monges e monjas abandonam o que é prejudicial para si e para os outros, e cultivam o modo de conduta prescrito no Vinaya ou disciplina. A maneira como monges devem aparecer também é determinado: há determinadas vestes que são usadas de maneira particular, certas cores, certos implementos que são mantidos, certas coisas que são abandonadas, e assim por diante. Isto é muito detalhado, e um bom monge ou monja manterá tudo isso. Um falso pareceria o mesmo por fora, usando as mesmas vestes, e pareceria exatamente igual na conduta, se você apenas olhasse para ele ou ela. A diferença é que um bom monge ou monja se comporta da mesma maneira se alguém está ou não olhando. Ele ou ela é o mesmo em público ou privado. Um falso é sempre muito bom quando os outros estão olhando, mas quando ninguém está olhando, não é tão bom.

Sétimo, é possível confundir alguém que, tendo realizado manifestadamente a natureza de todas as coisas, erradicou toda confusão, com alguém que foi levado por Mara e enlouqueceu. Quando as pessoas realmente perceberam diretamente a natureza de todas as coisas, finalmente, elas não têm medo. Não têm medo de nada. Não têm nenhuma hesitação. Não têm necessidades pessoais; não se preocupam absolutamente consigo. Portanto, a maneira como eles podem agir é bastante incerto. Nós não podemos dizer que eles vão agir de uma forma ou de outra. Por outro lado, a forma de agir de alguém que ficou louco porque algo deu errado em sua prática poderá ser igualmente incerta. Não se pode realmente dizer a diferença do nosso ponto de vista.

Oitavo, é possível confundir um siddha e um charlatão. Tendo realizado completamente a natureza de todas as coisas e purificado todas as contaminações, os siddhas fazem uma variedade de coisas para o benefício dos seres sencientes. Por exemplo, eles podem fazer previsões. Siddhas podem dizer que daqui a vinte anos tal e tal coisa vai acontecer. As pessoas acham que as ações dos siddhas são bastante úteis e agradáveis; é útil saber dessas coisas. Por conseguinte, há também charlatães que, vendo que as pessoas acham os siddhas muito atraentes, fingem ser siddhas e fazem previsões - dizendo o que vai acontecer daqui a vinte anos, e que no passado certas coisas aconteceram e assim por diante, a fim de ganhar louvor e ficar ricos. Assim, é possível confundir siddhas e charlatães.

Nono, é possível confundir alguém que está envolvido em benefício de outros com alguém que está envolvido em seu próprio benefício. Bodhisattvas e iogues realizados irão fazer tudo o que puderem para beneficiar os seres sencientes com o seu corpo, fala e mente. Eles produzem um grande número de benefícios, e dedicam todo o mérito acumulado do bem que fazem a todos os seres sencientes. Eles não têm nenhuma esperança de qualquer tipo de resultado ou ganho pessoal através do bem que fazem.

Por outro lado, há pessoas que fazem uma quantidade de boas ações com o fim de atrair seguidores, ganhar riqueza e poder. Por exemplo, houve uma vez um lama tibetano que foi para Ladakh. Ele não era muito conhecido, então não tinha muitos seguidores e não recebeu muitas oferendas. Quaisquer que tenham sido as oferendas que recebeu, as usou para oferecer lamparinas e fazer oferendas de festim e assim por diante, com o proposito de acumular mérito. Quando as pessoas ouviram falar sobre isso, ficaram muito impressionadas com ele, a coisa era evidentemente real, então começaram a fazer um monte de oferendas para ele. Uma grande quantidade de pessoas reunidas em torno dele, uma cidade inteira de alunos. Desta forma, acumulou muito dinheiro a ponto de ir direto de volta ao Tibet. Foi um investimento calculado ao fazer pequenas oferendas iniciais. Ele sabia o que estava fazendo, que tudo o que oferecia estava indo para o campo de méritos, as pessoas poderiam oferecer muito mais, ele poderia simplesmente pegar o dinheiro.

Décimo, é possível confundir um professor habilidoso com um enganador ou professor desonesto. Professores hábeis fazem o que podem e dizem o que é necessário para possibilitar que as pessoas entrem na prática do Dharma e para ajudar seus alunos a evitar dificuldades e obstáculos desnecessários. Um professor que faz isso é um professor muito útil e excelente. Professores genuínos desse tipo não têm nenhuma preocupação com qualquer tipo de benefício que virá para eles. Eles não têm fixação sobre o que acontece e não há expectativa no que diz respeito à atitude dos seus alunos em relação a eles.

Por outro lado, há pessoas que agem de maneira um tanto similares, pelo menos na aparência, mas escondem seus próprios defeitos e fingem ter qualidades que eles realmente não possuem. Usando desse engodo, eles manipulam as pessoas para realizar algum tipo de intenção própria, tais como a aquisição de riqueza ou seguidores, ou ambos. É possível confundir estes dois tipos de professores.

Estas são as dez situações em que duas coisas têm a mesma aparência em primeiro lugar, mas não são, de fato, o mesmo.

18/06/2017 - As Dez Confusões de Uma Coisa por Outra Play Download

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14. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 12 - As dez coisas infalíveis

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS DEZ COISAS INFALÍVEIS - Capítulo 12 

25/06/2017 - As Dez Coisas Infalíveis Play Download

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15. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 13 - As 14 coisas insensatas

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AS 14 COISAS INSENSATAS 

O texto

Essas são as quatorze coisas insensatas.

1. Ter obtido a existência humana e não se lembrar do santo Dharma é tão insensato quanto retornar de mãos vazias de uma ilha coberta de pedras preciosas;

2. Tendo-se engajado na Via do Dharma, é insensato estabelecer-se como chefe de família: é agir como a mariposa que se precipita na chama;

3. Viver ao lado de um praticante do Dharma e permanecer sem fé, é tão insensato como morrer de sede na beira de um lago;

4. O Dharma não utilizado como antídoto ao apego egocêntrico e aos quatro principais atos nocivos é desprovido de sentido, como um machado abandonado, inutilizado, ao pé da árvore;

5. Receber instruções orais liberadoras sem utiliza-las como antídoto às emoções perturbadoras é tão insensato como transportar, doente, um saco de remédios e não fazer uso deles;

6. Aquele que, hábil no uso de metáforas, é incapaz de reconhecer o seu significado, é tão insensato como um papagaio recitando orações;

7. Fazer oferendas com o produto de roubo ou escroqueria é insensato: é como lavar a pele de carneiro apenas com água;

8. Causar mal aos outros seres com o objetivo de fazer oferenda as três (jóias) Raras e Sublimes (Budha, Dharma e Sangha) é tão insensato como oferecer a uma mãe a carne de seu filho;

9. Modificar o comportamento, praticar a paciência e suportar a adversidade com a única finalidade de realizar, nesta vida, um fim egoísta é insensato: é comportar-se como o gato que espreita o rato;

10. Realizar uma prática de Dharma de grande amplitude para obter respeito e boa reputação é tão insensato quanto trocar a jóia que realiza todos os desejos por roupas e comidas;

11. Tendo recebido numerosos ensinamentos, deixar a mente em estado ordinário é mostrar-se tão insensato como o médico acometido por uma doença;

12. Ter adquirido uma grande erudição em termos de instruções liberadoras sem ter realizado verdadeiramente a experiência da meditação é tão insensato como o homem rico não utilizar a chave de seu tesouro;

13. Explicar aos outros o sentido de práticas sem tê-las internalizado é tão insensato como o cego que tanta guiar outros cegos;

14. Tomar as experiências, frutos do emprego dos meios hábeis como sendo o resultado final da prática, sem procurar o sentido da verdadeira natureza de todas as coisas, é tão insensato quanto aquele que confunde latão e ouro.

AS QUATORZE COISAS INSENSATAS - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

Em seguida, há quatorze coisas que são totalmente insensatas. A primeira delas é a de ter obtido um corpo humano, mas não lembrar ou pensar no Dharma. Isto é tão insensato como uma pessoa pobre que vai ao uma ilha coberta com diversos tipos de joias, mas parte da ilha de mãos vazias, sem levar nada.

Em segundo lugar, tendo entrado na porta do Dharma através da ordenação, para em seguida voltar à vida mundana é tão insensato quanto uma mariposa sendo atraída pela chama de uma vela e voar de encontro a ela.

Em terceiro lugar, para alguém sem fé, residir na presença de um grande mestre que é um verdadeiro tesouro do Dharma é tão inútil quanto alguém morrendo de sede na beira de um lago.

Em quarto lugar, saber muito sobre o Dharma, porém não fazer com que o conhecimento levem à abandonar os quatro violações profundas da disciplina moral(1) ou tornar-se um antídoto para nossa postura egocêntrica é tão insensato como colocar um machado no tronco de uma árvore e não usá-lo para corta-la.  (1: As quatro violações da conduta moral: matar, roubar, mentir, comportamento sexual incorreto.)

Em quinto lugar, as instruções que não são utilizados como um antídoto para os kleshas ou aflições mentais são tão insensatos como uma pessoa doente transportando um saco de remédios e não fazer uso deles.

Sexto, qualquer terminologia filosófica na qual treinamos o nosso discurso, mas que não foi absorvida em nosso contínuo mental é tão inútil quanto as recitações de um papagaio.

Sétimo, ter tomado algo que não é dado, por meio de furto, dominância, roubo, enganação ou dissimulação, e então dá-lo generosamente a outros ou usá-lo para fazer oferendas é tão inútil quanto pegar sua peça de roupa de pele de carneiro e afundá-la na água. Não é tão fácil de entender porque nós não temos tais coisas, mas uma peça de roupa de pele de carneiro que é preparada de forma tradicional pode ser suja, mas é macia. Se você tentar limpá-la colocando-a na água, quando ela secar se tornará dura rígida e totalmente inútil.

Oitavo, prejudicar seres sencientes e então oferecê-los às Três Joias é tão inútil quanto cortar em pedaços a carne de uma criança e então oferecê-la à mãe da criança. Isto refere-se a prática de sacrifício animal que era feita no Tibet antes do advento do Budismo. Não chamamos isto necessariamente de uma prática Bon, porque os Bonpos não fazem isto. Isto é algo que acontecia lá e ocasionalmente acontece em alguns lugares e mesmo atualmente. É considerado tão inútil oferecer tais coisas aos budas e bodisatvas quanto seria oferecer um corpo assassinado de um filho à sua mãe.

