Fundamentos Modernos da Psicologia Budista

Qual é a natureza do eu ou da mente?

O eu não tem existência concreta e permanente.

Segundo a psicologia budista o eu não tem uma existência de natureza concreta e permanente. Ele é o resultado da interação temporária de diferentes fatores. Na terminologia budista tradicional se fala da “não existência de um ego indivisível e permanente.” A pessoa é descrita como constituída de um conjunto de componentes chamado os 5 agregados.

Comentário de introdução:

I ‐ Constituição e modo de funcionamento do eu

A) Delimitação do assunto: Quem sou eu?

1) O sentimento do eu em primeiro lugar é associado ao corpo.  Este é fácil de identificar e localizar. Sua origem, seu crescimento, seu funcionamento, suas transformações, ao decorrer do tempo e das circunstâncias, até o seu declínio e desaparecimento são bem conhecidos.

2) Em segundo lugar,  é também associado a uma experiência subjetiva percebida como estados e processos mentais estritamente associados a diferentes processos físicos.

Aqui são examinados unicamente os aspectos mentais.

B) Conhecimento/Consciência/Experiência

No vocabulário do budismo tibetano, o significado da palavra Shépa   “conhecer” não se limita a “saber”, no sentido de dispor de informações, mas serve também de raiz para as   palavras  associadas  à  “consciência”.  Falamos  assim  de  “consciência  visual”  de “consciência mental” e etc.

Essa palavra também é associada a “experimentar”, no sentido de compreender pela experiência. No contexto de algumas praticas meditativas realizar é igual a reconhecer.

Assim conhecer pode significar: saber, entender, ser consciente de, perceber e experimentar. Esses tipos de conhecimentos são acessíveis mediante diferentes meios ou processos.

C) Meios e modos de Conhecimento:

O que sabemos? E como sabemos?

Quais são os nossos instrumentos ou meios de conhecimento e como eles funcionam?

1) A percepção sensorial

A percepção sensorial baseada no corpo se efetua graças aos diferentes canais sensoriais que são: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o toque. Um órgão serve de suporte a cada faculdade;   permitindo perceber seu objeto no campo sensorial que lhe é próprio. Assim o olho permite de perceber as formas no campo visual. O sistema auditivo permite perceber os sons no domínio audível, e etc. Considera‐se que a mente também tem por base um órgão, seus objetos são os fenômenos mentais e seu domínio o que pode ser conhecido.

2) As diferentes faculdades que compõe a mente e seus funcionamentos:

a)   Processo   Conceitual:   Consiste   em   raciocínios   (associação   de   idéias)   e imaginação  (criação  de  imagens  mentais)  que  são  elaboradas  na  base  de percepções ou de informações adquiridas e guardadas na memória. Os dados são tratados mediante processos reflexivos, analíticos, combinados à imaginação e associados a uma participação afetiva.

b) Afetividade: A sensibilidade afetiva permite reconhecer instintivamente as emoções universais (medo, vergonha, surpresa, desgosto, agressão, prazer e dor). A percepção de um estado afetivo em outra pessoa ativa um processo mimético que simula em si  a experiência do outro que assim é parcialmente compartilhada e compreendida.

c) Percepção Intuitiva: é uma compreensão espontânea, instantânea, que não é resultado de um processo conceitual elaborado. A percepção intuitiva pressupõe uma ausência de preconceitos, uma disponibilidade que torna possível uma nova descoberta. Ela necessita também  uma certa coragem para reconhecer o que ela revela; uma vez que uma nova descoberta pode questionar o que está considerado como estabelecido. Primeiro aparece como uma percepção e pode, em seguida, ser formulada em termos conceituais ou simbólicos.

D) Critérios empíricos de validação dos conhecimentos adquiridos

∙ A complementaridade e a não contradição: uma fonte completa a outra ( ex: ver um pássaro e ouvir seu canto);

∙ Integração: uma perspectiva mais vasta pode incluir uma mais limitada (ex: ver um rio do alto de uma ponte ou do alto de uma montanha);

∙ A possibilidade de reproduzir e verificar a afirmação;

∙ A possibilidade de fazer predições verificáveis pela aplicação de suas afirmações.

