Sangye Tonpa

SANGYE TONPA

No início desta coleção de canções, Jamgon Kongtrul compôs uma oração de duas linhas para cada um dos principais mestres da linhagem. Para evocar Sangye Tonpa, ele escreveu:

Nobre Sangye Tonpa, exemplar da linhagem das sete joias
E vossa vida de liberdade, a vós eu oro.

Sangye Tonpa (também conhecido como Tsonderu Senge ou Chödje Tonpa) foi a última das sete joias da transmissão Shangpa que começou com o Buda Vajradhara. Ele foi o único a desatar o nó vajra do selo das dakinis, permitindo que as instruções de Niguma fossem ensinadas em sua totalidade a mais de um único discípulo. Kongtrul cita-o como o epítome dos sete, aquele em quem as qualidades de todos estão reunidas, e é difícil sentir-se de outra forma ao ler sua história. A autobiografia desse mestre meditador e visionário está quase inteiramente situada em um nível “interior”, o de visões, sonhos lúcidos e clara luz.

Algumas histórias de seus primeiros anos o revelam como um prodígio. Aos nove, ele conheceu uma emanação de Machik Labdron e recebeu sua transmissão de discípulo-único e uma profecia, seu nome é encontrado em algumas linhagens de eliminação [severance lienages].

Mais tarde, aos doze anos, ele confidenciou a um lama sua profunda desilusão com a vida; o lama observou que a alienação aguda do menino indicava que ele era um prodígio espiritual ou que havia sido possuído por um demônio! Mais tarde, outro mestre o identificou como discípulo predito de sua linhagem, sétimo em uma linha de uma excepcional mestra mulher. Essa linhagem centrada na meditação do Buda Amitayus, quem Sangye Tonpa foi dito para encarnar, foi fundada por uma mestra mulher indiana conhecida como Rainha da Realização, professora do discípulo de Milarepa, Réchungpa.

Fiel à tradição Shangpa, Sangye Tonpa enfatizou a necessidade de manter em segredo a experiência meditativa e permanecer firme dentro na prática espiritual por toda a vida. O leitor pode presumir disso e da ausência de detalhes de sua vida ativa que Sangye Tonpa teve poucos alunos. Não só isso; duas biografias complementares de seus discípulos revelam que ele tinha alunos “dos mares da China a Jalandhara, na Índia”. Cento e oito discípulos foram “adeptos ocultos” preditos por Niguma quando ela visitou Sangye Tonpa e lhe deu uma série de contas de oração feitas de 108 pérolas. Esta era sua garantia de que ele poderia ensinar amplamente, que seus segredos finalmente poderiam ser ditos a mais de um herdeiro escolhido. O fato de Niguma chamar os 108 “ocultos” não se refere ao comportamento antissocial, mas à disciplina do silêncio em relação à vida espiritual. Acredito que ela não os visualizava como públicos, professores ativos, apenas como meditadores discretos, satisfeitos em praticar ao invés de pregar.

Sangye Tonpa confessa algum orgulho durante seus extraordinários exercícios de controle de sonhos lúcidos, mas ele ressalta que, assim que o seu orgulho surgiu, sua experiência se enfraqueceu até que ele mesmo se livrou dessa atitude estultificante. Ainda que houvesse a percepção durante os sonhos lúcidos de que suas oferendas e elaboradas criações de sonhos eram positivas ele foi advertido por uma dakini anônima que o apego as suas práticas como sendo positivas coisas era como um veio de ouro que poderia muito bem ser dispensado.

Como seu mestre espiritual, Sangye Tonpa era um monge. Embora diferente de Sangye Nyenton, ele aderiu à aparência externa da disciplina. Entretanto, ele também teve que incitar seus discípulos a olhar para além do seu estado físico. Ele relata que a doença o incomodou a maior parte de sua vida, enfermidade esta que ele atribuía ao fato de que cultivara durante uma vida passada na Índia dúvidas sobre poder do terceiro tantra (o da sabedoria engendrada por uma personificação do conhecimento transcendente). Sangye Tonpa costumava dizer que era um inválido durante o dia e um buddha durante a noite. Ele exerceu controle extraordinário durante sonhos lúcidos e na clara luz do sono profundo. Sua autobiografia também fornece testemunho vívido da força de sua devoção ao professor. No entanto, ele não dá qualquer indicação de que ele se ocupou com instituições. Ele instruiu muitos discípulos, mas não fundou seu próprio mosteiro. Perto do fim de sua vida, ele fez uma breve visita ao Mosteiro Shang, o primeiro dos mestres Shangpa a fazer isso, desde o encontro de Rinchen Tsondru com Kyungpo Naljor ocorrido neste mesmo local.

