Palden Shangpa La Boulaye, 23/11/2013 - Tarde

Eu queria falar com vocês sobre os pensamentos e emoções perturbadoras. Desde que somos pequenos, estamos todos sob a influência deles. Podemos nos perguntar: Será que o que estou pensando é verdade? Será que estou correto? Será que compreendi bem?

É preciso realmente escutar seu Lama Raiz. É preciso pedir ajuda a ele e não somente aos Dakas e Dakinis. Estes pensamentos e sentimentos não desaparecem de um dia para o outro, mas paulatinamente.

Sabe, tem uns novos centros budistas, tem um budismo que parece mais moderno. As pessoas vão lá e acham que o pessoal é chique, é “bacana”, os Centros parecem funcionar bem...Isto é apenas a aparência externa. O que pode nos ajudar é encontrar nosso Lama Raiz, encontrar o bom mestre.

Para aqueles que vivem nos Centros, é preciso respeitar os Lamas, não escutar quem está falando mal deles.

Quando temos pensamentos negativos, pensamentos ruins é preciso se perguntar: “Por que estamos tendo estes pensamentos?” É preciso analisa-los e praticar. Praticar e analisar. Não é só analisar ao infinito. É preciso analisar e praticar...

É preciso desenvolvermos a sabedoria ordinária. Não a sabedoria mística do Dharma. Comecemos pela sabedoria ordinária.

Há inúmeras práticas, mas pratique apenas de 1 a 3 práticas ao máximo. É importante praticar nos centros, mas é ainda mais importante de voltar para casa e praticar em casa e analisar.

Nossa mente está sempre lotada de pensamentos. Mesmo aqui, estamos tendo pensamentos negativos e positivos. Estamos pensando que tal pessoa tem uma cara esquisita, que nos sentimos bem no templo, que isto ou que aquilo. Mas é importante de pacificar a mente. Lembrar-se que os pensamentos não são reais, são ilusões. Podemos perceber isto e deixar os pensamentos irem embora. Depois, eles voltam e fazemos isto de novo.

Podemos sempre parar 1 ou 2 minutos e perceber que tudo é ilusão. É importante se acalmar. Fazer esta experiência algumas vezes por dia.

Existem todos os tipos de emoções: a raiva, o apego, a inveja. Eles não são negativos em si mesmos, mas é preciso os reconhecer quando surgem e não lhes dar importância. O que é importante de analisar é o seguinte: “Ei! Estou com raiva. Por quê? O que me deixou neste estado de raiva?” E em seguida, se dizer que não é real e deixar esta emoção desaparecer.

Temos um nome para quase cada tipo de emoção, mas o fato de terem um nome, não faz delas algo real. Elas não são concretas. A raiva não é um triângulo vermelho de tal textura.

Podemos ter emoções, mas não precisamos viver na prisão das emoções. Podemos deixar as emoções virem, as analisamos e as deixarmos partir.

Analisar e deixar partir.

Quando temos uma emoção negativa e nos deixamos levar, depois lamentamos. Lamentamos ter dito tal coisa, ter feito tal coisa. É preciso aprendermos a viver numa outra energia.

As pessoas acham que o samsara é exterior. Não. Nós fabricamos o samsara, nós somos o samsara. Não é algo exterior.

É preciso parar de deixar nossa mente vagabundar. É preciso dominar a mente, apreender a mente e sair do negativo e ir ao positivo. Pouco a pouco podemos viver esta transformação.

O Estado de Buda é uma transformação interior, não é algo exterior a ser alcançado.

Podemos nos distrair exteriormente, sem nos distrairmos interiormente. Isto fazemos na vida real. Não precisamos ser monges para fazer isto.

Eu por exemplo, desde pequeno, tenho toda uma miríade de emoções. Não existe diferença entre mim e vocês. É graças a isto que eu posso analisar as práticas. Eu percebo a diferença quando eu pratico e quando eu não pratico... quando pratico, tenho mais controle, tenho mais emoções positivas e menos negativas. Sem prática, minha visão se torna limitada, sob o jugo de emoções negativas. Isto nos desgasta e cansa. Com a prática temos uma visão mais vasta e tenho mais emoções positivas. Com a pratica, aprendemos a controlar nossa mente e nos sentimos melhores.

