Palden Shangpa La Boulaye, 23/11/2013 - Manhã

Eu revi Tai Situ e o Karmapa, eu ganhei peso e perdi um pouco de cabelo. Passei um ano sem dar ensinamentos (aos leigos).

Eu não consegui ir nem para a América do sul, nem para a Europa e eu lamento muito.

Eu me casei e estou muito feliz, vivendo com mais apego, ignorância e ciúmes.... (risos).

Espero que vocês tenham aprimorado a pratica de vocês. Eu só consigo vir uma vez por ano, mas tenho certeza que meus Lamas estão fazendo tudo que podem para ajudar vocês.

Seja o que for que vocês praticam e experimentam na pratica , é fácil de se sentir empolgado e na empolgação perdermos a pratica. Isto pode acontecer comigo e IIIIcom vocês.

Eu revi o Karmapa neste mês, antes de vir e foi muito bom. Ele perguntou como estava a minha mente. Eu disse que ela estava ok, que os últimos 2 anos não tinham sido bons, mas que agora ela estava ok. Eu disse a ele que indiferente do que eu tenha feito no passado, nunca foi contra ele e que eu o respeito. Foi um momento muito bonito.

O Tai Situ me lembrou de minhas responsabilidades e me encorajou no meu trabalho e me disse que eu era como um filho para ele. Eu queria compartilhar isto com vocês, pois fiquei muito tocado quando recebi as bênçãos e o encorajamento de ambos.

Não importa quantos anos e vezes nós praticamos, precisamos sempre rememorar a importância das três joias e da devoção. Mesmo quando não podemos ajudar os outros por agora, poderemos ajudar mais adiante.

Como eu não consegui viajar como previsto, eu ensinei durante 2 meses aos meus monges em Salugara e foi muito bonito interagir com eles. Eu tive a oportunidade de servi-los e de passar um tempo com eles.

Sabe, eu não tenho um diamante para dar a vocês. Eu não tenho o diamante do Dharma que eu possa passar a vocês. Cada praticante deve praticar, se focar, analisar seus pensamentos, ações e alcançar alguma estabilidade. Essa é a responsabilidade de vocês. Minha responsabilidade é de ensinar e a responsabilidade de vocês é de praticar.

A devoção é muito importante. Eu encontrei com o Tai Situ, depois de ter passado 2 anos e meio sem o ver. Eu tinha tido ensinamentos com ele em 2008, 2009. Mas testar nossa devoção é muito difícil. As vezes um professor testa sua devoção e é difícil, mas temos que reconhecer isto. E é difícil.

O ponto principal da devoção, mesmo parecendo ser o respeito ao nosso professor, ao Dharma, a linhagem … bom, tem de tudo isto também, mas o ponto principal da devoção não é apenas isto. É nos libertamos. Não é sobre ser gentil ao seu Guru, aos seus irmãos e irmãs do Dharma, à linhagem, à si mesmo, aos outros. Vocês precisam trazer o significado da devoção ao seus corações e se libertarem da vida samsarica.

Mesmo se estivermos num Centro, num Mosteiro, na melhor universidade budista, se tivermos o melhor Guru, sem devoção é inútil.

Quando se tem devoção, nos libertamos do mundo samsarico, estamos mais conscientes de nossos sentimentos, pensamentos, estamos mais desapegados. As vezes nós nos focamos em sermos legais, achar o despertar, ser um bom bodhisattva. Indiferente do que fizeram até aqui, eu peço a vocês que de agora em diante, vocês se focalizem no significado da devoção.

Queremos ser tão próximos ao budismo, dharma e nossas expectativas quanto à linhagem... O que precisamos não é o pacote inteiro do budismo, mas a libertação. Algumas pessoas se tornam dependentes do budismo, mas não é esta a idéia. O objetivo é analisar sua mente para ser liberto do sofrimento. A maior parte das pessoas pensa: “Eu pratico e em 10.000 anos vou alcançar o despertar” Não. Não é assim. Você precisa se libertar nesta vida.

Quando você se auto denomina praticante, você precisa proteger seu ambiente e isto é importante para a pratica. Ter um espaço para si mesmo. Quando se faz o retiro de 3 anos, você se da' este espaço e tempo. Eu não estou dizendo que todo mundo deve fazer o retiro, mas você precisa de paz e de espaço para praticar e analisar sua mente. “

Passemos agora às questões:

1) Você conseguiu mudar hábitos seus de um dia ao outro e estamos muito felizes por você. Mas como podemos ser pacientes quando as mudanças que queremos viver não são muito rápidas?

Eu sou muito ruim nisto. Eu passei 2 anos fazendo erros estúpidos, eu não sou um bom exemplo, ninguém quer estar próximo de mim, pessoas me evitam, pessoas se machucaram. Eu não sou uma boa pessoa para te ajudar nisto...

Minha vida as vezes é mais difícil que a sua e vice-versa, mas mudanças levam tempo e é difícil mesmo. Algumas pessoas precisam praticar mais e elas compreenderão depois. Algumas pessoas tem um experiência num dia e depois ela vai embora. Outros vão desenvolvendo isto cotidianamente. Não tem receita, sabe, é preciso ser paciente.

2) Como achar a devoção verdadeira e desenvolvê-la?

As vezes nossa devoção aumenta, as vezes diminui. Você pode tê-la e perdê-la.