Nono, ser hipocritamente bom e paciente para satisfazer nossos próprios objetivos nesta vida é tão inútil quanto o comportamento suave de um gato esperando para saltar sobre um rato. Hipocrisia aqui se refere fingir ser moral quando não se é, e paciente refere à de esperar por uma oportunidade para se tornar rico ou atingir algum objetivo mundano. É como o cauteloso, suave e tranquilo comportamento de um gato que está tentando atrair um rato que ele quer matar.

Décimo, engajar em vastos atos de virtude para se tornar famoso ou rico ou honrado nesta vida é como trocar uma joia que realiza desejos por um pequeno bocado de farinha. Nós podemos fazer tais coisas como produzir e oferecer estatuas, ou outras coisas geralmente virtuosas, mas podemos fazê-lo apenas para ganhar o respeito de outros ou para atrair pessoas para que então possamos nos tornar ricos ou estimado dentro de uma comunidade. A virtude em si é como uma joia que realiza desejos, mas fazer tal coisa e dedicar para nosso próprio benefício é como trocar aquela joia a fim de obter uma refeição. Quando dedicamos o mérito que acumulamos para o benefício de todos os seres ele se torna inesgotável como uma joia que realiza desejos, mas não o dedicar devidamente é como trocar aquela jóia por algo que não durará muito tempo.

Décimo primeiro, recebendo uma grande quantidade de instruções, mas deixar a sua própria mente indomada é tão inútil quanto uma morte médica de uma doença incurável. A analogia não é muito exata ou óbvia aqui, mas o ponto é este: Se você aprendeu muito do Dharma, e colocou uma grande quantidade de tempo e esforço na aquisição de informações, mas não se empenhou em qualquer tempo em praticar, não vai ajudá-lo. Isso pode ajudar outra pessoa, mas não você. Isso é como a situação de um médico que está aflito por uma doença que não pode ser curada. Um médico é alguém que aprendeu muito, mas se ele ou ela tem um tipo de doença que a medicina não pode responder, então não há nada que o médico possa fazer, não importa o quanto habilidoso ele ou ela seja na medicina. Não está se dizendo que há alguma coisa de errado em ser um médico, mas o ponto é que o estudo ou o próprio aprendizado não pode, por si só, mudar tudo.

Decimo Segundo, aprender nas instruções, mas não ter nenhuma experiência na pratica é como possuir um tesouro de riqueza a qual não se tem a chave.

Décimo Terceiro, ensinar Dharma quando não compreendeu o seu significado é tão inútil quanto para uma pessoa cega conduzir outra pessoa cega.

Decimo quarto, considerar a experiência que surge a partir de métodos de prática como supremo, e não para procurar genuína realização da natureza última da mente, é tão inútil quanto pegar um latão e dizer que é ouro. Isto se refere principalmente ao acúmulo de mérito . Se você estiver satisfeito com o acúmulo de mérito (2) e as experiências ou benefícios que surgem, e você não reconhecer a natureza de todas as coisas, então você não pode alcançar o verdadeiro estado de Buda. Assim, quando você se envolver em práticas de acumulação de méritos, é extremamente importante ter a intenção de acumular tal mérito, a fim de reconhecer a natureza ultima e atingir o estado de Buda completo. O ponto aqui é que o método, a acumulação de mérito, tem de ser combinada com a sabedoria, que neste caso é a compreensão profunda, por meio da experiência, do que você está buscando. Se método e sabedoria não estão unidos, a sua acumulação de mérito não é mais eficaz do que pegar uma pedra amarela ou pedaço de latão e supor que é ouro. (2: No mahayana é enfatizado que a prática da compaixão, descrita como um método ou um meio hábil, leva a acumulação de mérito. No vajrayana, as práticas em si também geram vastomérito, e são descritas como método. Em ambos os casos é importante combinar método e sabedoria.)

Essas são quatorze coisas que são totalmente inúteis ou insensatas. A função dessas instruções é para que você possa diferenciar entre o que é Dharma e o que não é, para ter uma ideia sobre como aplicar, como praticar, que tipo de motivação se deve ter, o que acontece quando a motivação está presente e o que acontece se a motivação não está.

23/07/2017 - As 14 Coisas Inssensatas Play Download

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16. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 14 - As 18 Faltas interiores de um praticante do Dharma

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS 18 Faltas interiores de um praticante do Dharma

 As dezoito faltas interiores de um praticante do Dharma:

1. Retirar-se na solidão, mas permanecer preocupado com as coisas mundanas é uma falta para um praticante do Dharma.

2. Guiar uma comunidade, mas preocupar-se com os seus próprios interesses é uma falta para um praticante do Dharma.

3. Sendo versado nos ensinamentos do Dharma e não se abster de cometer atos nocivos é uma falta para um praticante do Dharma.

4. Ter recebido importante instruções liberadoras e deixar, contudo, seu ser no estado ordinário é uma falta para um praticante do Dharma.

5. Embora manifestando uma conduta ética pura, conservar grandes desejos é uma falta para um praticante do Dharma.

6. Embora tendo obtido uma boa realização, conservar a mente indisciplinada é uma falta para o praticante do Dharma.

7. Tendo entrado na Via do Dharma, não abandonar o apego e a aversão das atividades mundanas é uma falta para um praticante do Dharma.

8. Abandonar as atividades mundanas para cultivar a prática do Dharma, mas depois retornar às atividades deste mundo é uma falta para um praticante do Dharma.

9. Ter compreendido o sentido de um ensinamento e não colocá-lo em prática é uma falta para o praticante do Dharma.

10. Ter feito a promessa de praticar e não cumpri-la é uma falta para um praticante do Dharma.

11. Dedicar-se plenamente à prática do Dharma e, mesmo assim, não melhor a sua conduta é uma falta para um praticante do Dharma.

12. Embora dispondo de alimentos e roupas em quantidade suficiente, preocupar-se ainda com isso é uma falta para um praticante do Dharma.

13. Despender o poder decorrente de suas práticas virtuosas curarando doentes ou evitando "si", é uma falta para um praticante do Dharma.

14. Ensinar ensinamentos profundos em troca de alimento ou riqueza é uma falta para um praticante do Dharma.

15. Vangloriar indiretamente a si mesmo e denegrir os outros é uma falta para um praticante do Dharma.

16. Dar aos outros instruções enquanto se está em desacordo com o Dharma é uma falta para um praticante do Dharma.

17. Não conseguir permanecer na solidão e também não saber como permanecer na presença dos outros é uma falta para um praticante do Dharma.

18. Não saber resistir ao bem-estar nem resistir ao sofrimento é uma falta para um praticante do Dharma.

AS DEZOITO FALTAS INTERIORES DE UM PRATICANTE DO DHARMA - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

A próxima categoria é as dezoito faltas interiores dos praticantes. Faltas interiores aqui significam ações ou características que não estão de acordo com o objetivo de uma pessoa, neste caso o praticante. Por exemplo, se alguém é reconhecido como um estudioso, mas é analfabeto, ou se alguém é conhecido por ser bonito, mas não tem nariz, esta é uma discordância entre o nome e a realidade. Assim se alguém é reconhecido como um praticante, mas não pratica, esta é uma discordância entre o nome e a realidade.

A primeira destas faltas interiores é viver solitariamente e ainda assim apenas buscar sucesso nesta vida. O propósito de viver solitariamente é direcionar todos os seus esforços para a realização da liberação e onisciência. Se em vez disso, enquanto vive solitário, você direciona todo seu esforço para a realização de riqueza, fama, trabalho e conforto, então isto é uma falta interior do praticante.

Segundo, ser o líder de uma comunidade, como um monastério ou algum tipo de organização do Dharma, e ainda não cuidar dela e não ter como alvo sua preservação, mas trabalhar só para alcançar o que parece pessoalmente benéfico para você, é uma falta interior dos praticantes do Dharma.

Terceiro, ser versado no Dharma, mas não evitar atos nocivos é uma falta interior dos praticantes do Dharma. Ter o aprendizado que vem de ouvir e contemplar, mas não colocar isso em prática, evitando atividades que prejudicam os outros, é uma contradição do aprendizado e do comportamento e, portanto, uma falta interior dos praticantes.

Quarto, é uma falta interior do praticante possuir uma grande quantidade de instruções, mas permitir que seu contínuo mental permaneça em estado ordinário. Isso significa ter recebido, compreendido, e possivelmente memorizado uma grande variedade de instruções, mas sua mente permanece indomada por meio da prática.

Quinto, é uma falta interior dos praticantes, ser nobre em sua disciplina física, mas ter a mente sob o poder do desejo. Isto significa na verdade não domar a mente internamente e observar uma disciplina moral/ética externa ou fisicamente.

Sexto, é uma falta interior do praticante ter uma variedade de experiências excelentes ou intensas na meditação, mas ainda não ter dominado as aflições mentais.

Sétimo, é uma falta interior do praticante ter atravessado a porta do Dharma, mas não estar livre do apego e da aversão que afetam uma pessoa não treinada/não-praticante. Isso significa embarcar na prática do Dharma, não tendo abandonado ainda o ciúme, a ganância e a mesquinhez.

Oitavo, é uma falta interior do praticante abandonar as atividades mundanas e entrar na prática total do Dharma, mas depois, pouco a pouco, voltar involuntariamente para a agricultura, que significa voltar às atividades mundanas que foram abandonadas. Quando as pessoas renunciam ao mundo, se sua renuncia não é completa, o que por vezes acontece é que, no início, serão renunciantes puros e praticantes do Dharma, mas a seguir, quando se tornam mais velhas, começarão a rastejar para as suas atividades antigas.

Nono, entender o significado do Dharma e não praticar é uma falta interior do praticante.

Décimo, assumir um grande compromisso por um período de prática e então não mantê-lo é uma falta interior do praticante do Dharma. Por exemplo, dizer na presença de seu mestre, "eu ficarei em retiro por três anos", ou cinco anos ou o que seja, e depois não ser capaz de fazê-lo, é uma falta interior.

Décimo primeiro, não fazer nada além do Dharma e mesmo assim não aprimorar sua conduta é uma falta interior. Isto se refere a estar numa situação como um retiro, onde não há absolutamente nada para fazer além da prática, e ainda estar preocupado com comida, roupas e coisas do tipo.

Décimo segundo, uma vez que, quando praticamos o Dharma, alimentos e roupas surgirão naturalmente pelas bênçãos das Três Jóias e pelo poder de nossa prática, nesse sentido, é uma falta interior para um praticante preocupar-se demasiado de onde virão essas coisas. Isto quer dizer que não deveríamos ter pensamentos como, "O que comerei amanhã? O que vestirei?"