Os ensinamentos de Buda falam da mente e isto nos ensina muito. Sabe a diferença entre hoje e 2000 anos atrás? A tecnologia. Hoje temos eletricidade, água encanada, internet, um bando de coisas legais. Mas nós ainda sentimos raiva, apego, inveja. Isto não mudou. A tecnologia é legal e tudo, mas ela não nos traz nada para lidar com as emoções.

Mas é preciso também a devoção. Vocês vem a um ensinamento de um grande Lama e saem daqui entusiastas. Mas é preciso analisar e praticar.

Eu fui reconhecido como Kalu Rinpoche, mas eu precisei estudar, praticar, fazer o retiro de 3 anos para tentar me melhorar. Mas não é apenas vir aqui, meditar ou ler que nos fará alcançar o despertar. Alcançamos o despertar quando praticamos. E quando praticamos com honestidade e sinceridade. Não é apenas ir aos centros, ficar lendo ou meditando em grupo. Tudo isto é bom, mas não é o suficiente. A motivação é importante, é preciso que ela seja pura e sincera, algo que vem do coração. Não é algo por obrigação.

Quando somos motivados e temos uma devoção ao Lama, recebemos suas bênçãos. Recebemos estas bênçãos somente quando temos estas características. Quando estamos muito próximo ao Lama, a gente começa a criticá-lo...isto não é bom.

A relação entre mestre e discípulo deve ser ao mesmo tempo próxima e distante. Mas não muito próxima...o discípulo deve mostrar ao seu Lama o que ele fez nas suas praticas. Devemos manter este vinculo com o Lama, mas sem apego. O que precisamos são os ensinamentos do Lama e não que ele esteja lá fisicamente.

Quando ganhamos o gosto pelo Dharma, as coisas vem naturalmente. Enquanto não sentir isto verdadeiramente, é algo abstrato e uma obrigação. Quando se tem o gosto, você vai querer praticar toda sua vida. Podemos praticar porque é bom para isto ou aquilo (bom para o kharma, bom para purificar), mas de algum modo ainda não se tem o gosto do significado do Dharma. E a pratica se torna seca. Acreditar não é o suficiente. Você precisa apreciar (gostar). É um pouco como a TV, quando você aprecia, você fica assistindo mais tempo que imaginava. E você quer continuar e se manter nisto. Não como um viciado, mas com esta apreciação.

O quanto mais praticamos, mais temos vontade de ajudar os outros. Não vamos alcançar o despertar imediatamente, mas podemos ter um gostinho dele, o experimentar e quando o experimentamos, tomamos consciência de não acumular atos negativos e acumular os atos positivos. Mas não fazemos isto porque “é bom”, mas porque experimentamos um pouco do despertar. É preciso ter a motivação para a prática, ter o gosto e querer praticar. Os obstáculos diminuirão naturalmente, mas não devemos nos desencorajar quando surgirem obstáculos. É preciso manter em mente a sabedoria ordinária. Tome o seu tempo para analisar. Deve-se ter um tipo de paixão pela pratica e aprecia-la.

Muita gente pratica porque não querem mais estar no samsara ou querem alcançar o despertar. Mas então o objetivo se torna alto demais e o caminho do meio parece chato. Mas o que é preciso é ter esta paixão, esta energia e devoção. Ter fé no Dharma e fé de que ele funciona. Porque o objetivo é muito alto, mas fazemos muito pouco. Não temos energia, não temos paixão. As pessoas fazem as coisas por obrigação, como se estivessem na faculdade. Este não é o jeito que o budismo funciona. Tem gente que faz seminários e depois dizem: “Eu tenho que fazer isto, aquilo, tenho que fazer tanto disto, tanto daquilo”, mas não há nenhuma paixão. O Dharma vem com a paixão, com a devoção. Não por obrigação. Tem gente que lê e diz: “Isto é interessante”. Aí você analisa e faz sua leitura do seu próprio jeitinho, mas isto não te leva a nada. Não importa se você pratica do jeito antigo, ou de um jeito mais moderno – sem paixão, você não vai a lugar algum.

