Taranatha – A Essência da Ambrosia 17 – Contemplações 26 a 28

 

Tivemos hoje uma breve revisão para localizar, no panorama dos ensinamentos do Senhor Buda, o texto que estamos estudando e compreendermos por que meditar sobre o sofrimento se buscamos a felicidade. Em seguida tivemos a leitura, os comentários e a meditação analítica sobre as contemplações 26 a 28 do capítulo 5.

 


PARTE II

CAPÍTULO 5 – O Tormento dos Reinos Elevados

Contemplação 26

Outros Sofrimentos Humanos

O sofrimento de buscar aquilo que se quer e não encontrar: eu luto e arrisco a minha vida apenas para conseguir alguma riqueza, fama e poder. Embarco em projetos que levam muitos meses ou anos para serem finalizados. Trabalho continuamente, estação após estação, mas não recebo nenhuma recompensa por meus esforços. Fazendo da força das minhas pernas o fardo, da força dos meus braços o arado, da minha panturrilha o cavalo e minha cabeça o cocheiro, eu vou me conduzindo para o sul ou para o norte, mas nenhum dos meus objetivos é alcançado. Voluntariamente suporto a fome e a sede, atormentado pelo calor e o frio, sem descanso dia e noite. Enquanto meu corpo de carne e sangue se desgastam, eu não sou capaz de adquirir nem mesmo alimento suficiente ou roupas. Porque todos os meus esforços são mal sucedidos minha mente fica exausta.

O sofrimento de encontrar aquilo que é desagradável: este tipo de sofrimento inclui estar à mercê de um inimigo, ser acometido por uma doença virulenta ou por um sofrimento intenso, encontrar um assassino que pretende me matar, cair de um penhasco, ser atirado na prisão, ser banido e outras experiências de perda.

O sofrimento de ser separado do que amamos: quando sou separado dos meus pais, parentes, esposa(o), casa, amigos – pessoas impossíveis de se viver sem elas – angústias insuportáveis surgem na minha mente, até o ponto de eu andar curvado de tanto pesar tristeza.

Se você quiser expandir esta contemplação, medite de acordo com a sessão sobre a impermanência e a morte explicada anteriormente.

Contemplação 27
O Sofrimento dos Reinos dos Deuses e Semi-Deuses

Eu devo imaginar: e se tivesse nascido no reino dos semi-deuses, será que eu seria feliz lá? Não, eu não seria. Devido à inveja pelo esplendor dos deuses, minha mente estaria constantemente escondida com ansiedade. Ocasionalmente os semi-deuses brigam com os deuses. Porque o mérito deles é fraco, eles devem suportar o sofrimento de ser mortos ou de apanharem, algumas vezes de serem mutilados ou de perderem seus membros. Porque muitos deles são inclinados para o vício, eles não gostam do dharma. Embora alguns deles sejam inclinados à prática, suas mentes são obscurecidas pelo carma plenamente amadurecido e assim não têm a boa fortuna de alcançar a realização extraordinária.

“Bem”, eu poderia pensar então, “se eu nascesse no reino dos deuses dos desejos, certamente eu seria feliz lá?” Não, eu não seria feliz lá também. Sem nem mesmo eu me dar conta disso, minha vida seria esgotada na medida que eu descuidadamente me rendesse aos prazeres dos sentidos. Além disso, os deuses fracos são retirados de seus lugares pelos deuses fortes. Aqueles com menos méritos ainda são tão pobres que não têm posses a não ser um simples violão. Quando eles veem a grande riqueza dos outros deuses, experimentam angústia mental e desespero com relação â sua falta de mérito.

Os deuses que vivem no Céu dos Quatro Grandes Reis e no Céu dos Trinta e Três são particularmente inclinados a lutar com os semi-deuses, e isso lhes causa intenso sofrimento. Todos os deuses do reino dos desejos experimentam os sofrimentos ordinários da morte e da transferência, assim como o “sofrimento do declínio”. Com relação ao último, sete dias antes de um deus do reino dos desejos morrer, ele vê cinco presságios da morte: as cores do seu corpo deixam de ser atraentes, ele se sente depressivo e desamparado; as guirlandas de flores que o adornam secam; suas roupas assumem um odor desagradável e seu corpo começa a suar.

Quando esses sinais aparecem ele é abandonado pelos seus servos e amigos de ambos os sexos. Então, no meio da companhia de outros deuses, ele se torna consciente de que, apesar do seu apego às diversões desejáveis do reino dos deuses, será arrancado de lá sem escolha. Sem nenhuma possibilidade de evitar seu destino, ele sofre como uma mãe camelo que perdeu seu filhote, como uma cobra levada por um falcão, como um peixe se contorcendo na areia quente ou como um barco à deriva no imenso oceano. Apesar da duração deste período de dor ser sete dias-deuses, essa quantidade chega a pelo menos 10.400 anos humanos, como no caso, por exemplo, da Terra dos Quatro Grandes Reis. Depois de suportar esse longo período de dor e declínio, ele morre. Depois disso, é quase impossível que ele renasça novamente como um deus. Aqueles que nascem como humanos são também extremamente raros.

Muitos renascem nos reinos inferiores. Como é dito: “depois que um ser vive no mundo dos deuses Se ele não tem nenhum mérito não utilizado Ele irá renascer sem escolha como um animal, Fantasma faminto ou ser do inferno, o que quer que seja apropriado.”

Uma vez que um deus tem clarividência, ele é capaz de ver os seres nos reinos inferiores e perceber onde ele renascerá. Se ele renascer como um humano, o prazer dos seus olhos é desanimador, e ele vê muitos humanos que estão sofrendo. Se ele renascer nos três reinos inferiores ele percebe que é destinado a experimentar o sofrimento ali. A angústia mental insuportável que ele sente é ainda pior do que o sofrimento físico experimentado pelos seres dos três reinos inferiores.

 

Contemplação 28

O Sofrimento dos Reinos dos Deuses Elevados

Então eu poderia pensar “Bom, se eu renascer em um dos reinos dos deuses elevados eu seria feliz lá?” Ao contrário, também não há felicidade ali. Seres ordinários são incapazes de perceber o sofrimento manifesto no reino dos deuses elevados, mas seres nobres podem detectar que a experiência dos deuses não transcende o sofrimento da existência complexa. Porque os deuses estão intoxicados com transe, suas qualidades positivas não aumentam. Enquanto eles estão saboreando a experiência do transe, não podem suportar o fato de serem separados dela. Além disso, quando o seu transe se deteriora eles morrem. O carma meritório prévio que eles acumularam como seres ordinários é utilizado e eles novamente renascem no reino dos desejos. É verdade que o transe da meditação mundana dos humanos e o transe da absorção meditativa sem forma mencionado aqui são estados dotados de uma experiência de intensa bem-aventurança e extremo relaxamento, mas esses estados sozinhos não estabilizam a mente e aqueles que praticam apenas eventualmente se deterioram em seres ordinários. Suas aflições emocionais se tornam até mesmo grosseiras e seu sofrimento maior que antes. Qual é o ponto de viver neste estado?