Décimo terceiro, dedicar todo o pequeno poder e mérito obtido a partir da prática para proteger magicamente os outros de doenças e de "si" é uma falta interior do praticante. Quando uma família tem um filho que morre, há uma preocupação por parte dos pais que a próxima criança venha a morrer também. Isto é chamado de "si" em tibetano. Pessoas nesta situação podem pedir por algum tipo de benção para evitar que isto aconteça. Dedicar sua prática para esses benefícios temporários e perder de vista o objetivo final, que é domar suas próprias aflições mentais e desenvolver a capacidade de domar as aflições mentais dos outros e, por fim, estabelecê-los todos no estado de Buda, é uma falta interior do praticante. Isto não é dizer que é impróprio ajudar as pessoas se você tem a capacidade genuína de fazê-lo. O que é apontado como defeito aqui é fazer estas coisas para que as pessoas digam que você tem muito poder mágico e é muito digno de respeito - em outras palavras, fazer isto para adquirir uma reputação ou seguidores.

Décimo quarto, transmitir ensinamentos profundos para obter alimentos e riqueza é uma falta interna do praticante. Ensinar indiscriminadamente tudo o que você sabe, quaisquer textos que você estudou, e todas as práticas que você pode explicar, simplesmente para obter posição e riqueza, e assim por diante, é uma falta. Atualmente isto ocorre muito; na verdade, isso é o que todos nós fazemos.

Décimo quinto, é uma falta dos praticantes se elogiar e louvar indiretamente suas capacidades, e criticar ou injuriar os outros. Por exemplo, você pode dizer, "Sou um simples professor. Não tenho muitas qualidades, mas minha linhagem é muito, muito profunda e tem grandes bênçãos que são totalmente inquebrantáveis. Meus mestres são assim e assim, isso e aquilo, e são muito poderosos." Então você contaria histórias destes mestres que os tornam muito interessantes e impressionantes, e continuaria com, "Apesar de eu ser completamente simples, as instruções que tenho são de grande profundidade". Então, falando de outros mestres, você diria. "Eles têm qualidades extraordinárias; eles são muito sábios e realizados. No entanto, sua linhagem é um pouco engraçada. Certa vez isso e isso aconteceu, e então um destes mestres fez isso e isso." Falando desta forma, embora pareça que estamos nos colocando por baixo e valorizando os outros, de fato estamos fazendo o oposto, e isto é uma falta interior dos praticantes.

Décimo sexto, apresentar aos outros as instruções recebidas, mas permitir que seu contínuo mental permaneça imaturo e em desacordo com o Dharma, é uma falta dos praticantes. Como foi dito antes, pessoas que recebem instruções podem se tornar como ecos - algo como: o que quer que vá, volta novamente - mas nada está realmente acontecendo. Nesta situação, quaisquer instruções que você receba, embora você entenda seu significado , você passa adiante sem praticá-las. Alguém assim não desenvolve as qualidades que atribuímos ao nome "praticante".

Um praticante do Dharma é alguém que, tendo recebido as instruções, pratica-as para que ele ou ela mude. As aflições mentais começam a diminuir, e a compaixão e a bondade aumentam. Isto é o que significa ser uma pessoa do Dharma. Alguém que apenas entende as coisas e as repassa não é realmente um praticante do Dharma, porque ele ou ela não tem as qualidades que podemos atribuir a esse nome.

A décima sétima falta do praticante é não conseguir permanecer solitário, e ainda ser incapaz de conviver com outras pessoas quando você vive com elas. Isto é o oposto de uma das dez coisas sem erro descrita anteriormente, quando foi dito que você deve ser capaz de permanecer em retiro solitário e também, quando apropriado, conviver harmoniosamente no meio de uma comunidade de praticantes. Neste caso, apesar de ter prometido praticar em retiro, quando você está no retiro você não consegue praticar porque está preocupado por não ter uma determinada quantidade de comida ou roupa que pensa precisar, e você está com medo de estar muito quente ou muito frio ou coisas assim. Então, quando você não está em retiro mas está com outras pessoas, você está constantemente discutindo com elas e brigando por coisas insignificantes, de modo que você não pode se dar bem com ninguém. Alguém assim não é um verdadeiro praticante.

Finalmente, é uma falta interior do praticante ser incapaz de resistir ao bem-estar ou ao sofrimento. Se você se entrega totalmente às circunstâncias agradáveis ou condições confortáveis então você perde sua mente para esse prazer ou esse conforto e, paralelamente, quando alguma circunstância exterior faz com que você se sinta um pouco desconfortável ou é desagradável você é imediatamente lançado num poço de depressão, então você não é um verdadeiro praticante.

Estas são as dezoito faltas interiores dos praticantes.

06/08/2017 - As 18 faltas interiores dos praticantes do Dharma Play Download

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17. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 15 - As 11 Coisas Essenciais

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AS 11 COISAS ESSENCIAIS

 O texto

1. Inicialmente, uma firme confiança reforçada por um grande medo da morte e do renascimento é indispensável;

2. É indispensável ter um bom Lama para conduzir-nos ao caminho da Liberação;

3. O conhecimento que permite a compreensão do Dharma, é indispensável;

4. O ardor à prática, sustentado pela coragem e pela resistência, é indispensável;

5. Cultivar sem complacência as duas acumulações e a prática das três instruções é indispensável;

6. O ponto de vista justo que permite realizar a natureza essencial de todo objeto de conhecimento é indispensável.

7. A meditação na qual a mente permanece onde é colocada é indispensável.

8. Um modo de vida no qual todos os atos são integrados à prática é indispensável.

9. Praticar as instruções que permitem combater os riscos de erro, condições adversas, obstáculos e demônios, para que elas não permaneçam letra morta, é indispensável.

10. Ter adquirido a certeza que permite morrer sem medo, no momento em que a mente se separa do corpo, é indispensável.

11. Obter o resultado da prática - os Três Corpos Espontâneos de Budha -, é indispensável.

AS ONZE COISAS INDISPENSÁVEIS - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

Em seguida, estão as onze coisas sem as quais não há como praticar o genuíno Dharma.

Primeiro, se você não possui desde o início de sua prática a fé estável ou a confiança que vem do medo sincero e genuíno dos sofrimentos do nascimento e da morte, não há como praticar o Dharma. A única coisa que pode motivar uma prática correta do Dharma é esse reconhecimento da miséria do ciclo contínuo de nascimento e morte. Somente por meio desse reconhecimento você pode ter uma confiança estável em um autêntico mestre e em suas instruções, e só com essa confiança que você pode realmente vir a compreender e praticar o Dharma.

Em segundo lugar, mesmo que você tenha uma confiança muito estável, não há uma maneira de praticar o Dharma sem um guru autêntico que realmente possa direcioná-lo no caminho que levará à liberação.

Em terceiro lugar, embora tenha o tal professor, se você não tem a percepção do que é a correta compreensão do significado do Dharma, então não há como praticar.

Quarto, mesmo se tiver uma compreensão genuína sobre o significado do Dharma, se não possuir a diligência que combina um compromisso como uma armadura e inabalável com uma genuína coragem, não há como praticar. Armadura, aqui, significa o comprometimento consigo mesmo, tão forte que a partir do inicio da prática não importa o que aconteça ou quanto tempo passe (tenha passado), você nunca vai se afastar da prática diligente.

Em quinto lugar, se você tiver a atitude na qual qualquer que seja a prática dos três treinamentos em reunião com as duas acumulações que você tenha feito é suficiente, não há nenhuma forma de praticar o genuíno Dharma. Você nunca pode estar satisfeito com a quantidade que tenha feito. Como mencionado anteriormente, os três treinos são a disciplina pessoal, a meditação, e a aquisição de conhecimento ou compreensão correta, e as duas acumulações são o mérito e a sabedoria. É importante nunca se contentar com qualquer medida desses treinos e acumulações que você tenha realizado.

Por exemplo, é impróprio se, tendo terminado a cem mil oferendas de mandala, pensar; "Isso é mérito suficiente, eu posso parar aqui", ou tendo recitado o número prescrito de mantras, se pensar, "Isso é suficiente." Na verdade, seu objetivo não é apenas terminar uma determinada prática ou acumular certo número de mantras, mas obter a total onisciência da budeidade completa. Pensar: "Este tanto é o suficiente, eu fiz o suficiente", é tão tolo quanto para alguém que decidiu "Eu vou andar daqui até aquela cidade", caminhar dez passos, ou uma centena ou mesmo milhares de passos, e então dizer: "Bem, isso basta." Até chegar lá, até terminar o que você está tentando fazer e cumprir o seu compromisso, não será suficiente.

Em sexto lugar, se você não tiver a visão do que é a correta compreensão da natureza de todas as coisas, então não há nenhuma forma de praticar. A fim de alcançar o fruto da prática do Dharma é necessário compreender e apreciar a natureza de todas as coisas. Especificamente, devemos compreender o fato de que a sabedoria e as qualidades da fruição estão espontaneamente presentes na base, que é a nossa situação no momento. É somente devido a presença de tanta sabedoria e qualidades que é possível remover os obscurecimentos habituais e aflitivos que se escondem. Portanto, é só através dessa visão que podemos entender como o fruto pode ser obtido, e de como podemos obtê-lo.

Se não temos essa visão não vamos realmente compreender que defeitos devem ser evitados, que qualidades irão surgir, e como eles irão aparecer no caminho. Não saberemos que direção seguir na nossa prática. Seremos como pessoas caminhando de olhos vendados em direção a um destino desconhecido. Não interessa quão vigorosamente elas caminhem, não terão nem ideia aonde estão indo, então elas nunca chegarão. Se você tem essa visão e compreensão corretas, então, mesmo se seus passos no caminho são vacilantes, poucos ou lentos, você sabe onde está indo. Seus olhos estão abertos e você vê seu destino, então, no fim você chegará.

Em sétimo lugar, se você não possui a meditação que é a habilidade de colocar a mente em qualquer forma e em qualquer objeto que deseja, não há nenhuma forma de praticar. O desenvolvimento da tranquilidade ou shine é absolutamente necessário para o desempenho de qualquer tipo de prática. Se você possui certo grau de tranquilidade, você pode visualizar divindades e manter essa visualização, lembrando todos os detalhes de sua aparência. Pode recitar mantras e direcionar sua atenção a cada sílaba do mantra visualizado. Mesmo se estiver executando atividades mundanas, será capaz de executá-las com plena consciência e atenção, de modo que tudo o que fazemos se torna fácil e é realizado de forma eficaz. Finalmente, quando você chegar a reconhecer a natureza última, você será capaz de descansar nela, sem distração. Como foi dito pelo Grande Senhor Tsongkhapa, você deve ter essa tranquilidade que quando sua mente está em repouso é imóvel como o rei das montanhas, e quando você movê-la poderá entrar imediatamente em qualquer ato virtuoso.