Na tradição Shangpa, a vida de Sangye Tonpa havia sido predita por gerações e ele foi designado repetidamente durante sua vida como aquele que levaria os ensinamentos de Niguma ao mundo. Suas qualificações para essa tarefa definem a tradição Shangpa: renúncia perfeita, discrição externa e simplicidade e dedicação ao longo da vida à plenitude da realização interior. A partir dele, embora as instruções plenas da linhagem Shangpa tenham deixado de estarem restritas a apenas um indivíduo em cada geração, aqueles que a receberam e preservaram não alteraram a sua essência.

A melodia do leão:

Uma Súplica ao Protetor dos Seres, Senhor dos Ensinamentos, Sangye Tonpa
Por Jamgon Kontrul

Como uma joia que realiza desejos, vós sois a fonte do que precisamos e desejamos.
Apenas o som de seu nome nos protege do medo dos reinos miseráveis.
Protetor dos seres, Tonpa, Senhor dos Ensinamentos,
Venerável Tsondru Sengé, a vós eu oro.

Em Karek, uma planície gramada, na linhagem Yangal Karpo de Shen Bon
Vós emergistes do ventre carregando as marcas físicas e sinais da perfeição.
Em todas as atividades, sua experiência nos ensinamentos aumentou.
Sua propensão kármica do treinamento anterior despertou; a vós eu oro.

Quando estava com nove anos, uma emanação de Machik
Veio para lhe dar um poder mental de eliminação.
Ela lhe deu instruções orais, uma linhagem de discípulo-único e uma profecia.
Filho único da dakini, a vós eu oro.

Vós vistes a prisão da existência como um poço/abismo de fogo infernal.
Com sentimentos intensos de contentamento e de desilusão, vós renunciastes a vida doméstica.
Com muitos tutores, vós treinastes nos discursos e tantras.
Leão do discurso, a vós eu oro.

Na presença do mestre realizado Zangyul-pa,
Vós fostes reconhecido como o predito –
Emanação de Buda Amitayus, sétimo na linhagem da Rainha das Realizações.
Ela lhe deu uma transmissão de discípulo-único; a vós eu oro.

Quando vós surgistes na presença do mestre Sangye Nyenton,
Muitos heróis espirituais e dakinis vos saudaram.
Como uma conexão inicial, ele lhe deu o ensinamento dos três corpos –
Vós vistes o mestre como o Buda; a vós eu oro.

Vós realizastes simultaneamente ilusão, sonho lúcido, refinamento, emanação e replicação;
Seu estado meditativo de grande poder foi completo.
Seu inteiro apego à realidade das aparências desmoronou em pedaços.
Grande destruidor da ilusão, a vós eu oro.

Do Buddha Vajradhara através da linhagem de joias,
Os mestres predisseram que tu guiarias todos os seus discípulos.
Vós se tornastes o afortunado que recebeu toda a transmissão
Das Doutrinas de Ouro; a vós eu oro.

Durante o dia, Grande Selo, inefável, além do escopo do intelecto,
E durante a noite. Auto manifesto, clara luz espontânea dotado com três características
Apareceu naturalmente em união.
Vós aperfeiçoastes completamente os três corpos de iluminação dos Vitoriosos; a vós eu oro.

Seu corpo não tinha sombra; vós vistes sem obstrução
Pensamentos de seres sencientes durante sua vida, no passado, presente e futuro.
Quando vós destes sua atenção para aflições tal como lepra, demônios e doenças crônicas,
Elas foram curadas instantaneamente; a vós eu oro.

Quando vós destes iniciações, heróis espirituais e dakinis
Ergueram a mandala e mostraram suas formas.
Ao ouvir vosso nome, os humanos entraram no caminho espiritual.
Em meramente ver vosso rosto, eles experimentaram a sublime meditação; a vós eu oro.

Em Samten Cliff, a dakini Ninguma
Deu-lhe uma guirlanda de cento e oito pérolas
Para prever o aparecimento desse número de ocultos mestres realizados
Vós trouxestes a maturidade e libertação espiritual; a vós eu oro.

Obedecendo ao comando de seu mestre, vós destes ensinamentos baseados em sua experiência
A todos imparcialmente – alto e baixo, bem e mal, velho e jovem.
Assim, o seu nome é conhecido
Chegou as margens do oceano distante; a vós eu oro.

A Terra de Jambu de seis principais regiões e regiões menores
Preenchida de mestres realizados, seus discípulos.
Vós trouxestes muitas centenas de milhares à maturidade espiritual,
E inconcebível vida de liberdade; a vós eu oro.