E) Origem e Interação dos meios e modos de conhecimento

Os diferentes processos cognitivos se apoiam em estruturas biológicas e funcionam como meios de conhecimento que interagem.

Parcialmente determinados pela genética, suas formações e seus funcionamentos são amplamente influenciados por modelos recebidos pela educação e transmitidos pelo meio social.   Depois   são   consolidados,   ampliados   ou   modificados   por   treinamentos   e experiências pessoais.

Dependendo das condições, algumas funções e capacidades cognitivas podem ser desenvolvidas ou atrofiadas. Segundo essas condições, uma ou outra dessas funções pode prevalecer sobre a outra, por pouco ou mais tempo.   Geralmente, elas se sobrepõe, se combinam, e se completam umas com as outras para produzir uma experiência mental global. Essa constrói representações (de si e do que é experimentado) em um certo momento.

E assim nossa mente é considerada como um composto de diferentes elementos e de processos que tem interações em constante mudança.

Portanto, a questão pertinente não é ”aonde está a mente?” uma vez que não se trata de um objeto imutável.

Mas sim: “Como funcionam os diferentes elementos que a compõe?”. E a próxima pergunta seria:

“Como os elementos que compõe a mente passaram a funcionar de determinada maneira?”

Especialmente: “eles podem funcionar de uma outra maneira?” e

“Quais são os meios para modificar seus modos de funcionamento? ”

“é a constituição, o modo de funcionamento e a interação dos elementos que compõem a nossa mente que determinam o que somos.”

Exemplos:

‐Uma música tocada por diferentes membros de uma orquestra;

‐As diferentes peças de um mosaico ou vitral, que se combinam para formar uma imagem.

A   combinação   organizada   das   diferentes   partes   produz   algo   mais   que   o   mero agrupamento das partes.

Definição:

O que nós somos em um determinado momento é o que nos tornamos no final de um longo processo de sucessão de eventos.
É a combinação e interação de diferentes estruturas ou elementos, em diferentes estágios de desenvolvimento, e em diferentes modos de funcionamento e diferentes relações.

“É a maneira como nós funcionamos que determina o que somos!”

 

F) Elaboração e Transformação das representações

Relacionamos‐nos com as situações a partir das nossas elaborações mentais. As diversas situações em que nos encontramos são suportes de percepções que produzem experiências. Essas suscitam reações cognitivas, que se exprimem em palavras e comportamentos. Essas combinações modificam a situação, ou o tipo de relação que nós estabelecemos com elas.

As novas situações, por sua vez, produzem novas percepções, novos processos mentais e etc., que transformam o modo de funcionar da mente. Essa produz uma nova representação mental que vai interagir com a situação que produz uma nova reação.

As representações mentais surgem da capacidade de reunir, guardar na memória, analisar diferentes informações e então extrair uma compreensão dos fenômenos e das leis que os regem.

As possibilidades de aplicação das representações mentais e seus limites são delimitados pelos recursos cognitivos da pessoa em um certo momento.

Os recursos de conhecimento podem ser amplamente desenvolvidos graças a capacidade de focalizar a atenção e de harmonizar os diferentes elementos que compõe a mente.

Todas   essas   capacidades   foram   adquiridas   e   desenvolvidas   mediante   o aprendizado e treinamento, podendo ser transformadas pelos mesmos.

G) Fundamentos Biológicos da Experiência Psicológica

‐ Convergentes entre a neurobiologia e a psicologia budista ‐

1) O que é experimentado como “mente” é composto de diferentes estruturas em interações mutáveis.

2) O funcionamento dessas estruturas é resultante de seus modos de desenvolvimento e de como são utilizados.

3) Os funcionamentos das diferentes estruturas interagem e se combinam.

Ex: o funcionamento afetivo influência o raciocínio e o comportamento.

Por  outro  lado,  os  impulsos  instintivos  primitivos,  como  a  agressividade  ou  o  medo, podem ser moderados e transformados por funções cognitivas próprias do ser humano. Especialmente pela atenção voluntariamente orientada, o sentido da vida social, a capacidade de simulação e antecipação das conseqüências individuais e coletivas de um comportamento.