Em oitavo lugar, sem possuir a conduta que traz todas as suas atividades para o caminho, não há maneira de praticar o Dharma. O significado geral de tal conduta é que tudo que se faz é realizado com a motivação, aspiração, atitude e percepção virtuosa. Por exemplo, quando os praticantes estão subindo uma montanha gerariam a aspiração, "Que todos os seres sencientes ascendam o caminho para completa liberação." Quando estão descendo, eles pensam: "Que todos os budas emanem do dharmakaya na forma de um corpo, trazendo a todos os seres sencientes à liberação." Caminhando ao longo de uma estrada, eles pensam: "Que todos os seres sencientes percorram o caminho correto e adequado, sem obstáculos." Quando acendem um fogo, eles pensariam, "Que o fogo da sabedoria queime as impurezas de todos os seres sencientes." Todas essas motivações e práticas relacionadas com as atividades diárias podem ser encontradas nos sutras do mahayana. O significado particular com respeito ao mantra secreto é que ao longo de todas as atividades você deve manter a consciência de si mesmo como a divindade, o som como mantra, e todos os eventos mentais como a manifestação da sabedoria. Através de tal conduta tudo que você faz torna-se significativo e é trazido para o caminho.

Em nono lugar, a menos que você receba e realmente implemente as instruções que lhe permitem superar os obstáculos na prática, não os deixando como meras palavras - não há maneira de praticar com sucesso. Isso se refere às instruções que lhe permitem superar impedimentos e condições adversas, transcendendo a sedução de Mara, reconhecendo e evitando fontes de erro ou corrupção na prática. É especialmente importante que, ao receber tais instruções, realmente as coloque em prática. Deixar as instruções como meras palavras significa receber instruções de um professor, memorizá-las e repeti-las para os outros, mas nunca fazer qualquer uso delas.

Em décimo lugar, não há maneira de atingir o resultado ou fazer uma prática significativa sem possuir a grande confiança que o fará feliz no momento da separação da mente e o corpo. A grande confiança vem de fazer bom uso da oportunidade de praticar. Quer dizer que, tendo obtido um precioso corpo humano, exercitou-se em ouvir, contemplar e meditar, realizou direta e indiretamente benefício aos outros, adquiriu e usou um caminho puro. Como você tem a confiança que vem disso, caso morra em qualquer momento, o que pode acontecer, a possibilidade não o atemoriza. Isso é semelhante ao sentimento de alguém que pode ser exilado a qualquer momento de seu país ou de sua residência, mas sabe que no lugar de exílio há amigos, bens e dinheiro que pode ser usado para sobreviver. Essa pessoa não está preocupada realmente com o que irá acontecer.

A melhor forma de confiança vem da Realização do Mahamudra, nesse caso você sabe que quando morrer, a clara luz do caminho – a realização que você conquistou através de sua prática - irá se misturar com a clara luz base, que é fundamentalmente a presença dessa clara luz que surge na consciência de alguém que acaba de morrer. Sabe se que estes irão se misturar da mesma maneira que um filho pulando no colo de sua mãe, e quando isso ocorre, você alcançará de imediato o estado de unidade, o estado de Vajradhara.

Se você não tem essa certeza, então como a seguinte melhor forma, é suficiente ter a confiança estável que você tem feito o seu melhor na acumulação de mérito e sabedoria, e que, portanto, nada pode dar errado quando você morrer. Gerar essa confiança de que no momento de sua morte você está seguro é o ponto do Dharma.

Por fim, não há um modo de praticar o genuíno Dharma sem ter a fruição, que é a presença espontânea, dos três corpos dentro de nós. A visão em que o caminho da prática está baseado é a compreensão da natureza de todas as coisas. Enquanto as coisas possuem uma existência não inerente e, portanto, é dito que são vazias, há uma lucidez que caracteriza nossa experiência e há, ao mesmo tempo, uma variedade desimpedida ou ilimitada daquilo que experimentamos. Essa é a forma como as coisas são e através do processo de ter essa natureza apontada no momento da instrução que ela é compreendida. O reconhecimento dessa natureza é o ponto de partida e a base para o caminho, que é a familiarização com essa natureza. Isto leva ao resultado, que é a manifestação da vacuidade de todas as experiências como o corpo das qualidades essenciais ou dharmakaya; a manifestação da lucidez inerente como o corpo de completo deleite ou sambhogakaya; e a manifestação do estado desimpedido como o corpo da emanação ou nirmanakaya, o qual emana em uma variedade ilimitada de formas para o benefício de todos os seres sencientes da maneira que seja apropriada para cada situação em particular.

É necessário entender que o resultado da prática não é algo que acontecerá automaticamente, devido a fruição ser diferente de nosso estado presente, mas também não é algo novo, porque a natureza da fruição é nossa natureza nesse momento. O fato que isso é algo novo e ao mesmo tem não é, está indicado pelo termo "presença espontânea". Podemos dizer que a fruição é algo novo porque nesse momento não experimentamos os três corpos da completa budeidade. Eles estão obscurecidos pelos véus casuais que nos afetam desde os tempos sem começo . Por outro lado, não podemos realmente dizer que a fruição é algo novo, porque o que realmente são os três corpos são está presente em nós e está simplesmente obscurecido. A fruição consiste no reconhecimento em nós dos três corpos e a remoção resultante dos obscurecimentos.

Essas são as onze coisas sem as quais não há nenhuma forma de praticar o Dharma genuíno.

13/08/2017 - As 11 Coisas Essenciais Play Download

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18. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 16 - Os 11 Sinais da Santidade

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
OS 11 SINAIS DA SANTIDADE

O texto

1. Ter pouco ciúme e orgulho é um sinal de santidade.

2. Ter poucos desejos e saber contentar-se com objetos de qualidade inferior, é um sinal de santidade.

3. Não ter orgulho, soberba, nem ostentação é um sinal de santidade.

4. A ausência de hipocrisia e de dissimulação é um sinal de santidade.

5. Em qualquer ação, examiná-la com atenção e cumpri-la com circunspecção e determinação é um sinal de santidade.

6. Manter a disciplina de conduta como se preserva a pupila dos olhos é um sinal de santidade.

7. Manter os votos e os engajamentos de iniciação, pública e privadamente, é um sinal de santidade.

8 . Considerar com imparcialidade equânime todos os seres e permanecer fiel aos amigos é um sinal de santidade.

9. Suportar sem se irritar os atos nocivos dos outros é um sinal de santidade.

10. Permitir que o outro triunfe, tomando a derrota é um sinal de santidade.

11. Diferir, em pensamentos e comportamento, dos seres apegados ao mundo é um sinal de santidade.

OS ONZE SINAIS DE SANTIDADE - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

Os onze sinais de santidade:

A próxima relação é dos onze sinais ou indicações de santidade. A primeira destas situações é, não importa se uma pessoa é jovem ou velha, homem ou mulher, se essa pessoa sente pouca inveja ou pouco orgulho, então ele ou ela é um ser santo ou genuíno.

Segundo, se alguém tem muito poucos desejos e apegos por prazeres e posses, e está satisfeito com coisas simples e em pouca quantidade, esta é uma indicação que ele ou ela é uma pessoa santa.

Terceiro, se uma pessoa é desprovida de ostentação, vaidade e arrogância, isto é sinal de que ele ou ela é uma pessoa santa.

Quarto, se uma pessoa é desprovida de hipocrisia e tem o mesmo comportamento em público e em privado, isto é um sinal de que ele ou ela é uma pessoa santa. Uma pessoa hipócrita, por exemplo, é extremamente pacífica, submissa, adequada, cuidadosa e atenciosa na presença de outros, mas quando está só ou entre poucas pessoas que ela sente que pode confiar, é bruta, descontrolada e indisciplinada. Quem é genuíno ou santo, é o mesmo, não importa quem está ao redor porque essas qualidades estão presentes naturalmente na mente dela. A pessoa hipócrita parecerá boa quando está cercada por outros, porque está tentando parecer boa, mas como ela não possui as qualidades verdadeiras de ser pacífica e submissa, ela é indisciplinada, quando não há alguém próximo.

Quinto, em qualquer ação que alguém se envolve, feita conscientemente, com prévia consideração e executada com atenção plena, isto é um sinal que ele ou ela é uma pessoa santa.

Sexto, se alguém se prende em vista dos resultados das ações com o mesmo cuidado com que cuidaria de seus olhos, isso é uma indicação que ele ou ela é santo ou genuíno. "Prender-se aos resultados das ações" significa que uma vez que você está confiante que uma má conduta leva ao sofrimento, você se abstem de todas as más condutas; e uma vez que você está confiante que a virtude ou as ações benéficas levam à felicidade, você defende a prática da virtude, fazendo com que ela floresça e não seja prejudicada. O nível de adesão a esses dois modelos de conduta, respectivamente [evação/prevenção] e cultivo, é comparado com a quantidade de urgência e cuidado com que você protegeria seus olhos se algo estivesse para atingi-los e danificá-los.

Sétimo, se alguém não faz distinção entre situações públicas e privadas em relação aos votos e samayas, isso é uma indicação que ele ou ela é uma pessoa santa ou genuína. Tal pessoa observa os requisitos de qualquer disciplina que tenha sido empreendida por toda sua vida, ou por qualquer período de tempo que o compromisso foi feito, e o fará não importa quem está ao redor para ver, não importa se as condições que sustentam tal disciplina estão presentes ou não, e não importa se as condições que podem levar ao enfraquecimento de tal disciplina estão presentes ou não.

Oitavo, não ter parcialidade em relação aos seres sencientes e não diferenciar entre velhos amigos e novos amigos é sinal de santidade. Parcialidade significa pensar que estas pessoas ou estes seres estão do meu lado e aquelas pessoas ou aqueles seres estão do outro lado, e portanto, ter mais compaixão para alguns do que por outros. A palavra tibetana "sar drok" literalmente significa "novos amigos", mas significa prestar mais atenção a novos amigos. Quando você conhece pessoas, no início você as considera encantadoras, você sorri para elas o tempo todo, e você é atencioso e gentil com elas; mas a medida que você continua e as conhece por um longo período de tempo, o sorriso começa a desaparecer e sua atenção para o bem estar delas começa a diminuir. Uma pessoa santa ou genuína é a mesma com as pessoas com quem se associa, desde o momento em que é apresentada até o último momento que as vê.