É preciso ser paciente. É preciso ter menos orgulho, isto aumenta nossa chance de compreender o significado da devoção e ganhar estabilidade. Se perdemos em orgulho, ganhamos em sabedoria e então há uma sequência: devoção- sabedoria e compaixão afluem, aumentando nosso amor e bondade para com os outros, o Dharma emana de você.

A honestidade, mesmo fora do Dharma é importante. Sem honestidade, o Dharma não é nada. Sem honestidade e sinceridade, mesmo se você pratica todos os dias, o Dharma não é nada. Abertura, respeito e honestidade.

Quando eu ensino, sou muito honesto (algumas pessoas não gostam/não aguentam isto), mas eu preciso ser honesto, contar meus erros. As vezes ensino 1h30 e me foco em ser totalmente honesto. As vezes é o máximo que eu consigo de ser honesto integralmente no dia (risos). Sinceridade e honestidade são muito importantes para com sua família também. É mais importante que amor e compaixão.”

3) O quê a prática de Tchenrezig lhe trouxe de bom?

A prática de Tchenrezig me deu a oportunidade, a chance de compreender o budismo e os outros. A prática de Tchenrezig realmente me libertou. Quando se compreende o significado da compaixão, mesmo se você não está por aí no mundo ajudando outras pessoas, até para você é uma ajuda.

A prática de Tchenrezig é sobre a compaixão e a sabedoria combinadas. Primeiro é preciso se libertar e se ajudar (com compaixão) e depois você poderá ajudar outros. O mais importante da prática é este combinado de compaixão e sabedoria. Sempre lembre-se disto: sabedoria e compaixão. É um dos motivos principais pelo qual praticamos. Mas tendemos a esquecer disto quando estamos fazendo outras praticas.

4)Você disse que agora que se casou está experimentando apego, ciúmes, ignorância. Isto quer dizer que antes você não experimentava isto?

Oh... não... eu estava brincando... eu não fui totalmente honesto quando eu disse isto. Na tradição asiática, nós nos criticamos. Estamos sempre dizendo: sou ignorante, não sou um bom praticante. Nós não nos elogiamos, sempre dizemos que estamos cheio de defeitos bem negativos. Esta é a minha tradição, é assim que eu recebi ensinamentos e é assim que eu ensino também.

Quando estamos diante de um grande grupo é tão fácil de aumentar nosso orgulho. Os nikkeis também dizem: “Eu não tenho disciplina”. Mas isto é um estilo de ensino, o estilo asiático. Vocês não devem levar ao pé da letra.

No ocidente é o contrario. Os professores sobem no trono e dizem eu SOU um DOUTOR. Eu sou um GUIA ESPIRITUAL Eles se utilizam de títulos para se elogiarem e criarem autoridade. É um outro estilo. Não estou dizendo que é ruim, mas é um outro estilo. O meu é asiático.

Então não, eu estava brincando, eu não me casei e agora estou cheio de ignorância, apego e ciúmes. Eu me casei de modo muito consciênte e estou muito feliz.

5) Você poderia nos dizer mais sobre como a devoção te trouxe de volta ao caminho da pratica?

Eu não disse que a devoção te traz de volta ao caminho da prática. Você precisa trazer a si mesmo de volta para o caminho da prática.

O ponto principal é achar um bom professor, estar perto dele durante seus ensinamentos e depois manter a distância e praticar você mesmo.

6) Podemos chamar de “erros” as experiências que teve e que te trouxeram de volta ao caminho do Dharma? Eu não acho que sejam erros...

O passado está no passado, seja o que for, você não pode muda-lo. O futuro é o futuro, seja o que for que será, você ainda não está lá. Nós só podemos viver no presente. Não fique no passado. Esteja consciente do seu estado mental agora e mantenha-se motivado para se tornar alguém melhor.

Mesmo quando eu estou no aeroporto, no shopping, ou em qualquer lugar, eu me pergunto: “Como está o seu estado mental neste momento?” E eu me torno consciente dele e pratico esta vigilância e análise. Como um lembrete, pode ser apenas 1 ou 2 minutos.

O que eu fiz no passado, para mim são erros. Mas também podemos chamar “oportunidades”, mas isto não importa. O importante é estar no presente.”

7) Você pode nos falar de sua experiência de ignorância?

Eu vivo com minha ignorância, apego, inveja e ego todo dia. Todos nós vivemos com isto. Não importa o quanto praticamos. São coisas que fazem parte da vida humana. Mas é estar consciente que nos ajuda a suprimir isto. Os pensamentos e sentimentos estão lá, mas é a consciência deles que pode os suprimir. Estes pensamentos e sentimentos não desaparecem, mas estando consciente, não somos mais sujeito à eles.

Eu tive a experiência da ignorância não reconhecendo a qualidade de meu professor. Eu fui estúpido. Eu já contei isto para vocês, de quando era adolescente e me perguntava: “Quem é ele para me ensinar? Eu sou Kalu Rinpoche. Eu ensinei este cara na vida precedente. Quem ele acha que é para estar me ensinando?” Fui estúpido. Mas passo a passo, com prática, a ignorância diminui e devemos ser pacientes.”

Vamos parar por aqui, quero pedir desculpas...sei que o ensinamento foi meio descosturado nesta manhã. Estou enferrujado, não sabia bem o quê queria lhes dizer e estou com jet leg. Mas prometo que de tarde vai ser melhor...

Tags: II Kalu Rimpoche, Ensinamentos Transcritos

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