Conforme predito pelos mestres masculinos e femininos das seis famílias da iluminação,
A guirlanda de sete joias apareceu e vós desatastes o nó vajra.
Vós se tornastes o piloto do barco para a liberdade
Enquanto perdurar o budismo; a vós eu oro.

Para encorajar aqueles que se apegam à permanência,
Vós completastes seu trabalho para o benefício dos seres.
Na luz do arco-íris, uma chuva de flores, terremotos e incensos flutuando,
Vós partistes para a Terra Pura oriental de Flores Semeadas; a vós eu oro.

Como um suporte sagrado para as oferendas dos deuses e humanos,
Vós emanastes um número ilimitado de restos surpreendentes nas formas de divindades e relíquias.
Até o fim da existência, eles são para os fiéis uma base para o cultivo do mérito
Que nunca se deteriora, mas sempre aumenta; a vós eu oro.

Senhor dos Ensinamentos incomparáveis nos três mundos,
Olhe para nós com seus olhos de sabedoria de sua terra pura.
Desenvolva forte compaixão por mim, seu filho, que ora a vós.
Nesta vida, abençoe-me com a realização da iluminação manifesta.

(A guirlanda de flores de Udumvara, pp. 13b-14b)

 

Sangye Tonpa

Protetor dos seres, Sangye Tonpa, Tsondru Senge, recebeu a linhagem mestre-discípulo de sete joias que começou com o Buda Vajradhara. A dakini de sabedoria predisse que ele era o mestre que iria desatar o nó vajra da transmissão. Sua atividade iluminada permeou completamente o universo, incluindo os mundos dos deuses. Aqui ele se encoraja a si próprio a ser diligente:

Mestre espiritual, Buddha,
Epítome de bênção e compaixão, aos seus pés eu me curvo.

Meu corpo e mente são fracos em diligência e forte em dúvidas –
Para eles eu dou este conselho:

Eu vejo que vós se distrais
Nos assuntos intermináveis desta vida curta.
Grande meditador, eu vos aconselho a se distrair
Com o negócio da eternidade, a prática da meditação.

Se vós não usa a devoção para atrair a compaixão do mestre
Das nuvens de suas bênçãos,
As chuvas de experiência e realização nunca cairão:
Grande meditador, eu vos aconselho a orar.

Se vós não usa a familiarização e realização para atrair a compaixão das divindades
Das nuvens de sua realização,
As chuvas de realizações comuns e supremas nunca cairão:
Grande meditador, eu vos recomendo que medite e recite mantras.

Se vós não usa ofertas de torma e feitos para atrair a compaixão dos protetores
Das nuvens de sua atividade,
As chuvas da atividade iluminada nunca cairão:
Grande meditador, eu vos aconselho a reunir ofertas de torma e banquete.

Quando orar ou realizar as fases de criação e conclusão das meditações,
Não caia sob o domínio de pensamentos discursivos.
Desista de esperar pelas realizações desejadas.
Grande meditador, eu vos aconselho a meditar sem distração.

A raiz da ajuda aos outros é a compaixão.
Não pense na sua própria felicidade, mas na dos outros.
Não abandone mentalmente outros seres sencientes.
Grande meditador, eu vos aconselho a desenvolver uma mente altruísta.

Para seus fiéis filhos espirituais Sangye Tonpa cantou esta canção vajra de instrução das doze necessidades:

Nobres mestres espirituais, a vós eu me curvo.
Bondoso [mestre espiritual], o que eu preciso, a vós eu oro.
Mestres que o precederam, a vós eu louvo.

Peço para me ouvir por um momento:

Pessoas fiéis com medo do nascimento e morte
Precisam de um mestre espiritual que tenha uma linhagem.

Em direção a instruções profundas que estão além da dúvida,
Vós precisais de diligência inabalável.

Por esta curta vida em que vós não podeis permanecer,
Vós precisais de prioridades não confusas.

Para permanecer em retiro isolado,
Vós precisais aumentar continuamente a tolerância às dificuldades.

Para integrar o que quer que surja com a meditação,
Vós precisais de instruções profundas na alquimia.

Para a conduta auto manifesta espontânea,
Vós precisais liberar as oito preocupações mundanas em seu próprio terreno.

Para que o resultado surja de si mesmo, espontaneamente presente,
Vós precisais libertar a esperança e o medo em seu próprio terreno.

Para alcançar a iluminação em uma vida,
Vós precisais de respeito e devoção incessantes.

Para ver o mestre espiritual como o corpo da iluminação última,
Vós precisais liberar visões errôneas em seu próprio terreno.