Nono, é sinal que alguém é santo ou genuíno se ele ou ela não fica irritado(a) com as transgressões dos outros, mas é paciente com elas. Geralmente, quando ouvimos falar ou vemos pessoas fazendo algo que consideramos moralmente incorreto, tendemos a gerar a atitude, "Essas pessoas são malignas. Elas são pecadoras. Elas são más. Oh, elas matam animais! Elas fazem isso; elas fazem aquilo". Você sente compaixão pelos seres que foram maltratados, mas não por aqueles que fizeram o mal. Uma pessoa santa ou genuína terá compaixão por ambos, e sobretudo pelas pessoas que estão fazendo o mal.

Décimo, é uma marca inconfundível de uma pessoa santa ou genuína quando alguém cede todos ganhos e vitória para os outros e toma toda perda e derrota para si mesmo.

Finalmente, e em resumo, se a maneira de pensar ou a intenção com que alguém age, e a maneira de agir, são totalmente diferentes e superiores à maneira mundana habitual, isso é um sinal de uma pessoa santa ou genuína.

Essas são as onze indicações ou marcas de uma pessoa santa. Não é tanto o caso de que por meio desses onze sinais você possa determinar quem mais é uma pessoa santa, mas se você aplicá-las para si mesmo, você pode descobrir rapidamente se você é santo ou não. Às vezes as pessoas dizem, "Não sei se eu realmente quero atingir o estado búdico ou não. Você é um Buda? Como é?" Não há nada errado com essa pergunta. Faz muito sentido, porque, além da palavra "Buda" ou "sangye", nós realmente não sabemos muito sobre isso. Não sabemos o que a palavra significa, quais são as qualidades de um Buda, ou em que exatamente consiste o caminho que conduz ao estado de Buda.

A função desse tipo de instrução é lhe dar alguma idéia de quais qualidades realmente fazem um Buda tão grande, qual é a natureza do caminho, e exatamente o que está acontecendo para alguém que está nesse caminho. Se você não sabe nada a respeito dessas coisas - qual é o resultado ou o que é o caminho - então, é claro, você não terá nenhuma confiança no caminho e não terá nenhuma idéia se você quer fazer essa viagem. No entanto, se por meio desse tipo de instrução você gera uma compreensão confiante do que acontece no caminho, quais são os resultados, e porque um buda é supremo entre os seres, então você naturalmente desenvolverá um grande interesse em seguir por esse processo..

20/08/2017 - Os 11 Sinais da Santidade Play Download

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19. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 17 - As 10 coisas inúteis

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS 10 COISAS INÚTEIS

03/09/2017 - As 10 coisas inúteis Play Download

 

1. Por mais cuidado e atenção que se dedique ao bem-estar deste corpo ilusório, é inútil porque, sendo impermanente, ele será destruído.

2. Por mais cobiça que se tenha por riquezas, é inútil porque, no momento da morte, parte-se nu e de mãos vazias.

3. Por mais cuidado que se tenha em construir uma bela residência, é inútil por que, no momento da morte você morrerá sozinho, o próprio corpo é colocado fora de casa.

4. Não importa o que se deixa com amor aos filhos e sobrinhos, é inútil porque, no momento da morte, eles não poderão nem por um instante nos ajudar.

5. Não importa o que se faça por afeição para agradar aos próximos e amigos, é inútil porque, no momento da morte, parte-se só e sem amigos.

6. Ter numerosos filhos e sobrinhos para assegurar a sucessão é inútil porque eles mesmos são impermanentes e os bens herdados serão, de qualquer modo, dispersados.

7. Esforçar-se, nesta vida, em expandir propriedades e autoridades, é inútil porque, no momento da morte, parte-se sem esperança de retorno.

8. Engajar-se com confiança na Via do Dharma sem modificar a conduta é inútil porque conduziria ao renascimento nos domínios de existência inferior.

9. Quaisquer que sejam os conhecimentos adquiridos pela prática da escuta e da reflexão, serão inúteis se não forem praticados, porque não conseguirão integrar às circunstâncias da morte o caminho que conduz ao Despertar.

10. Se não se tem fé e respeito é inútil permanecer, ainda que por muito tempo, ao lado de um mestre espiritual, porque as qualidades de sua superioridade e a sua influência espiritual não poderão ser transmitidas.

AS DEZ COISAS INÚTEIS - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

A próxima lista é as dez coisas inúteis. Isso significa que não há benefícios finais ou duradouros nessas coisas.

A primeira delas é que não importa a quantidade de trabalho que você dispensa a esse corpo ilusório, ele é impermanente e é certo que será destruído, e por isso não há benefício definitivo nisso. Não importa quanta atenção você dedica à sua aparência, suas roupas, sua situação física ou os cuidados com seu corpo, em algum momento ele e sua mente serão separados, e tudo isso que você fez para preservar seu corpo, não terá mais nenhum efeito e não determinará as experiências a que você será submetido. Obviamente, isso não quer dizer que comer o alimento adequado e proteger-se de doenças não é benéfico, porque enquanto você estiver vivo você deve fazer essas coisas. O ponto é que eles não são de benefício duradouro porque, afinal, o corpo e a mente serão separados.

A segunda coisa que não é benéfica é ganância ou avareza por posses, riqueza, etc. Não importa quão apegado você é com coisas belas e luxuosas ou com qualquer tipo de posses, não importa quanto você gostaria de adquirir coisas que outras pessoas possuem, e não importa se você as adquire ou não, quando morrer você irá nu e com as mãos vazias. Por isso não há benefício duradouro nessas coisas.

A terceira coisa que não é benéfica é o trabalho que você faz em sua casa. Não importa quanto tempo você gasta em casas, palácios ou castelos, e não importa quanto trabalho e austeridade vai para sua construção e manutenção, quando você morre você irá só e sem sua casa, seu castelo ou seu palácio, e até mesmo seu cadáver será jogado para fora da porta. No momento de sua morte essas coisas são inúteis. Isso não se refere a templos, porque construindo ou ajudando a construir um lugar onde as pessoas praticam, você ajuda os outros a gerarem mérito e, portanto, acumular méritos para si mesmo, que permanecem com você.

Quarto, não importa quantas coisas você dá para seus filhos, sobrinhos e sobrinhas, e não importa quanto amor você tem por eles, no momento de sua morte eles não serão capazes de proteger você ou prolongar sua vida, então não haverá efeito duradouro nisso. O que é de benefício no momento de sua morte são atividades que geram virtudes e acumulam méritos como oferendas e práticas, etc.

Quinto, não importa quanto ama a sua família e amigos, e não importa quanto você tenta agradá-los, quando você morre, você morre só, e nesse momento não há nenhum benefício no que você fez ou no apego que você teve por eles.

Sexto, não importa quantos filhos, sobrinhos, sobrinhas você tenha, seu relacionamento com eles é impermanente. Eles nunca ficarão satisfeitos não importa o quanto você faz por eles e não importa o quanto você dá para eles, então isso não traz benefício. Afinal as crianças e membros mais novos da família a quem você se tornou apegado, te abandonarão. Não importa o quanto você tente fazer por eles, mesmo se você lhes der seu bem mais precioso, nunca será suficiente para eles, e isso nunca significará tanto para eles ao receber tais coisas como significa para você dá-las.

Sétimo, não importa quantas propriedades você adquire com o objetivo de acumulá-las nesta vida, não importa qual posição você adquire na sua comunidade, como ser um oficial do governo, não importa quanta autoridade você adquire e quanto trabalho você faz para adquiri-los, quando você morre sua conexão com essa comunidade e com a propriedade que foi sua está terminada, assim não há benefício. Dizer que essas coisas não trazem benefício significa que o apego a essas coisas é prejudicial e a fixação nessas coisas é prejudicial. Se, por outro lado, você pratica e cultiva o Dharma, isso traz benefícios.

Oitavo, se você atravessar a porta do Dharma ao receber ordenação, iniciações, ao empreender práticas e assim por diante, mas não pratica ou não se conduz de acordo com o Dharma, então, por esse envolvimento não cumprido com o Dharma, você se jogará nos reinos inferiores, assim não há benefício. Você pode se envolver na prática pela pressão de companheiros ou através do conhecimento de pessoas que estão envolvidas com isso - isso é, por razões sociais - e não um desejo sincero e verdadeiro de praticar, você pode ser incapaz de manter os compromissos feitos. Portanto, você retorna para as atividades mundanas e viola os votos e samaya assumidos, que é uma causa de um nascimento inferior.

Nono, se você tem treinado sua mente na escuta e contemplação e como resultado sabe muito, mas não tem praticado, não importa o quanto você sabe sobre o Dharma, no momento da morte não haverá nada à sua disposição com que trazer a experiência da morte para o caminho e, portanto, tudo o que você sabe não será de qualquer benefício. Se você não tem a confiança e a habilidade para lidar com a situação da morte que vem por ter verdadeiramente praticado, tendo cultivado as qualidades do caminho, acumulado mérito e removido os obscurecimentos, então, no momento da morte você ficará aterrorizado e agonizado e não será capaz de lidar com ela de nenhuma forma. Não importa o quanto você sabe, mesmo que você entenda quais são os benefícios da prática, apenas conhecê-los não vai ajudar. Você deve ter colhido esses benefícios.

Finalmente, não importa quanto tempo você permanece na presença de um mestre autêntico, se você não tem fé nele ou respeito por este mestre, você não adquirirá as qualidades ou receberá as bênçãos do mestre e, portanto, não há benefícios.

Estas são as dez coisas inúteis.

P: Nas quatorze coisas que são totalmente inúteis, o quarto era saber muito sobre o Dharma, se tal conhecimento não leva a abandonar as quatro violações raiz de conduta moral. Quais são os quatro violações raiz de conduta moral?

R: O texto diz que conhecer muito Dharma e ainda não ser como um remédio para a falsa imputação de um eu inerentemente existente e para não levar ao abandono das quatro raízes é inútil. Os quatro raízes são as quatro ações que levam à completa erradicação das três formas de ordenação de liberação individual. Eles são: de matar, pegar o que não é dado, se envolver em conduta sexual imprópria e de fingir ter poderes sobre-humanos ou intencionalmente mentir sobre realizações espirituais.

Há, como você deve saber, três tipos de ordenação de liberação individual: o de um discípulo genyen ou leigo, um getsul ou iniciante, e um gelong, monge ou monja completamente ordenado. No caso de um genyen, a terceira raiz, conduta sexual imprópria, significa adultério ou logyem. No caso de um tsang cho genyen ou discípulo leigo celibatário, e um getsul ou um gelong, significa qualquer atividade sexual que seja. Essas são as quatro raízes.