De todo jeito, não há nenhum outro caminho que não passe pela prática. É verdade, se tivesse, se tivesse um atalho, nós diríamos a vocês. Mas isto não quer dizer que você precisa viver 20 anos de paixão. Mas esteja focado e aprecie cada pratica. É como ouvir musica, você não precisa ser totalmente tomado por ela o tempo todo para aprecia-la. Depois de passar um tempo praticando deste modo, esteja feliz, observe sua mente e veja como ela mudou, começamos a encontrar nossa natureza de Buda. Até eu mesmo, eu não tinha no inicio esta energia e paixão. Foi fazendo a prática de Tchenrezig que ela veio até mim. Sejam menos orgulhosos e o conhecimento surgirá naturalmente na mente. Na nossa crença, acreditamos na compaixão. A primeira compaixão é ajudar a si mesmo. Queremos ajudar os outros, mas precisamos começar por nós mesmos, temos que dominar nossa mente e então, poderemos ajudar os outros.

Desenvolva a compaixão primeiro para consigo mesmo e depois para com os outros. Pratique em casa, mas pense no seu Guru e desenvolva a devoção e faça aspirações por ele. As pessoas confundem, podemos fazer aspirações para que o Guru tenha uma longa e produtiva vida, que ele continue a ensinar o Dharma, que sua atividade seja benéfica e se propague. Mas estou falando aqui de pedir a ele para ele aumentar sua fé, sua devoção, sua confiança. Faça aspirações para seu respeito por ele aumentar. Quando se pratica, se você tiver uma devoção verdadeira, você receberá suas bênçãos ao final da pratica.”

Questões:

1) Como reencontrar o frescor e o entusiasmo do inicio das nossas praticas (quando descobrimos o Dharma), mas sem apego e sem banalizar a pratica de todo dia?

É por isto que eu falei para vocês da relação para com o mestre. É preciso mantê-la, manter contato com ele e tentar vê-lo quando ele está lá. Mesmo quando ele não estiver presente você poderá manter entusiasmo e motivação se lembrando dele. Se você fizer esta pergunta a alguém mais tradicional, ele te dirá que há obstáculos (quando o entusiasmo diminui), mas acredito que é uma questão de manter contato com o mestre.”

2) Você fala de ter compaixão primeiro por si, mas como fazer com o ego?

É preciso perceber a diferença entre ter compaixão por si mesmo e alimentar seu ego. Não se deve confundir estas coisas. Ter compaixão por si mesmo é cuidar de si mesmo. Mas isto é diferente de se ter orgulho de si mesmo, de desenvolver orgulho. É preciso ter uma boa saúde, ter um lar, ter um trabalho, isto tudo é se cuidar, ter compaixão por si mesmo. O orgulho nos faz sofrer, quando não estamos satisfeitos, sofremos. Existe uma diferença também entre ter compaixão por si mesmo para se ajudar e te encorajar e ser condescendente consigo mesmo – “Eu não posso fazer isto hoje, porque me sinto assim ou assado, então hoje não vou praticar”. isto não é compaixão por si mesmo, é condescendência.

3) O que é o despertar?

O sentido da budeidade é caminhar em sua propria direção e se descobrir. Quando você se descobre chega a estabilidade, a compaixão e a sabedoria. Não é simplesmente olhar para sua mente e ficar dentro dela, retroalimentando o funcionamentos de sua mente. Buda descobriu a natureza da mente, o significado do samsara e ele desenvolveu amor e compaixão por todos os seres. Despertar seria descobrir a si mesmo com a verdade e o Dharma. Para tal é preciso praticar, estar consciente de sua mente.

Vocês fizeram perguntas interessantes hoje, mas eu quero que amanhã me perguntem coisas que sejam significativas para vocês sobre o Dharma – com sinceridade sobre suas duvidas.

Tags: II Kalu Rimpoche, Ensinamentos Transcritos

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