Introdução ao estudo do texto de Shantideva: O Bodhicharyavatara

Por Lama Trinle (25/10/2021)

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Quer seja para começar ou aprofundar o estudo e a prática do Dharma (o ensinamento do Buda), o texto de Shantideva é uma excelente referência. O texto, escrito em estrofes de quatros linhas, é curto (mais ou menos 150 páginas), mas é um resumo concentrado dos ensinamentos do Mahayana.

O autor e o contexto.

Na época de Shantideva (685 – 763 d.C. Art. 13), a apresentação dos ensinamentos do Buda (Art.14), na sua forma do Grande Veículo (Mahayana), estava bem estabelecida.

O Grande Veículo (Art. 15), que se desenvolveu a partir do primeiro séculos d.C., é baseado nos textos da Prajnaparamita e os tratados dos famosos mestres indianos: Nagarjuna ( 150-250 d.C.), fundador da filosofia Madhyamika;  Asanga (sec. IV) e Vasubandhu (316-396 d.C.) fundadores da tradição Yogachara Art. 12). Todos estudaram na universidade de Nalanda onde Shantideva foi um monge (Art.6).

O Grande Veículo (Mahayana) enfatiza o estudo e a prática conjunta da Sabedoria e da Compaixão.

A Sabedoria refere-se à compreensão correta da natureza da realidade, relacionada a seres vivos e fenômenos. Do ponto de vista relativo, esses são considerados como produzidos por causas e condições.  Do ponto de vista último, de sua natureza essencial, são vazios de existência própria (insubstanciais). Isso é realizado por meio de uma analise metódica, bem como por métodos contemplativos.

A realização da vacuidade, do não condicionado (Art. 9), possibilita a liberação dos diversos sofrimentos da vida limitada do domínio condicionado. Shantideva traz essa perspectiva logo no início de seu texto, depois das homenagens:

As condições favoráveis (liberdades e aquisições)
Que permitem realizar o Bem dos seres, são muito difíceis de reunir.
Se, uma vez obtidas, nós não as aproveitarmos,
Quando poderemos reuni-las novamente?!
(Capitulo I – Estrofe 4)

As temáticas lembradas nessa estrofe evocam uma perspectiva global dos ensinamentos do Buda, tais como são apresentadas em detalhes nos manuais de Lam-rim (progressão gradual).

São expostas de maneira particularmente clara no texto de Gampopa – O Precioso Ornamento da Liberação, que é composto por seis partes. Parte II: Uma Existência Humana é dita rara e preciosa quando ela reúne as condições favoráveis ( 8 liberdades e 10 aquisições) que permitem  realizar o Estado de Buda e de manifestar sua Atividade Altruísta de maneira espontânea (Partes V e VI). Essa realização é possível porque todos os seres  tem o potencial (Parte I: A Natureza de Buda). Para alcançá-la precisamos das orientações de um Mestre Espiritual Autêntico (Parte III) onde as instruções tem por objetivo  eliminar os quatros obstáculos que impedem a realização  plena do nosso potencial: 1) Para o apego a esta vida: A meditação sobre a Impermanência e a morte; 2) Para o apego ao ciclo de existências condicionadas: A meditação sobre os Sofrimentos do Samsara e o Karma; 3) Para o apego à Liberação individual: A meditação sobre a Benevolência e a Compaixão; 4) Para a ignorância dos meios para atingir o Despertar: As Instruções sobre a Bodhicitta (Parte VI).

As causas dos sofrimentos são os atos negativos cometidos pelo corpo, a palavra e a mente. Eles se manifestam, particularmente, quando a mente está sob o poder das emoções negativas: A cobiça, o orgulho, a raiva, a inveja e a ignorância. Sua causa inicial é o não reconhecimento (ma-rigpa) da natureza última da realidade nos seus aspectos relativos e últimos (Ver os ensinamentos do Venerável Kalu Rinpotche 1905-1989. A compilação de seus ensinamentos está disponível no site  do KPG).

Considerando que os diversos sofrimentos impregnam todos os seres, bem como a nós mesmos, precisamos  desenvolver a Benevolência e a Compaixão. Para torná-los efetivos, aspira-se à realização do Estado de Buda e  aplicam-se os meios para  realizá-lo. Essa atitude corresponde à Mente do Despertar (Bodhicitta) nos seus aspectos de aspiração e de aplicação; eles são a principal temática do texto de Shantideva.

O texto

Diversos textos foram preservados na sua língua original: o sânscrito. Numerosos manuscritos antigos chegaram até nós nas suas traduções em tibetano, chinês, mongol e nepalês (Art.1). Atualmente, estão disponíveis diversas traduções nas línguas europeias (Art. 2).