Em relação ao Dharma se tornando um remédio para apego ao eu, significa que a prática do Dharma deve servir para nos ajudar a chegar ao reconhecimento de que não existe um eu inerentemente existente, e, ao mesmo tempo, para nos ajudar a abandonar ou trabalhar com o hábito de imputar essa auto existência. Se a prática do Dharma não faz essas duas coisas, servir como um antídoto para o apego ao eu e para evitar esses quatro tipos de ações, então se diz ser inútil.

P: Você disse sob as coisas a serem conhecidas, em número de seis, que quanto mais tempo do karma leva para amadurecer mais peso tem?

R: Não necessariamente, porque há duas situações entre elas; Uma é que, uma ação negativa tremendamente poderosa é realizada, é provável que amadureça rapidamente, possivelmente nessa mesma vida ou imediatamente na próxima, Então, nesse caso, não é verdade que quanto mais cedo amadurece menos pesado o karma será. A outra é quando um praticante que tem cultivado a compaixão fica doente ou sofre o amadurecimento do karma anterior relativamente menor e faz a aspiração: "Que todos os meus karmas negativos sejam experimentados nesse momento, no contexto dessa situação, que todos os karmas negativos de todos os seres sencientes sejam experimentados por mim nesse instante". Com base nessa experiência desagradável, o karma está sendo purificado, o que o impede de ser experimentado no futuro. Mas isso não é tanto devido à experiência em si, que é um resultado menor de uma ação que em si pode produzir algo maior, mas porque, na ação de fazer uma aspiração, o praticante está gerando uma atitude que, por si só purifica o karma.

P: Com relação a isso, se desejarmos que todos os maus resultados cármicos venham para realização, e dissermos que os queremos agora ou nessa vida fora do caminho, significa que estamos pedindo por isso? Poderíamos ficar muito, muito doente.

R: Se você fizer a aspiração: "Que todo o karma negativo que eu tenha de enfrentar no futuro seja experimentado agora", isso não irá aumentar nem diminuir as circunstâncias reais de sofrimento que você tenha que se submeter. Se você está sofrendo de uma doença especifica, e fizer essa aspiração, isso não removerá a doença física, e não será causa de acontecer o inicio de muitos outros infortúnios. O que vai acontecer é fortalecer a sua mente na capacidade de aceitar o sofrimento, nesse sentido, irá remover o seu sofrimento real, sua miséria real. Normalmente, a ideia de sofrimento, miséria, doença e morte são muito deprimentes e geram uma grande quantidade de aversão. Se você tivesse que dizer a alguém: "Você está ficando doente e vai morrer", a pessoa iria ficar com raiva e não ficaria feliz, é necessário despender algum esforço em aceitar a doença e o sofrimento.

No momento que se atinge o primeiro nível Bodhisattva é que podem surgir para os praticantes muitas condições adversas, é quando se tornam "Nobres" ou "Aryas". Em vida, ao se atingir o primeiro nível de Bodhisattva, os praticantes serão submetidos a uma série de condições adversas, de doenças e obstáculos e assim por diante. Razão que quando essas pessoas morrem, em uma sucessão de vida após vida, em um sentido mais amplo, não estão realmente mais no samsara, e porque alcançaram muito não irão mais experimentar o sofrimento manifesto. Então, com o fim de transcender os sofrimentos, acontece automaticamente de eles terem que passar muito rápido por tudo isso. A partir do seu ponto de vista, experienciam intensamente as causas menores de sofrimento, purificando todo o karma residual.

P: Do ponto de vista do Buda não há passado, presente e futuro. Portanto, em última análise, por não haver passado, é possível muda-lo? Todos os eventos estão acontecendo ao nosso redor são atribuídos ao karma? Qual é o lugar para o livre arbítrio?

R: O estado de Buda não é uma coisa composta. Não é feita de diferentes coisas que se unem, e, portanto, não é impermanente e não podem ser dividida. Não há distinção entre passado, presente e futuro no Estado do Buda em si mesmo, porque os três tempos são um processo de mudança, e só se aplicam às coisas mutáveis, impermanentes. Em última análise, a ideia dos três tempos, da existência de um inerente passado, presente e futuro são enganosos, uma vez que não são inerentemente existentes, mas apenas relativos. O conceito de passado, presente e futuro em última instância não têm validade, são válidas apenas convencionalmente.

É certamente verdade que a nossa situação básica, de como experenciamos o mundo, os tipos de corpos e sentidos que temos e assim por diante, resulta de nossas prévias ações, do nosso karma anterior. Nesse sentido, não podemos mudar a nossa situação básica. Por exemplo, como seres humanos experimentamos o mundo de uma certa maneira. Nós experimentamos o que chamamos de fogo como o fogo, a água como água, e assim por diante. Não podemos no contexto dessa vida mudar isso. Não podemos mudar o fogo por água. O fogo pode sempre nos queimar, se colocarmos as mãos nele, e assim por diante. No entanto, você pode fazer escolhas morais, e ao fazê-las, como abster-se do que é nocivo e praticar o que é virtuoso, afeta o seu futuro. Você sempre tem escolha, e, portanto, um certo grau de livre arbítrio, dentro dos limites das percepções estabelecidas. Essas limitações são impostas pelo seu karma anterior. No entanto, você pode mudar a percepção futura e consequentemente suas futuras limitações por ações no presente.

P: Em relação a lista das dez coisas sem nenhum beneficio, disse que não há nenhum beneficio em construir uma casa, mas fizesse uma exceção em construir monastérios, em que há mérito nisso. Eu queria saber se o mérito que se adquire em construir monastérios permanece após a morte, ou se é parecido com o restante da lista de dez coisas se nenhum beneficio e acaba também com a morte.

R: Beneficia você nessa vida; temos um bom lugar para conhecer! Na verdade, isso depende da intenção do indivíduo em fazer isso. Se, construindo um monastério, sua intenção é estabelecer uma situação confortável e prazerosa para si mesmo, não irá acumular qualquer mérito que irá durar para além dessa vida. Mas, se a sua intenção é criar um lugar onde imagens do Budha, textos e assim por diante possam estabelecer como objetos de veneração e como base de instrução para as pessoas, e assim poderem acumular méritos, e especialmente se construir isto com a intenção de ser um lugar onde tantas pessoas quanto possível, possam ouvir, contemplar e meditar o Dharma, então você tem uma intenção pura. Construindo um monastério com essa intenção e aplicação pura, uma grande quantidade de mérito pode ser acumulado; e isso resulta na purificação das ações negativas do passado e na experiência do resultado desse mérito, na maioria das vezes estará presente na próxima vida. No entanto, pode acontecer que o mérito acumulado nessa vida é de tal intensidade que ele amadurece plenamente nessa vida.

P: Em relação a acumulação de mérito, recebemos algumas vezes noticias dos monastérios de grupo budistas dizendo que se doarmos dinheiro ou se fizermos uma determinada ação, poderemos acumular muitos méritos. Devíamos ter a atitude, "Que bom, assim terei mais para poder dedicar?" Muitas vezes me incomoda de olhar para algo que parece ser uma boa ideia e então ler ao fundo; " Positivamente estas adquirindo uma grande quantidade de mérito." Porque esse tipo de espólio reforça a ideia de acumulação para si mesmo.

R: Bem, não posso dizer que fazer oferendas a um mosteiro a fim de acumular mérito é uma motivação impura. Temos de ser realistas, e como iniciantes, nem todos têm a motivação da bodhicitta completa. Não importa o quão elevado ou puro praticante você é, para domar sua mente ainda se beneficia de sua prática diária, recitações e etc. Especialmente em um período de treinamento, a primeira pessoa a ser beneficiada realmente é você mesmo. Quando as pessoas ficam doentes, eles fazem oferendas e solicitam bênçãos e etc., para aliviar a doença, e não há nada de errado ou desprezível sobre isso. No início, é difícil abandonar completamente qualquer preocupação para o nosso próprio benefício. Do ponto de vista do cultivo da bodhicitta, a motivação mais perfeita é fazer tudo com a intenção de apenas beneficiar os outros, e sobre tudo, sem se importar em nosso próprio benefício. Essa é a melhor intenção possível, mas nem sempre os principiantes poderão gera-las. Isso depende o quão longe o praticante foi no cultivo da bodhicitta. Tal apelo por dinheiro para a construção do monastério ou algo que vem de fora pode inspirar pessoas que tenham a bodhicitta, com o pensamento de fazer oferendas para o monastério. Se puderem, farão essas oferendas, porque possuem a bodhicitta, e naturalmente dedicam o mérito a todos os seres sencientes, então lhes prometendo o mérito não os impede de fazer isso. Muitas pessoas que serão atingidas pelo apelo não são particularmente intensos praticantes. Não importa o que o apelo diz, não vai transformar instantaneamente a motivação dessas pessoas em bodhicitta, mas a promessa de mérito pode atrai-los, não posso dizer que não há nada de errado com isso. Claro, tentar acumular mérito sem dedica-lo não é a motivação final ou definitiva.

P: Você obtém mais mérito praticando com outras pessoas do que sozinho?

R: Sim, definitivamente. Você acumula mais mérito ao praticar com outras pessoas, porque quando muitas pessoas praticam juntas, cada pessoa acumula o benefício de uma pessoa multiplicado pelo número de pessoas que estão lá. Por exemplo, se dez pessoas praticam juntas, cada uma experimenta dez vezes a quantidade de benefício que ele ou ela experimentaria praticando sozinho. É dito que acontece o mesmo com ações negativas. Se um grupo guerreia com outro grupo, e uma pessoa dentro do grupo mata uma pessoa do outro, cada pessoa do grupo que matou acumula o carma daquela morte. Então, se muitos matam muitos, então cada pessoa acumula muito. Isto é ensinado no cho gnon pa, o abhidarma.

P: Minha pergunta se relaciona com os primeiros dois dos dez desvios, relacionados com a fé e a inteligência. Quando eu era jovem, eu achava muito fácil e natural ter fé em coisas e em mim mesmo; mas depois que cresci, eu não tinha muita fé em coisas como a medicina, o governo, ou em mim mesmo nesse sentido. Vendo o Dharma, ouvindo seus ensinamentos e praticando-o, eu achei que faz sentido para mim como um intelectual. Gostaria de saber se há diferença entre ter confiança no Dharma e ter fé no Dharma, e também gostaria de saber como despertar a fé em nós mesmos com relação ao caminho, ao Dharma, ao professor e a este texto.