Para ajudar os seres a domar suas mentes,
Vós precisais de grande compaixão incomensurável.

Esta curta canção das doze necessidades
Fornece condições favoráveis para a realização.

Quando o protetor dos seres, Sangye Tonpa, considerou demonstrar a partida para a terra pura do leste, Flores Semeadas, ele cantou a seus discípulos este cântico, que capta a essência de seu conselho oral:

Mestres espirituais, divindades, dakinis e protetores:
Protejam-me como seu filho com compaixão incomensurável!

Pessoas ordenadas fiéis e respeitosas do Tibete central, ocidental e oriental,
Cultivem a experiência desta forma:

Bane da sua mente a atividade mundana sem fim
E descarte sua afeição por aqueles a quem você se apega, mas nunca pode satisfazer.

Gaste seu tempo em virtude e rejeite suas intermináveis conversas.
Renuncie à esperança e ao medo relacionado a refazer o passado ou antecipar o futuro.

Na vida não a tempo a perder; termos técnicos são inúteis.
Animais não são satisfeitos pela água em uma miragem: bebam o néctar.

Se vós não atingistes vossa meta, não pode ajudar outras pessoas:
Primeiro realize obstinadamente sua própria meta.

Compaixão incomensurável ajuda espontaneamente outras pessoas nesta e em vidas futuras;
Desenvolva-a para todos os seres.

Não se limite por seus próprios desejos nem mesmo por um instante;
Desenvolva a atitude de que tudo o que você faz é para ajudar os seres sencientes.

Reflita continuamente sobre a morte e a impermanência;
Você sentirá que não precisa de nada e esquecerá esta vida.

Nunca se separe da meditação sobre seu corpo como sendo o da divindade,
Aparência e vazio, livres de apego.

Isso realiza os dois objetivos em meses ou anos.
Nunca se separe da oração intensa e sincera ao mestre espiritual.
Eles fazem a experiência e realização surgir sem esforço.

Aproxime as dakinis e protetores.
Eles vão protegê-lo dos obstáculos nesta vida,

Na morte, durante o estado intermediário e na próxima vida.
Separado da sua própria mente, não há Buda, nem ser senciente;

Saiba que o que parece externo, o que quer que apareça, será a mente.
Essa mente é aparência e vazio, uma exibição mágica.

Liberar-se do apego à ilusão mágica é o Grande Selo luminoso.
Além dos conceitos de afirmação ou negação, nascimento ou morte, existência ou nada,

Sem meditação ou atividade mental, vós estais livre da existência e da transcendência.
Karma e karma amadurecido são liberados em seu próprio terreno.
Livre do apego dualístico, olhe para a grande união.

Que incrível! Todo mundo tem essa descontrolada consciência comum
Mas é não está  consciente disso.
Eu percebi isso através da bondade [do meu mestre].

Agora, não faça perguntas; desenvolva uma certeza determinada.
Atualize as três facetas indivisíveis da presença espontânea.

As instruções orais da mente imortal:
Budas vitoriosos dos três tempos de sabedoria imortal,
A vós eu me curvo.

Depois de terminar as orações infundidas com a mente do despertar
E união com a mente do mestre espiritual,
Pense em seu próprio corpo como a divindade, aparência e vazio.

A essência da mente inseparável da forma da divindade,
Vazio,
Não foi vista, não é vista e nunca será vista por nenhum Buda.

Nela, não há doença, nem morte,
Nem existência ou transcendência, nem afirmação ou negação.
Mesmo se a transição [da vida para a morte] vá mal
E o estado de presença mental decline,
O sofrimento no fim da vida será naturalmente purificado
Quando perceber isso por um instante,
Ou recordar, ouvir, ou estiver ciente disso.

No primeiro estágio do estado intermediário,
Clara luz e o corpo de iluminação do perfeito êxtase,
Inseparável como o corpo manifesto da iluminação,
Realizará espontaneamente os benefícios dos outros incessantemente.

Eu apresentei isso, a realização imortal dos budas,
Para o benefício dos meus discípulos mais maduros.

Pela virtude deste ensinamento,
Que seres conscientes cujos números preenchem o espaço
Realizem o significado da sabedoria da imortalidade.

Isso conclui a composição para meus verdadeiros herdeiros, meus discípulos mais amadurecidos, da Libertação Natural de Sua Própria Mente Imortal, pelo nobre Virya Singha [Tsondru Sengé]. Eu ofereci [a Sangye Nyenton] quinhentas sacas de cevada, sete medidas de ouro, um dzo, e uma peça de tecido fino da região sul do Himalaia para receber estes ensinamentos, e então eu cultivei suas experiências.