Nos primeiros capítulos, Shantideva apresenta os numerosos benefícios da geração e do desenvolvimento da Bodhicitta.  Mas a simples aspiração ou mesmo a firme resolução de realizar um objetivo não bastam para concretizá-lo. É necessário aplicar de maneira concreta os meios adequados para alcançá-la. Assim, seguindo o caminho dos Bodhisattvas, se pratica a generosidade, a vigilância, a ética, a paciência, a energia, a meditação e se desenvolve a sabedoria. Nos capítulos seguintes, Shantideva vai propor conselhos práticos para desenvolver essas qualidades e conclui seu texto com a dedicação de mérito no capitulo X.

Os comentários

O texto de Shantideva é curto e concentrado. Tradicionalmente, é estudado com comentários explicativos que apresentam os assuntos com mais detalhes.

Foi preservado o comentário do mestre indiano Prajnakaramati (sec. IX) na sua língua original, o sânscrito, bem como na sua tradução tibetana. Temos uma tradução em inglês feita por Sharma (Com. 16) assim  como uma outra feita por Sua Santidade Dalai Lama (Com. 2).

No Tibet (Art. 16), diversos mestres escreveram um comentário sobre esse texto. Recentemente, alguns foram traduzidos e publicados em inglês, como os de: Jetsun Sönam Tsemo (1142–1182) – Com. 8a e Com. 8b); Sabzang Mati (1294-1376) – Com. 5a e Com. 5b; Drukchen Pema Karpo (1527-1592); Pawo Tukla Trengwa (1504-1566) – Com. 9a e Com. 9b.

O texto de Shantideva era o favorito de Patrul Rinpotche (1808-1887) que o comentou inúmeras vezes. No final do século XIX, alguns de seus discípulos também publicaram comentários: Kunzang Pelden (1862-1943) – Com. 3 e Com. 4; Kunzang Sonam (1823-1905) e Ju Mipam Gyatso (1846-1912) – para o capitulo IX.

Mestres tibetanos contemporâneos publicaram excelentes comentários baseados  nos precedentes, bem como os de Tsongkhapa (1357–1419) e seu principal discípulo Dharma Rinchen (1364–1432). São os comentários dos Geshes: Losang Tengye (Com. 10); Jampa Tegchok (Com. 11); Yeshe Tobden (Com. 12); Tenzin Zopa (Com.13); O mestre Kagyu Trangu Rinpotche (Com. 14); seu tradutor Karma Choepel (Com.19); Kelzang Gyatso (Com.15a e Com. 15b) e a publicação de Asian Classics (Com. 18).

No ocidente, os estudos acadêmicos começaram no final do século XIX, quando chegaram os primeiros manuscritos em sânscrito. A primeira tradução francesa foi feita por Louis de la Vallée Poussin, entre 1892 e 1907 (Text. 5a e Text. 5b); Em inglês, por Barnett, em 1909 (Text. 6) e uma nova em francês por Finot, em 1920 (Text. 7). Essa última tradução foi uma referência até a nova tradução em francês feita pelo Comitê Padmakara em 1992 (Text. 1a, Text. 1b, Text. 1c e Text. 1d). Ela seguiu um ensinamento ministrado num centro budista na França por Sua Santidade Dalai Lama, em 1991. A gravação desses ensinamentos foi transcrita e publicada sob o titulo: Como um  Relâmpago Rasgando a Noite (Com. 1a, Com.1b e Com. 1c).

Sua versão inglesa: A Flash of Lightning in the Dark Sky já foi republicada três vezes com simples mudança de título e de capa do livro! Este documento continua uma referência primordial.

Na continuação desse evento, em 1993, Sua Santidade Dalai Lama dedicou um encontro inteiro ao estudo do capitulo IX (Sabedoria) em referência aos comentários de Kunzang Palden e Kunzang Sonam. Em 1994, teve uma primeira tradução em francês com o titulo: Tant que durera l’Espace. Em 2004, teve uma revisão completa da tradução por Tubten Jinpa, o principal tradutor do Dalai Lama, que foi publicada com o título: “Práticas de Sabedoria“.

As outras traduções do texto e dos comentários seguiram esse evento.

No seu artigo: Três Traduções Recentes (Art. 2), Luiz O. Gomez evoca os critérios necessários para fazer uma tradução que respeita o texto original, mas que também restitua seu significado e elegância na língua nativa. Toma como exemplos as três primeiras traduções de La Valée Possin, Barnet e Finot e comparadas com aquelas de Padmakara (Text. 1a, Text. 1b, Text. 1c e Text.1d), Wallace (Text.2), Crosby e Skilton (Text. 3). Sua própria tradução foi publicada na Norton  Encyclopedia of Religions (Text.4); na sua introdução a essa publicação: In the World of the Buddha, Donald Lopez Jr. é excelente como de habito!