R: É um bom sinal que você teve uma fé ingênua quando você era criança, porque indica uma disposição positiva. Mas isso também é um bom sinal que ao amadurecer, com sua crescente percepção, você examinou as coisas e você perdeu aquela ingenuidade. Você não deveria de forma alguma estar alarmado pela perda da inocência.

Então, no que concerne à diferença entre fé e confiança, a função da inteligência do ponto de vista dármico é possibilitar ver defeitos e qualidades claramente, e estar apto a distinguir entre o que é para aceitar e o que é para rejeitar. A forma de fazer uso da inteligência é examinar cada aspecto do Dharma passo a passo, e então você pode confiar no que você provou a si ser válido através do exame. Isto é diferente do tipo de fé ingênua que você experienciou quando você era criança, porque esta confiança é baseada, e somente continua na medida em que você determinou ser válido ao aplicar a sua inteligência.

Basicamente, a razão disso ser possível e porque há validade na aplicação de uma compreensão ou inteligência desenvolvida, é que a mente de qualquer um de nós tem em sua natureza a capacidade ou potencial inerente de gerar todas as qualidades positivas e qualquer coisa boa que seja imaginável. A diferença entre nossas mentes em diferentes épocas, e as mentes de diferentes pessoas depende da situação e o que está contido em suas mentes. Em nossas mentes nós temos ambas qualidades positivas, como amor e compaixão, e aquelas negativas, como aflições mentais e ignorância. É importante fazer uso da inteligência inerente da sua mente para examinar cuidadosamente tudo o que você tem que lidar, a forma que você examina as substâncias determina se elas são remédio ou veneno. Tendo examinados tais substâncias, você aceita o remédio e rejeita o veneno. Quando em contato com o Dharma, você examina-o em detalhe e com grande cuidado, e então, assim como você determinaria um remédio útil e não venenoso, pouco a pouco você irá confiar naqueles aspectos do Dharma que você tem provado a si mesmo serem válidos. Isto não só lhe dá confiança no Dharma, isso também exercita e desenvolve a inteligência com que você pode analisar o Dharma.

Tendo feito isso, você pode praticar, e a prática é baseada na fé ou confiança que você desenvolveu no Dharma. Esta confiança é baseada na inteligência e aplicação, e é diferente do confiança inocente ou ingênua de uma criança, que é baseado em ausência de experiência. Ela não é baseada em qualquer exame e não há certeza da sua profundidade. Tentar manter uma fé ingênua sem exame conduzirá ao fracasso, porque a confiança de uma criança irá mudar; enquanto que a confiança que é desenvolvida com base em sua própria validação do Dharma através de seu próprio raciocínio não irá alterar, porque foi provado. Assim, a forma de lidar com sua situação é simplesmente ouvir e contemplar o Dharma e se empenhar no processo de estudo e análise.

P: Um dos desvios que você mencionou ontem era que se você não põe imediatamente em prática sua compreensão do Dharma, seu desejo de usá-lo se tornará menor e menor e sua inspiração se torna entediada e cansada. Se isso acontecer, como alguém reacende a inspiração? Mais especificamente, quando eu me refugiei pela primeira vez, os quatro pensamentos—o precioso nascimento humano, impermanência, carma e samsara—foram motivações muito inspiradoras e fortes para mim mas agora, de alguma forma eles não me dão a mesma inspiração.

R: A solução ao se tornar fatigado em relação ao Dharma é examinar a si mesmo com honestidade. A coisa mais importante é olhar para sua própria mente e examinar sua própria situação, porque se você vê que está se tornando indiferente ou insensível ao Dharma, então o reconhecimento disso irá conduzir à remoção do defeito. Por exemplo, se você está andando em algum lugar e de repente você vê na sua frente um abismo ou um incêndio no qual você pode cair, apenas vê-lo irá fazer você dar um passo atrás e evita-lo.

P: Minha mulher e outras pessoas que eu encontrei recentemente tem sérias reservas em relação a participar de ritual e puja. Eles podem estar dispostos a (em) ouvir os ensinamentos, ter vontade de meditar, mas não estão interessados em puja ou ritual. Como posso lidar com essa situação, e qual é o propósito do ritual e puja no Budismo?

R: É muito bom quando alguém, por exemplo, sua esposa, gosta de escutar ensinamentos e gosta de meditar. A única razão de alguém gostar dessas coisas e não gostar de ritual e práticas que fazem uso de diferentes tipos de elementos é que eles não veem nenhum objetivo nisso. Eles não entendem quais são os benefícios de tais coisas, e então, claro, não tem respeito por eles e apenas pensam, "Qual é o propósito de todo aquele ritual?".

A razão dessas práticas é que o que quer que façamos no mundo, qualquer transgressão e virtude que nós efetuamos, nós fazemos com o corpo, fala e mente. Nós fazemos coisas, dizemos coisas, e pensamos coisas. Especialmente, temos incorrido em transgressões físicas, transgressões verbais e transgressões mentais por um período de tempo que não tem princípio. Para reverter essa tendência habitual e remover o obscurecimento dessas ações, é necessário cultivar virtude com as mesmas três faculdades: com o corpo, com a fala e com a mente. Por exemplo, nós cultivamos virtude com o corpo efetuando circum-ambulação e prosternações, com a fala pela recitação de mantras e súplicas, e com a mente pelo cultivo de bondade amorosa, compaixão e assim por diante.

Se você quer chegar a um lugar você efetivamente precisa andar, o que envolve usar suas pernas; você não pode apenas sentar e imaginar. Da mesma forma, na prática você tem que fazer uso de cada aspecto de si mesmo. No entanto, mesmo que alguém possa não apreciar o valor do ritual e práticas que fazem uso de elementos físicos e verbais, é ainda muito bom que eles estejam abertos a ideias e conceitos do Dharma e prática de meditação.

 

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20. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 18 - As 10 coisas que causam a própria infelicidade (Parte 1)

gampopaAS INSTRUÇÕES DE GAMPOPA
A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS 10 COISAS QUE CAUSAM A PRÓPRIA INFELICIDADE

08/10/2017 - As 10 coisas que causam a própria infelicidade Play Download

 O texto

1. Estabelecendo um lar sem ter os meios de subsistência, semelhante ao idiota que toma veneno, causa-se a própria infelicidade.

2. Se, esquecido do Dharma, cometem-se atos nocivos, tal como o louco que se precipita num abismo, causa-se a própria infelicidade.

3- Enganando o próximo, causa-se a própria infelicidade como se sentasse para um festim envenenado.

4- O desmiolado que tenta guiar um grande número de pessoas causa a própria infelicidade, como uma velha cuidando do rebanho.

5- Se, sem desenvolver a nobre preocupação com o bem alheio, pleno de tendências profanas, esforça-se em obter uma felicidade egoísta, é como uma pessoa vagando pelas estepes do Norte e causa-se a própria infelicidade.

6- Ao empreender tarefas irrealizáveis causa-se a própria infelicidade como uma pessoa fraca tentando carregar um fardo pesado demais.

7- Desconsiderar com orgulho o Santo Lama e os ensinamentos do Vitorioso é como o poderoso que negligencia os conselhos de seus conselheiros e causa a própria infelicidade.

8- Demorando-se nas cidades e postergando, por interesse pelas atividades mundanas, a prática do Dharma, causa-se a própria infelicidade, como o animal selvagem que desce aos vales (arriscando ser perseguido e morto).

9- Se, negligenciando a preservação do conhecimento primordial da mente, deixa-se levar pelo espetáculo do mundo condicionado, causa-se a própria infelicidade.

10- Ao utilizar indevidamente as oferendas feitas ao Lama e às Três (Joias) Raras e Sublimes, causa-se a própria infelicidade, como a criança que leva brasa à boca.

AS DEZ COISAS QUE CAUSAM A PRÓPRIA INFELICIDADE - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

A seguir estão as dez coisas pelas quais se causa a própria infelicidade. A primeira delas é quando um praticante de Dharma solteiro casa-se e então descobre que não há oportunidade para praticar por causa das responsabilidades que vem com isso, como criar filho e assim por diante. Tal situação de vida, em vez de ser um apoio para a prática, torna-se um obstáculo para a prática do Dharma e uma fonte de renascimento nos reinos inferiores. Isto é similar a uma pessoa tola comendo um forte veneno porque ele ou ela gosta da cor ou do aroma dele.

A segunda situação pela qual se causa a própria infelicidade é quando alguém obteve a existência humana com a oportunidade de praticar o Dharma, e então não pratica mas se empenha em transgressões. É como uma pessoa insana saltando de um penhasco. Insanidade aqui é uma metáfora para a situação de não praticar o Dharma quando você tem a oportunidade de fazê-lo, e saltando de um penhasco é uma metáfora para se ocupar em transgressões.

A terceira coisa pela qual se causa a própria infelicidade é violar seus votos e samaya, e então sabendo disso se torna um charlatão que engana outros e finge ser um professor genuíno. É como comer comida envenenada, que pode aliviar a fome temporariamente, mas também causa a morte. Da mesma forma, você pode enganar outros, pensando que a curto prazo isto será de grande ajuda, mas a longo prazo, você somente causará sua própria infelicidade.

A quarta situação é para alguém de pouca inteligência se tornar o diretor de uma comunidade monástica ou secular. É como forçar uma pessoa muito velha que mal pode se mover a cuidar do rebanho. Esta situação refere-se a alguém sem a habilidade de dirigir uma organização ou comunidade de forma benéfica e habilidosa.

A quinta coisa pela qual se causa a própria infelicidade é não ser diligente em realizar benefício para outros através de uma excelente motivação, mas em vez disso, esforçar-se na realização de seus próprios objetivos pela motivação das oitos coisas do mundo – desejo por elogio e ganho e assim por diante. É como uma pessoa cega vagando em um lugar selvagem ou num vasto deserto. Não se empenhando naquilo que beneficia outros com uma boa motivação, você não tem oportunidade de acumular mérito. Sabendo disso, se engajando naquilo que pareceria beneficiar você mesmo com ganho, vantagem, elogio e assim por diante como sua motivação, você não realizará nenhum benefício para si você mesmo nesta vida, e você acumulará a causa para enorme sofrimento em vidas futuras. De forma similar, uma pessoa cega que é colocada no meio do deserto ou de um local selvagem não tem como encontrar seu destino.

Sexto, ao assumir um grande e difícil esforço o qual você não tem como realizar, e se comprometer com isso, é causa de sua própria infelicidade. É como uma pessoa muito fraca tentando carregar um fardo muito pesado.