 

II ‐ A transformação do modo de funcionamento da mente

A) A possibilidade e a utilidade de uma transformação:

A mente aparece como um conjunto de funções e processos que interagem em constante mudança. Assim sua própria constituição e modo de funcionamento torna possível sua transformação. De fato a mente está em um estado de constante transformação; é a natureza e a orientação desta que pode ser modificada por uma melhor utilização dos meios de conhecimento.

O funcionamento mental que se torna habitual tem a tendência de repetir as mesmas sequencias comportamentais. Não obstante, a orientação de sua transformação pode ser conscientemente e voluntariamente re‐determinada conforme uma direção e um modelo escolhido. Meios hábeis de educação e de aprendizagem podem gerar esse resultado.

B) Treinamento da mente (Lojong)

Na perspectiva budista esse "Treinamento da mente / Lojong" tem por objetivo libertá‐la dos constrangimentos e sofrimento resultantes de um estado de confusão, no qual a mente é conduzida por paixões descontroladas, comportamentos estereotipados, e uma atitude egocêntrica que se exprime em atividades destrutivas.

Esse treinamento visa favorecer o desenvolvimento de um modo de funcionamento no qual prevalece o discernimento, a lucidez, uma compreensão correta dos fatos e de suas interações, o sentimento altruísta de benevolência e compaixão que se exprime em uma atividade construtiva.

Que consiste em:

Aquisição de novos conhecimentos, aplicação da reflexão, da análise, utilização da imaginação para estabelecer modelos como fontes de inspiração.

Desenvolvimento de sentimentos altruístas de benevolência e compaixão; a motivação de atingir o despertar para poder verdadeiramente beneficiar os outros.

Essa motivação se aplica pela prática de um conjunto de meios denominado as seis paramitas.


 III ‐ A Natureza essencial do “eu”

1) A meditação: Ela favorece o desenvolvimento da atenção, da sensibilidade, de uma percepção mais clara dos processos mentais que interagem em nós.  Ela desenvolve uma compreensão mais pertinente das implicações de nossas escolhas, de nossas palavras e nossos atos em interação com o meio.

Seu objetivo principal é de estabelecer a mente em um estado de claridade e de estabilidade.

2) O discernimento:   A partir do estado de meditação, com uma atenção lúcida e focalizada, pode se buscar qual é a natureza essencial da mente mediante os diferentes meios de conhecimento: percepção, sensibilidade afetiva e investigação analítica.

 

Então, se perguntando:

"Como é a mente? Qual é a sua natureza essencial?"

Se tiver encontrado uma resposta, o melhor é não deixá‐la passar!

 


 

Essa introdução é muito resumida. As informações detalhadas sobre os diversos assuntos podem ser obtidas em uma documentação facilmente acessíveli. Ele tem como objetivo único destacar e inter‐relacionar alguns pontos importantes e convergentes entre as descobertas da neurobiologia moderna e da psicologia budista do ponto de vista do ciclo de ensinamento do treinamento da mente Lojong, da meditação de estabilização da mente  Shiné, e do acesso a prajnaparamita pela “visão penetrante Lhagtong".

Sem  outra  pretensão  que  é  a  de  ajudar  a  dissipar  um  pouco  a  confusão  e  favorecer  uma  melhor compreensão,  contribuindo  assim  na  redução  dos  sofrimentos  inúteis  desenvolvendo  a  liberdade  e  a felicidade naturais.

Que a virtude cresça!
Lama Trinle

 


 

Referências

As Palavras de Meu Perfeito Professor ‐ Patrul Rinpoche

O Mahamudra que Dissipa a Escuridão da Ignorância ‐ IX Karmapa

O Precioso Ornamento da Liberação ‐ Gampopa Sonam Rinchen. O Treinamento da Mente em Sete Pontos

Os Fundamentos da Neurobiologia Moderna

Tags: Descobrindo o Budismo

 Imprimir  E-mail