Uma atenção particular foi dedicada ao capítulos VI – Paciência ( Dalai Lama : A  Arte de Lidar com a Raiva; Lama Zopa: Patience; Thurman: Anger) e ao capitulo IX – Sabedoria (Dalai Lama, Wallace: Transcendante Wisdom; Mipam: Ketaka Jewel, the Wisdom Chapter; Le Joyaux Opalescent. Teses de doutorado: Dorji Wangchuk: Resolve to become Buddha; Oldmeadow-Prajnakaramati: The Wisdom Chapter; Sweet : Shantideva and Madyamika.

As diferenças e complementariedades possíveis entre estudos tradicionais e acadêmicos contemporâneos são bem descritas no artigo de Makranski (Art.3). Um estudo inter-religioso foi feita pelo teólogo cristão Schimdt-Leukel (Com. 17Art. 7). Uma análise mais linguística e filosófica comparativa foi feita por Alexis Levis (Text.17). Brassard dedicou seu livro ao significado da Bodhicitta (Art. 10). Além dessas referências, existem diversos outros estudos, traduções, artigos, documentos complementares que serão disponibilizados progressivamente. Os documentos são classificados por categorias:

Text. Para textos originais e suas traduções. As traduções feitas por diferentes tradutores portam um diferente numero, por ex.: Text. 1 – Padmakara, Text. 2 – Wallace etc. Quando o mesmo autor é traduzido em diferentes línguas é indicado por uma  letra diferente,  ex.: Text. 1a pela versão inglesa, Text. 1b pela tradução portuguesa, Text. 1c pela tradução francesa, etc.

Com. Para comentários; notar que às vezes existe uma tradução do texto e um comentário separado, mas vindo do mesmo autor. Às vezes, a tradução do texto e comentário estão juntos.  Art. para os artigos e teses.

Começamos pela a vida de Shantideva. O contexto histórico e geográfico; a reunião dos textos originais e das traduções existentes e a apresentação dos documentos relacionados ao capitulo I: Os benefícios da Bodhicitta.

Como estudar?

As pessoas que buscam simplesmente informações e os que se dedicam a estudos acadêmicos, têm por hábito seguir de acordo com seus interesses e metodologias habituais. Pode ser útil considerar que, para aprender coisas novas, é preciso ultrapassar a busca da simples confirmação de seus pressupostos e estar disposto a reconsiderar suas convicções à luz de fatos ou perspectivas diferentes.

Um praticante do Dharma está geralmente conectado a uma tradição viva que lhe oferece um programa de estudo, de práticas, bem como professores qualificados para providenciar instruções individuais. Existem variações nas pedagogias, dependo das tradições e dos mestres, mas os ensinamentos fundamentais do Mahayana, como os que estão resumidos no texto de Shantideva, são comuns a todas as tradições. São mestres das maiores delas que redigiram os comentários mencionados. Além disso, é considerado que o texto de Shantideva seja a origem dos lam-rims bem como dos métodos de treinamentos da mente: Lojong.

Já se encontram diversas traduções do texto e de comentários, em português, francês etc., mas, por enquanto, a maior parte das publicações existe somente em inglês. Assim, a facilidade de acesso às traduções depende um pouco de cada um. Aqueles que entendem diferentes línguas podem participar das traduções na sua língua natal para tornar os textos acessíveis a um maior número de pessoas.

É possível estudar e meditar utilizando principalmente um texto e um só comentário. Pode-se focalizar sobre o estudo () de um capitulo, sobre uma estrofe, uma ideia ou uma perspectiva e ver o que os diversos comentários dizem a respeito.

Uma vez adquiridas essas referências, é possíveis refletir e se perguntar com pertinência: – O que significa? – Quais são as implicações? – Como se diferencia de outras perspectivas. Isso é a meditação analítica (Sam).

Os praticantes do Dharma sabem que o estudo e a compreensão intelectual são só as primeiras etapas. Elas produzirão seus resultados (Dre) só quando estiverem integrados à vivência pela aplicação prática (Gom).

A progressão efetiva no caminho do despertar não se limita a uma simples acumulação de informações. Implica numa transformação progressiva, mas integral, do modo de ser, do modo de funcionar do corpo, da fala e da mente.

A transição  do estado condicionado (onde prevalecem a confusão, as paixões,  o poder do karma) para o estado de Buda (no qual toda a confusão é dissipada e, as qualidades potencias desenvolvidas) não resulta de uma simples acumulação de conhecimentos, mas de uma transmutação completa do modo de ser e de sua expressão nos comportamentos. (Ver Gampopa – Os Cinco Caminhos; Os 10 níveis de Bodhisattva e a Atividade do Buda).

Essa transformação progressiva, mas integral, tem sua origem na geração e no desenvolvimento da Mente do Despertar, Bodhicitta. Com diz Shantideva:

Como o supremo elixir, que transforma as substâncias em ouro,
É a Mente do Despertar, que transforma esse corpo impuro,
No inestimável Corpo do Buda,
Precisamos  preservá-la com cuidado!
(Capitulo I – estrofe 10)

 


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