Sétimo, desconsiderar com arrogância as instruções ou conselho de um professor autêntico e as instruções registradas e recomendações do Buda é causar a própria infelicidade. É como um poderoso líder não escutando seus sábios conselheiros. Como uma ilustração disso, há um longo tempo atrás havia um monastério em especial no Tibete oriental, em Kham. Na mesma região do monastério havia um poderoso nobre que não estava particularmente associado com o monastério de nenhuma forma. Ele estava tendo uma disputa com o governo imperial chinês e eles estavam se preparando para invadir seu território. O monastério era bastante poderoso na região, então esse lorde suplicou para seus líderes e disse, "Você me apoiará na minha contenda com o governo imperial?". O conselho monástico discutiu este pedido, e a maioria dos membros disseram, "Não, nós não devemos nos envolver nessa briga. Não é da nossa conta." Mas um poderoso e franco membro do conselho monástico disse, " Nós devemos ajudar esse nobre porque se ele vencer ele ficará em débito conosco. Nós poderemos espalhar nossa influência no território dele e ele ficará submetido a nós." Ele era tão forte em seu argumento que eles ficaram seduzidos por eles e apoiaram o nobre. Conforme aconteceu, os Chineses venceram, e eles destruíram não só o território do nobre mas o monastério também, porque o monastério o apoiou. Essa é uma ilustração de tempos atrás desse tipo de situação.

A oitava forma de causar sua própria infelicidade é se, tendo estudado e contemplado o Dharma, você não o pratica, mas ao invés procrastina e vagueia entre as habitações das pessoas. É como um animal selvagem que não permanece nas montanhas onde é seguro, mas vagueia em regiões de humanos e, portanto, será morto.

Nona, tendo recebido do seu professor uma introdução ou sido apontado acerca do conhecimento natural, não nutrir isso pela prática, mas ser desviado pela elaboração de distração, é causar sua própria infelicidade. É como ser um pássaro com uma asa quebrada. Assim como um pássaro com uma asa quebrada ainda possui asas, você ainda terá recebido a introdução, o apontamento, mas o poder disso terá sido quebrado pelo seu próprio envolvimento em distração.

Décimo, consumir descuidadamente as posses e riqueza de seu guru e das Três Joias causará sua própria infelicidade. É como uma pequena criança que vê uma brasa ardente ao fogo e, atraída pela cor vermelha, agarra-a e coloca-a em sua boca. Significa tomar coisas que são oferecidas para auxiliar professores e a comunidade monástica, e consumi-las por motivo de prazer e luxo.

Estas são as dez coisas que causam a própria infelicidade.

10. Se não se tem fé e respeito é inútil permanecer, ainda que por muito tempo, ao lado de um mestre espiritual, porque as qualidades de sua superioridade e a sua influência espiritual não poderão ser transmitidas.


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21. Gampopa - A Preciosa Guirlanda 18 - As 10 coisas que causam a própria infelicidade (Parte 2)

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A GUIRLANDA PRECIOSA DO CAMINHO SUPREMO
AS 10 COISAS QUE CAUSAM A PRÓPRIA INFELICIDADE

05/11/2017 - As 10 coisas que causam a própria infelicidade - Parte 2 Play Download

 O texto

1. Estabelecendo um lar sem ter os meios de subsistência, semelhante ao idiota que toma veneno, causa-se a própria infelicidade.

2. Se, esquecido do Dharma, cometem-se atos nocivos, tal como o louco que se precipita num abismo, causa-se a própria infelicidade.

3- Enganando o próximo, causa-se a própria infelicidade como se sentasse para um festim envenenado.

4- O desmiolado que tenta guiar um grande número de pessoas causa a própria infelicidade, como uma velha cuidando do rebanho.

5- Se, sem desenvolver a nobre preocupação com o bem alheio, pleno de tendências profanas, esforça-se em obter uma felicidade egoísta, é como uma pessoa vagando pelas estepes do Norte e causa-se a própria infelicidade.

6- Ao empreender tarefas irrealizáveis causa-se a própria infelicidade como uma pessoa fraca tentando carregar um fardo pesado demais.

7- Desconsiderar com orgulho o Santo Lama e os ensinamentos do Vitorioso é como o poderoso que negligencia os conselhos de seus conselheiros e causa a própria infelicidade.

8- Demorando-se nas cidades e postergando, por interesse pelas atividades mundanas, a prática do Dharma, causa-se a própria infelicidade, como o animal selvagem que desce aos vales (arriscando ser perseguido e morto).

9- Se, negligenciando a preservação do conhecimento primordial da mente, deixa-se levar pelo espetáculo do mundo condicionado, causa-se a própria infelicidade.

10- Ao utilizar indevidamente as oferendas feitas ao Lama e às Três (Joias) Raras e Sublimes, causa-se a própria infelicidade, como a criança que leva brasa à boca.

AS DEZ COISAS QUE CAUSAM A PRÓPRIA INFELICIDADE - COMENTÁRIOS DE KHENPO KARTHAR RIMPOCHE

A seguir estão as dez coisas pelas quais se causa a própria infelicidade. A primeira delas é quando um praticante de Dharma solteiro casa-se e então descobre que não há oportunidade para praticar por causa das responsabilidades que vem com isso, como criar filho e assim por diante. Tal situação de vida, em vez de ser um apoio para a prática, torna-se um obstáculo para a prática do Dharma e uma fonte de renascimento nos reinos inferiores. Isto é similar a uma pessoa tola comendo um forte veneno porque ele ou ela gosta da cor ou do aroma dele.

A segunda situação pela qual se causa a própria infelicidade é quando alguém obteve a existência humana com a oportunidade de praticar o Dharma, e então não pratica mas se empenha em transgressões. É como uma pessoa insana saltando de um penhasco. Insanidade aqui é uma metáfora para a situação de não praticar o Dharma quando você tem a oportunidade de fazê-lo, e saltando de um penhasco é uma metáfora para se ocupar em transgressões.

A terceira coisa pela qual se causa a própria infelicidade é violar seus votos e samaya, e então sabendo disso se torna um charlatão que engana outros e finge ser um professor genuíno. É como comer comida envenenada, que pode aliviar a fome temporariamente, mas também causa a morte. Da mesma forma, você pode enganar outros, pensando que a curto prazo isto será de grande ajuda, mas a longo prazo, você somente causará sua própria infelicidade.

A quarta situação é para alguém de pouca inteligência se tornar o diretor de uma comunidade monástica ou secular. É como forçar uma pessoa muito velha que mal pode se mover a cuidar do rebanho. Esta situação refere-se a alguém sem a habilidade de dirigir uma organização ou comunidade de forma benéfica e habilidosa.

A quinta coisa pela qual se causa a própria infelicidade é não ser diligente em realizar benefício para outros através de uma excelente motivação, mas em vez disso, esforçar-se na realização de seus próprios objetivos pela motivação das oitos coisas do mundo – desejo por elogio e ganho e assim por diante. É como uma pessoa cega vagando em um lugar selvagem ou num vasto deserto. Não se empenhando naquilo que beneficia outros com uma boa motivação, você não tem oportunidade de acumular mérito. Sabendo disso, se engajando naquilo que pareceria beneficiar você mesmo com ganho, vantagem, elogio e assim por diante como sua motivação, você não realizará nenhum benefício para si você mesmo nesta vida, e você acumulará a causa para enorme sofrimento em vidas futuras. De forma similar, uma pessoa cega que é colocada no meio do deserto ou de um local selvagem não tem como encontrar seu destino.

Sexto, ao assumir um grande e difícil esforço o qual você não tem como realizar, e se comprometer com isso, é causa de sua própria infelicidade. É como uma pessoa muito fraca tentando carregar um fardo muito pesado.

Sétimo, desconsiderar com arrogância as instruções ou conselho de um professor autêntico e as instruções registradas e recomendações do Buda é causar a própria infelicidade. É como um poderoso líder não escutando seus sábios conselheiros. Como uma ilustração disso, há um longo tempo atrás havia um monastério em especial no Tibete oriental, em Kham. Na mesma região do monastério havia um poderoso nobre que não estava particularmente associado com o monastério de nenhuma forma. Ele estava tendo uma disputa com o governo imperial chinês e eles estavam se preparando para invadir seu território. O monastério era bastante poderoso na região, então esse lorde suplicou para seus líderes e disse, "Você me apoiará na minha contenda com o governo imperial?". O conselho monástico discutiu este pedido, e a maioria dos membros disseram, "Não, nós não devemos nos envolver nessa briga. Não é da nossa conta." Mas um poderoso e franco membro do conselho monástico disse, " Nós devemos ajudar esse nobre porque se ele vencer ele ficará em débito conosco. Nós poderemos espalhar nossa influência no território dele e ele ficará submetido a nós." Ele era tão forte em seu argumento que eles ficaram seduzidos por eles e apoiaram o nobre. Conforme aconteceu, os Chineses venceram, e eles destruíram não só o território do nobre mas o monastério também, porque o monastério o apoiou. Essa é uma ilustração de tempos atrás desse tipo de situação.

A oitava forma de causar sua própria infelicidade é se, tendo estudado e contemplado o Dharma, você não o pratica, mas ao invés procrastina e vagueia entre as habitações das pessoas. É como um animal selvagem que não permanece nas montanhas onde é seguro, mas vagueia em regiões de humanos e, portanto, será morto.

Nona, tendo recebido do seu professor uma introdução ou sido apontado acerca do conhecimento natural, não nutrir isso pela prática, mas ser desviado pela elaboração de distração, é causar sua própria infelicidade. É como ser um pássaro com uma asa quebrada. Assim como um pássaro com uma asa quebrada ainda possui asas, você ainda terá recebido a introdução, o apontamento, mas o poder disso terá sido quebrado pelo seu próprio envolvimento em distração.

Décimo, consumir descuidadamente as posses e riqueza de seu guru e das Três Joias causará sua própria infelicidade. É como uma pequena criança que vê uma brasa ardente ao fogo e, atraída pela cor vermelha, agarra-a e coloca-a em sua boca. Significa tomar coisas que são oferecidas para auxiliar professores e a comunidade monástica, e consumi-las por motivo de prazer e luxo.

Estas são as dez coisas que causam a própria infelicidade.

10. Se não se tem fé e respeito é inútil permanecer, ainda que por muito tempo, ao lado de um mestre espiritual, porque as qualidades de sua superioridade e a sua influência espiritual não poderão ser transmitidas.


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